Mesmo antes de começar a valer oficialmente, a nova tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros já está afetando diretamente a indústria pesqueira de Itajaí (SC). A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump e prevista para entrar em vigor em 1º de agosto, levou ao cancelamento imediato de remessas programadas por empresas locais.
Uma das exportadoras da cidade interrompeu o envio de 12 contêineres após avaliar que, se a carga chegasse após a nova taxa, a cobrança equivaleria à metade do valor total da mercadoria. A situação gerou tensão no setor, que já vinha operando com margens apertadas desde o bloqueio do mercado europeu em 2018.
Hoje, os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de pescado, respondendo por mais da metade dos embarques do setor. Em 2024, Santa Catarina enviou cerca de US$ 40 milhões em pescado ao exterior, sendo US$ 13 milhões apenas para os EUA — o que representa mais de 33% do total, conforme dados oficiais de comércio exterior.
Segundo Agnaldo Hilton dos Santos, presidente do Sindicato dos Armadores e das Indústrias de Pesca de Itajaí e Região (SINDIPI), a reação precisa ser imediata. “Temos que agir rápido. Buscar novos mercados e rever essa medida com urgência, ou vamos sofrer um colapso nas exportações”, afirmou.
Entre as espécies mais afetadas, estão a Corvina e a Meca. Em 2023, os EUA compraram 66% de toda a Corvina vendida pelo Brasil e foram destino exclusivo de 100% da Meca exportada. A mudança na tributação impacta diretamente essas cadeias produtivas.
Para o consultor Wilson Santos, o cenário ainda é incerto, mas preocupante. Ele avalia que a imposição da nova tarifa é um sinal claro da necessidade de diversificação dos destinos de exportação. Agnaldo reforça: “Precisamos de novos mercados consolidados, não dá mais para depender de um só país.”
Em resposta à crise, o SINDIPI protocolou nesta segunda-feira (14) um ofício no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e na Presidência da República. No documento, o sindicato pede ações para tentar reverter a taxação e abertura de novas parcerias comerciais internacionais.
A engenheira de alimentos Geraldine Coelho, que assessora o SINDIPI, apontou caminhos. “Temos potencial para negociar com o Oriente Médio, Sul Asiático, países da África e da América do Sul. Precisamos reduzir barreiras e acelerar essas aproximações”, sugeriu.
Enquanto isso, empresários locais analisam opções emergenciais para realocar a produção, mas temem um efeito dominó em cadeia. O receio é que o cenário piore nas próximas semanas, caso nenhuma solução concreta seja apresentada pelo governo brasileiro.