Um dentista e servidor público federal foi encontrado morto dentro de uma cela da Polícia Civil na manhã do último sábado (19), em São José, na Grande Florianópolis. Cezar Maurício Ferreira, que também era ex-primeiro tenente da Marinha, havia sido detido na noite anterior após se envolver em um acidente de trânsito com apenas danos materiais. Familiares acusam as autoridades de negligência e afirmam que ele estava sofrendo um infarto no momento da abordagem.
Segundo informações do boletim de ocorrência, a Polícia Militar foi acionada para atender a uma colisão traseira na rua Cândido Amaro Damásio, no bairro Jardim Cidade de Florianópolis. No local, um dos motoristas relatou que havia acabado de sair da oficina com seu veículo Jeep Compass quando foi atingido na traseira por um Peugeot 208 conduzido por Cezar.
Ainda de acordo com os policiais, Cezar apresentava sinais de desorientação, dificuldade de fala e mal-estar, o que foi interpretado como possível embriaguez. Apesar de não conseguir realizar o teste do bafômetro, foi lavrado um auto de constatação por embriaguez. O veículo foi removido por licenciamento vencido e ele foi conduzido até a Central de Plantão da Polícia Civil em São José.
Às 20h49 da sexta-feira (18), ele foi registrado como detido. A versão da família, no entanto, é diferente. Segundo nota assinada pelo advogado Wilson Knöner Campos, Cezar apresentava sintomas de infarto e teria sido confundido com um motorista embriagado. “A pergunta que ecoa é uma só: por que um homem sofrendo um infarto foi levado a uma cela de delegacia, quando seu único destino deveria ser um hospital?”, questiona o texto.
Cezar foi colocado em uma cela, onde passou a noite sem atendimento médico. De acordo com um escrivão que prestou depoimento interno, o detido foi visitado duas vezes durante a madrugada – por volta da 1h e das 3h – e teria respondido que estava bem. Contudo, às 7h40 da manhã seguinte, ele foi encontrado caído, com o rosto virado para baixo e sem sinais vitais. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) foi acionado apenas nesse momento, constatando o óbito no local.
O laudo pericial preliminar, ao qual o Jornal Razão teve acesso, não encontrou sinais de violência externa. A causa da morte ainda depende de exames complementares.

A família relata que não foi comunicada nem da detenção nem do falecimento de Cezar. Só ficaram sabendo horas depois, por terceiros. Também afirmam que o dentista não consumia bebidas alcoólicas e acreditam que ele foi vítima de uma falha grave no sistema de atendimento policial.
“A tragédia da morte somou-se ao descaso. […] Cezar foi tratado como um criminoso quando, na verdade, era uma vítima necessitando de socorro urgente”, afirma o advogado. Ele também denuncia que o desejo de Cezar, de ser cremado, foi inicialmente negado, o que aumentou ainda mais o sofrimento da família.
O caso está sendo investigado pela Polícia Civil, que já confirmou a abertura de um inquérito e solicitou um relatório de inteligência sobre os fatos. O delegado-geral, Ulisses Gabriel, garantiu que a apuração será conduzida com rigor.
A nota da família termina com um apelo: “A vida do Dr. Cezar Maurício não pode e não será reduzida a um número de ocorrência policial. Sua morte clama por respostas e por uma mudança profunda nos padrões de tratamento.”