Imagens de câmeras de segurança revelam o ponto de partida de uma tragédia que chocou Santa Catarina: o acidente de trânsito que levou à prisão e, horas depois, à morte do dentista Cezar Maurício Ferreira, de 60 anos, em São José, na Grande Florianópolis.
O vídeo mostra o momento exato em que o dentista, dirigindo seu carro em baixa velocidade, colide levemente na traseira de outro veículo parado no trânsito. A cena, que em um primeiro momento poderia indicar apenas um erro de atenção no trânsito, acabou sendo interpretada pelas autoridades como sinal de “alteração psicomotora”. A partir dali, começou uma sequência de decisões que, segundo a família, selaram o destino de Cezar.
Preso por suspeita de embriaguez, mas laudo desmente versão
Na noite de 18 de julho, após a colisão no bairro Bela Vista, Cezar foi abordado pela Polícia Militar. Segundo o relatório policial, ele apresentava sinais de confusão, desorientação e lentidão nas respostas. Os policiais classificaram a situação como possível caso de embriaguez ao volante e o encaminharam à Central de Plantão Policial (CPP) de São José.
Já na manhã seguinte, por volta das 7h40 do dia 19, Cezar foi encontrado morto na cela em que passou a noite sozinho. Um laudo do Instituto Geral de Perícias (IGP) revelou o que a família já suspeitava: ele não havia consumido álcool. A causa da morte foi identificada como cardiopatia hipertrófica, uma doença cardíaca grave que pode causar arritmias e morte súbita. Também foram encontrados vestígios de medicamentos controlados no organismo, todos compatíveis com o tratamento de condições como depressão, hipertensão e diabetes.
Família fala em negligência e prisão ilegal
A defesa da família afirma que os sintomas apresentados por Cezar durante a abordagem eram indícios claros de um episódio médico e não de embriaguez. “Ele precisava de uma ambulância, não de um camburão. Foi uma tragédia anunciada”, declarou o advogado da família em nota oficial.
A nota é contundente: “A tese de embriaguez era uma farsa”. O laudo comprovou o que os amigos e parentes sempre souberam: Cezar não bebia. Foi preso e deixado para morrer, sem o atendimento médico necessário, mesmo apresentando sintomas claros de uma emergência cardíaca.
A defesa também contesta a conduta da Polícia Civil, que aceitou a entrada de Cezar na delegacia mesmo com normativas internas que impedem a detenção de pessoas que necessitam de atendimento médico imediato. “A norma é clara: não será recebido o conduzido que necessite de atendimento médico, mesmo que não existam lesões aparentes”, afirma a nota.
Versão da PM: sinais eram “compatíveis com embriaguez”
A Polícia Militar, por meio de nota, lamentou a morte do dentista, mas alegou que os policiais agiram de acordo com os protocolos. Afirmou que Cezar foi conduzido por apresentar sinais típicos de alteração psicomotora, e que não foi relatado qualquer problema de saúde durante a abordagem.
O advogado dos PMs envolvidos afirmou que a prisão foi motivada por sinais observáveis, como desorientação, fala arrastada e dificuldades motoras. Ainda segundo a defesa, “os policiais não são médicos e não podem diagnosticar doenças pré-existentes”. Eles agiram dentro do que determina a legislação.
O que diz a Polícia Civil
A Polícia Civil informou que aguarda a conclusão do inquérito para se manifestar oficialmente. As circunstâncias da morte e a conduta de todos os agentes envolvidos, tanto da PM quanto da Polícia Civil, estão sendo analisadas em inquéritos próprios.
Dor, revolta e perguntas sem resposta
Cezar Maurício Ferreira era dentista, pai de família, e não tinha antecedentes criminais. O que era para ser um atendimento de rotina no trânsito acabou se tornando um dos episódios mais questionados do ano na segurança pública catarinense.
A divulgação das imagens do acidente reforça a tese da família: não houve direção perigosa, nem comportamento violento, apenas um leve acidente seguido por uma condução policial equivocada. “Aquela cela não era lugar para ele. O atendimento médico era urgente. Foi abandono de pessoa em risco”, afirma a família.
Agora, a esperança dos familiares e amigos está voltada para a apuração rigorosa dos fatos e para que a Justiça responsabilize quem, por ação ou omissão, contribuiu para a morte de um homem que precisava de socorro e recebeu apenas solidão.


