nas-redes.png

EDIÇÃO IMPRESSA

Sexta, 24 de Julho

Capa
Capa

EDIÇÃO IMPRESSA


ESPECIAL

Em tom poético, Jonas Hames, jornalista batistense, narra uma espécie de julgamento para a barbárie cometida contra Flávia Godinho Mafra

Por Kaiann Barentin

Em suas redes sociais, o jornalista de São João Batista, Jonas Hames, conhecido por escrever textos reflexivos e comoventes, emocionou internautas ao narrar uma espécie de julgamento para a barbárie cometida contra Flávia Godinho Mafra. Por entender que o texto precisa ser lido pelo maior número de pessoas possível, compartilhamos sua íntegra aqui:

"Estou com o martelo e a toga. Sou o juiz e a condeno. Meu julgamento não tem constituição ou lei. Não cabe defesa, alegações ou recursos. Está decidido: uma sentença eterna ao inferno; em vida e na morte. Não aceito apelações. Será fogo, ranger de dentes, choro, grilhões no tornozelo e sofrimento eterno. Me bastam como provas as fotos da Flávia e o choro do bebê. Me basta imaginar.

Passe de mim o cálice do bíblico 'não julgueis, para não seres'. Eu a condeno. Não fraquejo na lei dos homens. Nem dou ouvidos aos resmungos de defesa torpe. A boca do forno, onde o corpo foi colocado, o bebê foi roubado, será a passagem para as consequências. Retire-se ao inferno, e o diabo que a aceite. Eu condeno, e não quero ouvir apelos de clemência ou alegações de insanidade.

Eu a condeno a ficar longe dos anjos. Dos bebês que povoam os céus, das mães arrancadas dos filhos, dos filhos que lá de cima olham suas mães. Eu a condeno a jamais poder segurar um bebê nos braços, ou fazer graça com uma criança. E a ter dores de parto, mesmo não tendo autorização para parir. Todos os dias, em todo a existência e após ela.

Trinta anos não faz justiça. Condeno ao eterno sofrimento das almas más. Trinta anos, quem sabe Flávia fosse avó, quem sabe festejaria o novo emprego da filha, quem sabe se olhasse no espelho, se preparando para o casamento. Minha sentença vai além da barbárie, vai aos momentos perdidos, as fotos não tiradas e aos sonhos partidos. O júri será unanime: é culpa a dores eternas. Nas grades ou debaixo da terra.

A pena não será atenuada. Será agravada a cada dor de saudade e cada instante perdido entre mãe e filha. Na escolinha, nos aniversários, na formatura. Será computada a saudade do marido que teve os projetos esmagados, das avós que terão que ser mães também. Já tenho a sentença. Irás parir dores, sofrimento e remorsos. Não precisa de deliberações. Relatos, fotos e confissão já fazem relatório final.

Não há cela que baste, anos de penas que reduzem por bom comportamento. Bons modos na cadeia não encobrem o rastro da barbárie. O papel dos homens da lei já diz: homicídio qualificado, tentativa de homicídio qualificado do bebê, ocultação de cadáver, parto suposto, subtração de incapaz e fraude processual. Três décadas não é suficiente para aplacar a dor. Por isso, no meu tribunal de exceção eu a condeno.

Terá que servir de exemplo. Nenhuma mãe pode ser tocada no seu santo momento de gestação. Criança alguma merece ser órfão de mãe antes de ter nascido. Bebê desejado não pode ficar sem os conselhos da mãe e jamais podem deitar sem o beijo de boa noite. Condeno por todas as noites perdidas, enjoos e orações de gratidão pela dádiva de ser mãe. Mãe alguma pode ser violada.

Sentencio por ter tido a frieza de planejar por dois meses uma barbárie inimaginável até para as mentes mais brilhantes da ficção. Por ter importunado a vítima com alegações de amizades diabólicas. Pelo medo que as mães em coletivo, vão enfrentar a partir desse crime. Por faze-las desconfiar até de quem está próximo. Pela crueldade material e pela psíquica que mãe e bebê foram submetidos. Pena perpétua no meu tribunal.

Que Deus a perdoe se houver algum fio de arrependimento. Mas, não me peça clemência. Como filho imperfeito, não me comovo com as alegações. Não há perdão. No meu tribunal não tem prescrição de penas, recursos e demora. O crime não pode compensar. E te condeno por minha revolta. Por ter me pegado olhando para os meus filhos com horror para a insegurança que está ali fora. Pelo vazio que sentimos todos nesses últimos dias.

Como juiz, me sinto nesse incomensurável vazio que, me atravessa em farpas o corpo. Não para de doer. Pelo que ocorreu e pelo que vem aí pela frente. Pelos debates de juristas e detalhes da investigação. Pela crueldade em cada palavra do depoimento. Não para de doer, nenhum minuto sequer. Não podemos mais dar as mãos para Flávia, mas podemos fazer justiça. Condeno a uma perpétua nessa e na outra vida.

Perdão, Flávia. Mas, a lei dos homens tem limite de 30 anos. Estou de toga e martelo nas mãos. Não aceito recursos e explicações."




ULTIMAS NOTÍCIAS

jr.png

| | insta |

Quem somos | Mapa do site | Webmail | Painel de controle

Copyright © 2017 Jornal Razão - Tijucas SC
Todos os direitos reservados.


Whatsapp
(48) 8453-0809

 

Quem somos | Mapa do site | Webmail | Painel de controle

 

Copyright © 2017 Jornal Razão - Tijucas SC
Todos os direitos reservados.