O lanço da rede ao amanhecer desta sexta-feira (1º) marcou o início da temporada da tainha em Santa Catarina, dando início a uma das atividades mais tradicionais do litoral do estado. A pesca começa com a mobilização de pescadores que, de forma coletiva, realizam o arrasto das redes até a praia, prática que une tradição cultural e geração de renda.
Reconhecida como patrimônio cultural imaterial desde 2012, a pesca da tainha movimenta todos os anos dezenas de milhares de reais na economia catarinense. A abertura da safra em 2026 ocorre sob expectativa elevada entre os trabalhadores do setor, impulsionada principalmente pelo aumento das cotas de captura.
Neste ano, o limite total autorizado chega a 5.216 toneladas, o que representa um crescimento de 20% em relação a 2025. O volume é o maior registrado desde a criação do sistema de cotas, em 2018, quando o teto inicial era de 3.417 toneladas. A ampliação é resultado de negociações entre pescadores, governo estadual e governo federal, após anos de restrições e disputas.
A distribuição das cotas contempla diferentes modalidades de pesca. O emalhe costeiro de superfície terá direito a 2.070 toneladas, com atuação nas regiões Sul e Sudeste. Já o emalhe anilhado poderá capturar até 1.094 toneladas, com limite individual de 15 toneladas por embarcação, acrescido de 20% de tolerância, dentro do mar territorial catarinense.
No caso do arrasto de praia, modalidade tradicional e artesanal, o limite será de 1.332 toneladas, também restrito ao mar territorial do estado. A pesca por cerco, realizada por traineiras, terá cota de 720 toneladas, com atuação tanto no mar territorial quanto na Zona Econômica Exclusiva, e controle individual por embarcação.
Em 2025, a produção catarinense ficou em cerca de 2,5 mil toneladas, número abaixo do limite permitido. O histórico recente da atividade é marcado por restrições impostas após a supersafra de 2007, quando foram capturadas mais de 13 mil toneladas, levando à redução do estoque da espécie e ao início de disputas judiciais.
O sistema de cotas foi implantado em 2018 como forma de controle da atividade. Em 2023, houve redução significativa em algumas modalidades, como o emalhe anilhado, que caiu de 830 para 460 toneladas, além da cota zerada para o cerco, aplicada como penalidade.
As cotas são definidas com base em critérios técnicos que consideram a população da espécie, a dinâmica reprodutiva, o histórico de capturas e a necessidade de preservação do estoque. O modelo busca equilibrar a exploração econômica com a sustentabilidade ambiental.
A tainha, da espécie Mugil liza, inicia sua migração a partir da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, e do litoral do Uruguai, durante o outono e inverno. Os cardumes seguem em direção ao norte, em busca de águas mais quentes para reprodução, formando grandes concentrações ao longo do litoral catarinense.
A definição das cotas envolve um processo participativo com representantes de cinco estados — Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro — além de mais de 800 pessoas ligadas ao setor pesqueiro. O objetivo é garantir previsibilidade e acesso equilibrado à atividade.
Apesar da ampliação das cotas, parte dos pescadores ainda critica os limites estabelecidos, especialmente no caso do arrasto de praia. O setor aponta dificuldades em controlar a quantidade capturada na pesca artesanal e defende regras mais flexíveis.
O governo estadual informou que acompanhará o desempenho da safra antes de adotar novas medidas. O Ministério da Pesca e Aquicultura ficará responsável pelo monitoramento contínuo, com base nos dados atualizados de captura e nas condições da safra.
Nos primeiros dias da temporada, pescadores já relataram a presença de cardumes antes mesmo da abertura oficial, o que reforça a expectativa de uma boa safra. A atividade envolve famílias inteiras e atravessa gerações, mantendo o caráter tradicional da pesca no litoral catarinense.
Com informações de ND+