Lorran Barentin

Herdeiro da Lenha na Fogueira e diretor do Jornal Razão. "Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade".

Descobri que sou petista

Já dizia a poeta: quem se define se limita.

Descobri que sou petista

Quem és tu?

Segundo Mário Sérgio Cortella, persona por quem nutro profunda admiração, “tu és um individuo entre outros 6 bilhões e 400 milhões de indivíduos compondo uma unica espécie dentre outras 3 milhões de espécies já classificadas que vive em um planetinha que gira em torno de uma estrelinha que é uma entre outras 100 bilhões de estrelas compondo uma unica galáxia entre outras 200 bilhões de galaxias num dos universos possíveis que de tanto se expandir um dia irá desaparecer”.

Será que somos tão importantes a ponto de poder determinar o que outra pessoa é ou possa vir a ser?

Ontem descobri que sou petista. Aliás, outras pessoas determinaram que eu sou petista. Ao mesmo tempo, para outros grupos de pessoas, sou bolsonarista. Mas voltando ao Lorran Petista, eis o que aconteceu:

A PRF precisou fazer uso de força para dispersar a multidão na BR-101, em Itapema. Fomos até o local dar sequência a nossa árdua e incisiva cobertura dos fatos que ocorrem em nosso estado após a eleição de Lula.

Tentamos conversar com os manifestantes, mas ninguém quis se pronunciar. Nos disseram para procurar um tal de Vítor, que ninguém sabia dizer como era ou quem era. Não achei. Outros falaram que não dariam entrevista por medo de prisão ou multa.

Ok, tentamos ouvir um lado. Não deu, mas não iríamos desistir. É claro que alguém iria falar. Afinal de contas, todos os manifestantes estavam revoltadíssimos com a PRF.

Já que não tivemos sucesso naquele momento, parti para agilizar meu trabalho. Fiz o óbvio: fui conversar com a PRF e colher a versão deles. Ou será que vivemos uma ditadura em que a versão deles não importa?

Conversei com alguns agentes e também com o comandante que estava no local. Nesse momento, fomos filmados e fotografados. Pronto: o Jornal Razão, o JR, o Lorran e o Pyerre viraram petistas. Mas não era a esquerda que não gosta e não conversa com a polícia? 

Sim, viramos petistas por conversar com a polícia. Tem coisa que é absurdamente inexplicável. 

É óbvio que não sou petista. Minhas convicções indubitavelmente não permitem que me identifique na ideologia do Partido dos Trabalhadores. Acho que discordo, no mínimo, com 90% das ideias do Lula e do PT. Mas esse simples ato naquele exato momento fez com que toda minha bagagem fosse jogada no lixo. 

Eu não acho que seja inválida a manifestação e aclamação popular contra a eleição de Lula. Acredito que todos tenham o direito de protestar e gritar por aquilo que considerem ser certo, principalmente quando existam fundamentos que te levem a crer com veemência naquilo.

Mas desde a infância aprendi com um sábio mestre que tive na escola. O Professor Cristiano sempre disse que respeito e liberdade existem até onde chega a do próximo. E não estou aqui entrando no mérito do ir e vir. Não estou entrando no mérito da democracia. Estou entrando no mérito dos rótulos e preconceitos.

Que democracia é essa em que somos obrigatoriamente taxados de A ou B se ousamos discutir ideias? Não podemos discordar das opiniões de Lula e Bolsonaro? Somos obrigados a acatar, bater palma e ovacionar tudo o que nossos funcionários (sim, na teoria, político é funcionário do povo) consideram ser certo?

Em tempo, aconteceu nesta mesma semana o inverso da situação que narrei acima. Um sindicalista tijuquense disse que o Jornal Razão é bolsonarista simplesmente por conta de algumas matérias publicadas.

Não peçam por imparcialidade se não são capazes de entender o que significa, de fato, ser imparcial.

Não briguem com o mensageiro. A notícia é feita (ao menos por nós e outros veículos que prezam pela imparcialidade) através de narrativas. Se existe um conflito de narrativas, nossa obrigação enquanto jornalistas é expor e o público vai determinar qual delas considera a verdadeira.

Agora, não venham nos taxar de bolsonaristas, petistas, facistas, nazistas, esquerdistas ou qualquer tipo de “istas” quando narrarmos algum episódio que você não goste. Afinal, não foi aqui que pediram imparcialidade da imprensa?