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TIJUCAS

Fundo do Baú

1850-1949 A cabotagem trouxe 100 anos de progresso

O Estela, pertencente à família Cherem, foi o último grande veleiro construído em Tijucas

Quando os europeus chegaram ao Vale do Rio Tijucas encontraram apenas um rio, muitas lagoas, extensos bancos de areia, muitos animais silvestres e exuberantes florestas. Não havia ruas, apenas as trilhas indígenas, as picadas feitas por animais e o traçado quadriculado onde é hoje o bairro da Praça, formado por três longas ruas no sentido Sul-Norte, iniciando às margens do Rio Tijucas e entrecortadas pelo projeto de várias ruas no sentido perpendicular (Leste-Oeste). O governo da província tinha planejado o centro do futuro vilarejo antes de iniciar a sua povoação.

 O Rio Tijucas era a principal vértebra do futuro vilarejo. Além da água, peixes e condições para o desenvolvimento da navegação, ao longo dos milênios depositou lama sobre as extensas planícies tijuquenses, tornando muito férteis essas terras. Assim, os primeiros colonizadores tinham peixe, caça e terras apropriadas para cultivar e sustentar suas famílias. A madeira para a construção das casas e dos móveis, bem como para fabricar embarcações, carroças, carros de bois, engenhos e outros utensílios, também estavam ao alcance das mãos. A carência de tijolos e telhas foi logo suprimida pela argila do subsolo tijuquense.

 As riquezas naturais facilitaram o início da vida no novo continente para as famílias que vinham da Europa, mas o espírito mercantilista dos imigrantes logo vislumbrou a chance de começar a ganhar dinheiro com o extrativismo e a produção agrícola. O único inconveniente era a distância dos grandes centros urbanos do país, principalmente Santos, São Vicente e Rio de Janeiro, de onde a mercadoria produzida era despachada para a Europa em grandes navios. Para driblar essas distâncias os colonizadores encontraram nos veleiros uma solução rápida e adequada.

 Hoje é até intrigante entender como aquela gente conseguiu superar tantas adversidades. As embarcações eram literalmente feitas a facão. Cortavam as árvores a machado e as traziam até a beira dos rios em carros de bois, onde eram transformadas em balsas amarradas com um cipó chamado Imbira. Com o passar do tempo foram construídos engenhos usando-se a força da água das cachoeiras para movimentar as cerras e transformar as toras em tábuas, também carregadas por bois ou pela água dos riachos até a beira do Tijucas Grande, onde foram implantadas as instalações para montar e botar na água as balsas de toras ou de tábuas. Esses locais receberam nomes como Porto da Itinga, Porto da Galera, Porto do Moura e Porto de Morretes, este último onde está hoje o bairro Pernambuco.

 Nos anos áureos a Marinha Mercante Tijuquense chegou a ter mais de 120 grandes veleiros transportando madeira, açúcar, arroz, café, farinha de mandioca, fubá, feijão, melado, cachaça, mel, banha, linguiça, peixe seco e até matéria prima para a fabricação de tintas. A cidade passou a viver um período glorioso de muita riqueza. Os senhores de escravos construíam seus casarões na beira do rio, junto com os depósitos e atracadouros das embarcações. As de grande porte ficavam fundeadas num Arraial de Ganchos, atual município de Governador Celso Ramos, pois não conseguiam atravessar a foz do Rio Tijucas devido à altura do seu calado. Os veleiros que adentravam no Rio Tijucas tinham menor capacidade de carga, porém exigiam menos mão de obra, já que as embarcações de grande porte eram abastecidas por lanchões, tudo movido a vento e isso dava muito trabalho.

 Na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX a população tijuquense, urbana e rural, vivia praticamente em função da sua frota de embarcações de cabotagem, além dos carpinteiros, armadores, marceneiros, calafeteiros, pintores, fabricantes de cordas, consertadores de velas, estivadores e marinheiros era preciso extrair a madeira, cultivar a terra, levar a produção agrícola para os engenhos e depois entregar tudo nos depósitos da Beira Rio. Cada agricultor já tinha o seu comprador acertado. Na realidade praticavam um comércio predatório: os grandes comerciantes abasteciam os agricultores durante o ano todo, fornecendo víveres, roupas, ferramentas, sementes e tudo o mais a preço de varejo e depois compravam a produção a preço de atacado. O agricultor ficava sempre devendo e os grandes comerciantes cada vez mais ricos.

 Por volta de 1948/1949 a cidade sofreu o maior revés econômico da história. A boca da barra do Rio Tijucas açoriou por completo e nem mais as pequenas embarcações conseguiam atravessá-la. Ficou como é atualmente. A situação foi piorando e os grandes veleiros foram embora, a maioria para o Sudeste do Brasil, motivo pelo qual ainda hoje existem muitas famílias tijuquenses radicadas em Santos e no Rio de Janeiro. Ficou apenas quem não tinha pra onde ir e quem ficou teve que se resignar a vender o que produzia em grandes carroções nas cidades vizinhas ou então se tornar empregados da USATI.




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