O meteorologista catarinense Piter Scheuer voltou às redes sociais para responder a internautas que o criticaram por alertar sobre a formação de um super El Niño em Santa Catarina. Em vídeo publicado no Instagram, o profissional desabafou e reafirmou sua posição diante das acusações de alarmismo.
“Tem um pessoal aí da internet que tá me criticando duramente, dizendo que eu fui extremamente alarmista, rígido, com relação às minhas palavras a respeito da previsão desse super El Niño. Mas eu vou dizer uma coisa pra você que me critica: prefiro ser alarmista com muito gosto, com muita honra, do que não ter falado nada”, afirmou Scheuer.
O desabafo
A repercussão começou após o meteorologista divulgar, em 30 de abril, um vídeo em que classificava o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial como anormal e sem precedentes em sua carreira. A gravação viralizou, mas também trouxe críticas severas.
No novo vídeo, intitulado “Desabafo”, Scheuer afirmou que as autoridades que ouviram seus alertas já começaram a agir. “As autoridades competentes que me ouviram já começaram a fazer o assoreamento dos rios, limpeza, dragagem, começaram a trabalhar, tirar as pessoas de risco, minimizando os problemas. Então eu sei que a minha parte eu fiz, eu tô com a consciência limpa”, destacou.
O meteorologista ainda reforçou o compromisso com a profissão. “Eu como meteorologista, eu tenho que cumprir com meu diploma, com meu juramento”, disse.
SC prepara decreto inédito
Enquanto o debate sobre a gravidade do fenômeno segue nas redes sociais, o governo de Santa Catarina prepara um decreto de alerta climático com validade de seis meses. Conforme a Defesa Civil, a medida visa facilitar o acesso dos municípios a recursos para obras preventivas antes mesmo da ocorrência de eventos extremos.
O texto está sendo elaborado pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE), sob coordenação do procurador-geral Marcelo Mendes, e será assinado pelo governador Jorginho Mello. A proposta também cria gatilhos objetivos para a decretação imediata de situação de emergência.
A iniciativa é considerada inovadora porque antecipa medidas que normalmente só são adotadas após desastres. Entre as ações previstas estão intervenções em drenagem urbana, limpeza de rios e contenção de encostas.
O que dizem os órgãos oficiais
Conforme a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há 90% de chance de o El Niño se consolidar a partir do segundo semestre de 2026. Dados da Agência de Clima dos Estados Unidos (NOAA) e da MetSul Meteorologia indicam aquecimento excepcional no Pacífico Equatorial, inclusive em camadas profundas, onde as temperaturas chegam a atingir 8°C acima da média.
A Epagri/Ciram divulgou nota informando que existe 25% de chance de o fenômeno se configurar com intensidade muito forte. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) aponta mais de 80% de probabilidade de o El Niño se estabelecer no segundo semestre.
Conforme Scheuer, o auge do fenômeno deve ocorrer na primavera, entre setembro e dezembro, com riscos de enchentes, deslizamentos, queda de barreiras e até tornados no oeste da região Sul do Brasil. O meteorologista afirmou que os eventos podem ser “iguais ou até piores” do que os registrados nas enchentes do Rio Grande do Sul em 2024.
Entenda o caso
O Jornal Razão publicou na semana passada a primeira matéria sobre o alerta de Piter Scheuer, em que o meteorologista se disse “abismado” com a falta de alertas de outros profissionais. Desde então, o debate ganhou força nas redes sociais, com seguidores apoiando a postura do profissional e outros questionando o tom do alerta.
Para julho, está previsto o II Workshop El Niño – Seus Impactos no Sul do Brasil, em Florianópolis, organizado pela Associação Catarinense de Meteorologia (ACMET), Epagri/Ciram, UFSC, IFSC e instituições parceiras. O encontro deve atualizar o consenso técnico-científico sobre o fenômeno.
A Defesa Civil de Santa Catarina mantém monitoramento contínuo das condições meteorológicas e orienta que a população acompanhe os canais oficiais para receber alertas.