A prisão de José Ricardo Ângelo, 49 anos, conhecido como “Gordão”, na última terça-feira (19), em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, expôs a força e a sofisticação de um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) em Santa Catarina e Alagoas. Segundo a Polícia Civil alagoana, ele movimentou cerca de R$ 30 milhões em apenas três anos, mantendo uma rotina de ostentação em Balneário Camboriú.

O “empresário” do crime
Apontado como “sintonia-geral” do PCC no Nordeste, Gordão já havia sido condenado em 2021 por tráfico de drogas e organização criminosa, cumprindo oito anos de prisão. Em regime aberto, usava a liberdade para expandir negócios ilícitos, aproveitando a fachada de empresas em ramos diversos, de restaurante a imobiliária.
O delegado Thales Araújo, responsável pela investigação batizada de Operação Lavagem Paulista, revelou que Ricardo controlava o fluxo de dinheiro de traficantes alagoanos a partir de Santa Catarina. “Era um volume financeiro alto, sem histórico patrimonial que justificasse. Isso, somado à ligação dele com o crime, despertou a atenção”, afirmou.

Luxo em Balneário Camboriú
Em Santa Catarina, o casal vivia em um apartamento de frente para o mar em um edifício de alto padrão em Balneário Camboriú. No local, os policiais encontraram um cômodo com porta blindada, que só foi aberto com auxílio do Corpo de Bombeiros. Dentro, havia bolsas, relógios e artigos avaliados em mais de R$ 200 mil.
A ostentação incluía jet skis, lanchas e viagens constantes. “O Ricardo era articulado no meio da sociedade, não despertava suspeita”, contou Araújo.

Ligação com assassinato em Balneário Camboriú
A Polícia Civil de Santa Catarina desvendou o assassinato de Leonardo Siemann, empresário de 36 anos, executado a tiros em Balneário Camboriú no dia 3 de fevereiro deste ano. A investigação revelou que o crime foi encomendado por José Ricardo Ângelo, o “Gordão”, apontado como liderança do PCC no Nordeste.
Leonardo deixava uma academia na Quinta Avenida quando foi surpreendido por um homem armado. Os disparos foram feitos em sequência, atingindo o empresário fora do carro. O Samu chegou a ser acionado, mas a vítima morreu no local. Leonardo, que atuava no ramo de veículos e imóveis, deixou esposa e uma filha bebê. Segundo a Polícia Militar, a motivação foi um acerto de contas ligado a negócios ilícitos.
O caso foi conduzido pela Delegacia de Investigação Criminal (DIC) de Balneário Camboriú. As diligências apontaram dois envolvidos principais: José Ricardo Ângelo, o “Gordão”, considerado mandante do crime e responsável por comandar o tráfico em parte do Nordeste a partir de São Paulo; e Anderson do Nascimento, de 30 anos, responsável por providenciar veículos e apoio logístico. Foi justamente durante essas apurações que a polícia descobriu a fuga de “Gordão” para Taboão da Serra, onde mantinha sua base de operações.

Prisão em São Paulo
Quando foi localizado em uma casa de alto padrão em Embu das Artes, os policiais encontraram três carros de luxo: dois Porsches, um deles blindado, avaliados em R$ 3 milhões. Todos foram apreendidos e sequestrados pela Justiça. A esposa dele também é investigada.
Na operação, um contador que cuidava da movimentação financeira do grupo foi preso em Maceió. Segundo a polícia, ele criava empresas de fachada para disfarçar os valores ilícitos. “A área imobiliária é a mais vantajosa, porque uma transação pode render milhões de uma vez”, explicou Araújo.

O uso de laranjas
O esquema também utilizava contas de “laranjas” para disfarçar o dinheiro. Em um dos casos, uma mulher com renda inferior a um salário mínimo movimentou R$ 200 mil em apenas seis meses em depósitos destinados ao casal. Em outro, uma aposentada do INSS chegou a transferir R$ 60 mil. Todas as pessoas ouvidas negaram participação, mas tinham algum tipo de ligação com a facção.
Para a polícia, não restam dúvidas de que Gordão centralizava o esquema e usava Santa Catarina como um dos principais polos de lavagem. “Balneário Camboriú se tornou um atrativo para esse tipo de atividade, por causa da força do mercado imobiliário”, disse o delegado.


