Diogo Luiz de Bastos Correa, de 22 anos, não imaginava que uma falha na digitação de um formulário poderia virar sua vida de cabeça para baixo. Morador do bairro Bela Vista, em Chapecó (SC), ele cursa Ciências Biológicas na Unochapecó e é um dos mais de 50 mil beneficiados pelo programa Universidade Gratuita. Diagnosticado com autismo, Diogo depende integralmente da bolsa para continuar os estudos. Mas agora vive com medo: foi apontado em relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC) como dono de um patrimônio de R$ 482 milhões.
O valor declarado não passa de um erro de digitação, similar ao que já havia sido identificado em outro caso divulgado com exclusividade pelo Jornal Razão, envolvendo uma estudante de Direito de Luzerna (SC) que teve o nome atrelado a uma suposta fortuna de R$ 800 milhões. Assim como ela, Diogo foi listado entre os “supostos milionários” beneficiados pela política pública voltada a jovens em vulnerabilidade social.
Em um vídeo obtido com exclusividade pelo Jornal Razão, Diogo desabafa, visivelmente abalado. “Sou grato pela bolsa, porque a renda dos meus pais nem sempre é o suficiente pra pagar faculdade. Mas parece que teve um erro. Será que dá pra ver o que aconteceu, pra não gerar contratempos?”, pede.
Os documentos obtidos pelo JR mostram que o cadastro dele no sistema aponta, de forma completamente equivocada, um patrimônio declarado de R$ 482.092.000,00. O erro, mais uma vez, está no uso incorreto da vírgula na hora de digitalizar os dados enviados pelos estudantes.
A situação ganhou repercussão estadual após a revelação de que ao menos 18 alunos haviam sido apontados como milionários em um levantamento do TCE-SC, divulgado no Diário Oficial Eletrônico e amplamente compartilhado na imprensa. A Secretaria de Estado da Educação confirmou que os casos estão sendo revistos e que se tratam de falhas grosseiras de digitação, mas o drama dos estudantes envolvidos continua.
Segundo os dados da própria ficha de matrícula de Diogo, ele está matriculado no curso de Ciências Biológicas, paga mensalidade de R$ 1.153,88 (coberta integralmente pela bolsa) e reside com a família em uma área simples de Chapecó. “A gente luta muito, e cada vitória como essa bolsa faz diferença. Ver meu nome envolvido nisso me deixou assustado”, afirmou.
O governador Jorginho Mello (PL) já se manifestou sobre casos semelhantes. Ele classificou os erros como “injustiças” e determinou uma investigação rigorosa da Polícia Civil para apurar se há fraudes reais entre os mais de 50 mil bolsistas. “Mas não podemos cometer injustiças com quem realmente precisa. Vamos proteger o programa com responsabilidade e justiça”, declarou o governador.
Apesar disso, o Tribunal de Contas segue defendendo a divulgação do relatório, afirmando que os apontamentos feitos pela Secretaria de Educação apenas confirmam a atuação do órgão de controle. Em nota, o TCE-SC alegou que os dados não foram checados antes por limitações operacionais, e que os processos seguem sob sigilo até a responsabilização final dos envolvidos.
Agora, o caso de Diogo levanta uma nova preocupação: até quando esses erros serão tratados como meras “falhas técnicas” sem levar em conta o impacto emocional e social causado nas vítimas? No vídeo enviado ao Jornal Razão, o jovem demonstra que não está apenas assustado. Ele teme que sua chance de um futuro melhor desapareça por causa de um número mal escrito.
Enquanto isso, o programa Universidade Gratuita, que é a principal política pública de acesso ao ensino superior em Santa Catarina, continua sob análise minuciosa por parte da Controladoria-Geral do Estado, Ministério Público, Assembleia Legislativa e Polícia Civil. Resta saber se a agilidade vista para identificar falhas também será usada para reparar as injustiças.