No início, parecia uma oportunidade única. Um médico de Santa Catarina acreditou ter encontrado uma forma de multiplicar seu dinheiro de maneira rápida e segura. A proposta vinha de uma mulher carismática e persuasiva, que afirmava ter R$ 8 milhões bloqueados em uma conta digital e precisava apenas de “ajuda temporária” para pagar taxas e liberar o valor. Em troca, prometia uma parte dos lucros.
O que ele não sabia é que estava diante de uma golpista experiente. Sua “parceira de investimento”, Suelyn Maria Colli, junto de Leno Leanderson Blaessing, formava o casal responsável por um dos maiores esquemas de estelionato já investigados pela Polícia Civil de Santa Catarina, conforme informações apuradas com exclusividade pelo Jornal Razão.

A armadilha do dinheiro fácil
O médico conheceu Suelyn em 2024, depois de atendê-la em um hospital da região de Schroeder. Ela havia sido internada após uma tentativa de suicídio, e o gesto do médico salvou sua vida. Durante as conversas, contou que tinha uma grande quantia retida por uma empresa chamada OKTO Pagamentos. Dizia que o valor estava bloqueado por pendências fiscais, mas que, assim que as taxas fossem quitadas, os rendimentos seriam milionários.
Como apurou o Jornal Razão, a história era bem montada. Suelyn usava termos técnicos e documentos falsos para dar credibilidade ao enredo. O médico, movido pela ganância e pela promessa de lucro fácil, acreditou estar diante de uma oportunidade financeira rara. O primeiro depósito foi feito em dezembro de 2024. Em poucos dias, vieram novos pedidos: IOF, Imposto de Renda, tarifas bancárias e seguros obrigatórios. Cada nova transferência era tratada como “a última”, mas a exigência de dinheiro nunca terminava.
Em apenas seis meses, o médico transferiu R$ 3,6 milhões. As mensagens trocadas com Suelyn mostravam empolgação e confiança. Ele acreditava participar de um grande negócio digital — até descobrir que o dinheiro estava indo parar em sites de apostas online, e não em nenhuma empresa financeira.
Segundo a investigação confirmada pelo Jornal Razão, Suelyn usava os dados pessoais do médico para criar contas em plataformas de jogos e movimentar valores milionários sem que ele soubesse.


A descoberta do golpe
Conforme a reportagem do Jornal Razão apurou, Suelyn enviava às vítimas links falsos de pagamento que pareciam ser da empresa OKTO, mas redirecionavam para plataformas de apostas como a Betano. O mais impressionante: a conta usada para as apostas estava registrada no CPF do próprio médico.
Com as credenciais em mãos, Suelyn movimentou mais de R$ 9 milhões em apostas e resgates. Enquanto isso, ela mantinha a farsa com conversas diárias, prints de supostos e-mails de advogados e até “documentos” da AXA Seguros — todos falsos.
Quando o médico começou a desconfiar, ela devolveu pequenas quantias, apenas para reforçar a confiança e fazê-lo continuar enviando valores.
A farsa começou a ruir quando ele entrou em contato com a AXA Seguros, que negou qualquer vínculo com Suelyn e confirmou que as assinaturas apresentadas eram forjadas. O mesmo ocorreu com o advogado paulista João Paulo Massaro, cujo nome e foto haviam sido falsamente utilizados pelo casal.
Foi então que o médico procurou a Polícia Civil, dando início a uma das investigações mais complexas do Norte do estado.

