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O preço da ‘talaricagem’: facção de SC manda matar comparsa e expõe ‘tribunal paralelo’

Foto de Por equipe <span style="color:#1877F2; font-weight:700;">Jornal Razão</span>

Por equipe Jornal Razão

Publicado em 25/05/2025 12h24 | Atualizado há 285 dias
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Assassinato no dia de Natal revela como o chamado ‘tribunal do crime’ dita regras de vida e morte em Santa Catarina. Bandidos foram condenados por envolvimento no homicídio.

O assassinato de Wederson Benitz, conhecido como “Fuzil”, ocorrido no Natal de 2020, em Palhoça, na Grande Florianópolis, revela mais do que um crime movido por ciúmes. Escancara, na verdade, um dos pilares mais cruéis do funcionamento das facções criminosas que atuam em Santa Catarina: a imposição de regras internas que regem até relações pessoais, com punições que podem custar a própria vida.

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A execução, que agora resultou em penas que somam 57 anos de prisão, não é um caso isolado. Ela se encaixa em um cenário cada vez mais evidente no estado: o crescimento da influência do crime organizado, a banalização da morte e a consolidação de julgamentos paralelos, conhecidos como “tribunais do crime”.

Como tudo começou

Rafael Hack, o “Amaral”, manteve um relacionamento por dois anos com uma mulher, também envolvida com as dinâmicas da organização. Ao descobrir uma suposta traição do parceiro, ela decidiu romper.

Sete meses depois, iniciou um relacionamento com Wederson, que também fazia parte da facção e ocupava um cargo relevante no tráfico de drogas na região de Palhoça.

Para a lógica das facções, esse envolvimento foi classificado como “talaricagem” — termo usado no submundo do crime para descrever quem se relaciona com a ex de outro integrante. Uma regra que, supostamente, não admite exceções.

O decreto de morte

Inconformado, Rafael levou o caso à cúpula da facção, exigindo uma punição. Mesmo após a mulher tentar negociar sua permanência no relacionamento, as lideranças bateram o martelo: Wederson deveria morrer.

No dia 25 de dezembro de 2020, sob o pretexto de vigiar possíveis rivais na região, Wederson foi chamado por Gustavo Jacinto, o “Maquinista”, para uma ronda. Eles circularam pela comunidade até retornarem à casa da própria vítima.

Ali, quando Wederson estava desarmado e relaxado, foi surpreendido por uma sequência de tiros — vários deles na cabeça e nas costas. A cena deixou claro que não se tratava apenas de uma execução, mas de um recado.

As condenações

  • Gustavo Jacinto, o “Maquinista” — 25 anos e 3 meses em regime fechado (homicídio qualificado e integrar organização criminosa);
  • Geovane dos Santos Niches, o “Bomba” — 22 anos e 6 meses em regime fechado (homicídio qualificado e integrar organização criminosa);
  • Gustavo Rocha Menezes Salum, o “Dancinha” — 4 anos e 11 meses em regime semiaberto (integrar organização criminosa);
  • Rafael Hack, o “Amaral” — 4 anos e 10 meses em regime semiaberto (integrar organização criminosa).

O Ministério Público ainda avalia recorrer para que as penas de “Amaral” e “Dancinha” também incluam participação no homicídio.

Um reflexo de algo muito maior

O caso de Wederson não é isolado. Santa Catarina atravessa uma das maiores escaladas de violência dos últimos anos, impulsionada por facções que, além de controlar o tráfico, aplicam suas próprias leis — muitas vezes com mais rigor do que o próprio Estado.

Nos últimos meses, cenas de horror se repetiram em várias cidades:

  • Uma chacina no bairro Timbézinho, em São João Batista, deixou quatro jovens mortos, com os corpos carbonizados dentro de um carro.
  • Em Florianópolis, um jovem foi encontrado enterrado em área de mata, após ser supostamente condenado pelo “tribunal do crime” por uma acusação que a própria família afirma ter sido desmentida.
  • Vídeos recentes, obtidos com exclusividade, revelam um cenário de guerra interna dentro do PGC (Primeiro Grupo Catarinense), onde líderes ameaçam uns aos outros com fuzis, coletes e listas de execuções.

O modus operandi das facções

O funcionamento segue uma lógica implacável:

  • Controle total: Quem integra a facção submete sua vida — afetiva, profissional e até familiar — às regras da organização.
  • Decretos de morte: O “tribunal” avalia supostas faltas, como dívidas, traições ou desrespeito às regras internas, e pode determinar punições que variam de multas até a morte.
  • Violência como disciplina: A execução não é apenas uma punição, mas um exemplo para evitar que outros desobedeçam.

A escalada da violência

Especialistas e autoridades reconhecem que Santa Catarina vive uma nova fase no crime organizado. Se antes a violência estava concentrada em disputas territoriais ou no controle de pontos de tráfico, agora ela também explode dentro das próprias facções.

Os recentes embates no topo do PGC, com publicações de pareceres oficiais e ameaças públicas, expõem uma guerra interna que pode transformar as ruas em palcos de confrontos, como já aconteceu em outubro de 2024, quando o assassinato de um dos líderes provocou uma série de atentados em Florianópolis e na Grande Florianópolis.

E agora?

O cerco das autoridades se intensifica, mas os próprios órgãos de segurança reconhecem que o controle das facções sobre algumas regiões segue forte, especialmente em comunidades vulneráveis.

A morte de Wederson, assim como a chacina de São João Batista e outras execuções recentes, não são apenas crimes isolados — são sintomas de um sistema paralelo de poder que cresce à sombra do Estado.

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