O empresário enganado pelo “amigo de infância”
Outra vítima identificada pelo Jornal Razão foi um empresário local, amigo de longa data de Leno Blaessing. Em julho de 2024, Leno o procurou pedindo um empréstimo de R$ 187 mil, dizendo que precisava ajudar a companheira, Suelyn, a pagar taxas para liberar milhões bloqueados em uma conta digital.
Confiando na amizade de infância, o empresário aceitou. Pouco depois, novos pedidos vieram — sempre com novas justificativas: IOF, seguros, tarifas e “custos de transferência”.
Em poucos meses, ele transferiu R$ 1,5 milhão. Refinanciou carro, fez empréstimos e até usou capital da empresa para manter as promessas da dupla. Como o Jornal Razão levantou, a empresa acabou em colapso financeiro e o empresário entrou em profunda depressão ao descobrir que havia sido enganado.
A mulher de fé e o golpe da confiança
Entre as vítimas também está uma comerciante de Schroeder, ativa na comunidade religiosa e conhecida pela generosidade. Ela conhecia Leno há mais de dez anos, de encontros na igreja. Em agosto de 2024, ele a procurou “desesperado”, pedindo R$ 250 mil para resolver uma pendência financeira urgente.
A mulher acreditou e transferiu o valor. Vinte e cinco dias depois, Suelyn devolveu R$ 300 mil — o que parecia uma prova de honestidade, mas era parte de uma estratégia psicológica. “Essa era a isca perfeita”, revelou uma fonte próxima à investigação ao Jornal Razão.
A comerciante, convencida, envolveu o marido e o irmão. Juntos, transferiram cerca de R$ 1,5 milhão. Chegaram a viajar com os golpistas a São Paulo, acreditando que participariam da assinatura da liberação do dinheiro. Nada existia. As reuniões, “audiências” e e-mails eram todas encenações cuidadosamente planejadas.
Conforme apuração do Jornal Razão, até outubro de 2025, Suelyn ainda enviava áudios pedindo depósitos, alegando que “faltava apenas uma última taxa”.
O rastreamento do dinheiro
O levantamento feito pelo Jornal Razão junto a fontes da investigação revela que a Polícia Civil reuniu uma base extensa de provas: planilhas, extratos bancários e relatórios do COAF.

Os documentos mostram que:
- Suelyn declarou renda de apenas R$ 1,5 mil, mas movimentou R$ 16,7 milhões em dois meses.
- As contas de Leno recebiam depósitos das vítimas e repassavam mais de 90% dos valores a Suelyn, o que comprova o conluio.
- Parte do dinheiro foi transferida para plataformas de apostas como Betano, 7k.bet e Ana Gaming.
- Havia movimentações simuladas com a empresa OKTO, para mascarar a origem ilícita dos recursos.
De acordo com o relatório, ao qual o Jornal Razão teve acesso, o padrão de transações indica lavagem de dinheiro e uso de plataformas digitais para ocultar ganhos fraudulentos.
A resposta das empresas e o desmonte do golpe
As confirmações oficiais fecharam o cerco. A OKTO Pagamentos negou qualquer relação comercial com os investigados. A AXA Seguros confirmou que os documentos eram falsos e registrou boletim de ocorrência. Já o advogado João Paulo Massaro declarou ter sido vítima de falsidade ideológica, após descobrir que seu nome e imagem foram usados para enganar investidores.
Essas confirmações, somadas às provas bancárias, deram base à Polícia Civil, que representou pela prisão preventiva, quebra de sigilo bancário e bloqueio de bens — conforme revelou o Jornal Razão com exclusividade.
A operação policial
Com autorização da Vara Criminal de Guaramirim, a operação foi deflagrada na manhã de 11 de novembro de 2025.
Policiais civis cumpriram mandados de prisão, busca e apreensão e bloqueio de contas em Schroeder e Irineópolis, com apoio das equipes de Paulo Frontin (PR). Foram apreendidos celulares, computadores e comprovantes de apostas online.
As ordens judiciais também determinaram o bloqueio de veículos, imóveis e valores em contas bancárias e plataformas digitais.

O prejuízo e o impacto
Segundo informações confirmadas pelo Jornal Razão, apenas entre as vítimas identificadas o golpe causou um prejuízo superior a R$ 6,8 milhões. No entanto, os relatórios do COAF apontam movimentações que ultrapassam R$ 34 milhões, o que indica a existência de outras vítimas ainda não identificadas.
Enquanto as vítimas acumulavam dívidas, o casal levava uma vida de luxo, com viagens, carros novos e gastos incompatíveis com a renda declarada.
O Jornal Razão também apurou que algumas das vítimas chegaram a contrair novos empréstimos acreditando que “faltava pouco” para o retorno financeiro.
A prisão e os próximos passos
Suelyn Maria Colli e Leno Leanderson Blaessing foram presos preventivamente e levados ao sistema prisional catarinense. Eles responderão por estelionato e lavagem de dinheiro, crimes que podem resultar em penas superiores a dez anos de prisão.
A Polícia Civil segue rastreando ativos financeiros no Brasil e no exterior. Parte do dinheiro já foi bloqueada, o que pode viabilizar o ressarcimento parcial das vítimas.
A investigação fecha um ciclo de mentiras e ilusões que arrastou médicos, empresários e famílias inteiras — e deixa uma lição clara: o desejo de enriquecer rápido continua sendo o combustível preferido dos golpistas.
