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Família de SC que esperava 10 toneladas de maconha na favela se livra do tráfico, mas segue presa

Carlos Alberto Koerich, a mulher, Lucinara, e o sogro, Marcelo Luiz Bertoldo, moradores de Balneário Piçarras, foram absolvidos do tráfico, mas seguem presos por associação; a pena dele caiu para 6 anos e 9 meses, e a dos outros dois, para 4 anos e 1 mês

Família de SC que esperava 10 toneladas de maconha na favela se livra do tráfico, mas segue presa
Foto: Reprodução
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Um morador de Balneário Piçarras, no Litoral Norte de Santa Catarina, foi com o sogro, um pescador, ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, esperar uma carga de 10 toneladas de maconha do Comando Vermelho. A mulher dele acompanhava a negociação por mensagens. Mais de três anos depois, os três foram absolvidos do crime de tráfico de drogas porque a droga nunca foi apreendida. Segundo a Polícia Federal, a carga teria sido liberada por policiais civis do Rio em troca de propina e chegado ao destino.

A decisão é da 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), que julgou nesta quinta-feira (8), por unanimidade, a apelação de Carlos Alberto Koerich, da mulher dele, Lucinara Bertoldo Koerich, e do pai dela, Marcelo Luiz Bertoldo. Os desembargadores absolveram os três do tráfico, mas mantiveram a condenação por associação para o tráfico. A de Carlos também ficou por corrupção ativa, por oferecer dinheiro aos policiais. Os três seguem presos. A defesa da família, conduzida pelo advogado Osvaldo José Duncke, sustentou que, sem a droga apreendida, não havia prova do tráfico, e a tese foi aceita pelos desembargadores.

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Na sentença da 16ª Vara Criminal da Capital, no Rio, Carlos tinha sido condenado a 15 anos, 3 meses e 6 dias de prisão, e Lucinara e Marcelo a 12 anos, 7 meses e 6 dias cada. Sem o tráfico, a pena de Carlos caiu para 6 anos e 9 meses, e a da mulher e a do sogro para 4 anos e 1 mês, todas em regime fechado. O tribunal negou o pedido para recorrerem em liberdade e manteve a prisão preventiva dos três.

No processo, Carlos disse que trabalha com compra e venda de carros e com empréstimo de dinheiro e que mora de aluguel em Balneário Piçarras. Lucinara contou que faz micropigmentação e cuida de crianças, que nunca esteve no Rio e que ainda amamentava quando foi presa. Marcelo disse que é pescador desde jovem, que tem um barco pequeno e passa a maior parte do tempo no mar. Os três negaram ligação com o tráfico. O tribunal não acreditou nas versões.

Segundo a investigação, em 7 de agosto de 2023 Carlos estava no Complexo do Alemão com o sogro. Depois de mandar à mulher a foto de uma rua da comunidade, ele disse: “Eu tô aqui com teu pai, aqui na rua, aqui escutando música, aqui olhando pra favela. Qualquer coisa, tu liga”. Em seguida, com uma foto dos dois juntos, explicou qual seria o papel do sogro: “O teu pai tá falando que cada lote que chegar ele vai tirar um baseado e vai fumar pra ver se é o mesmo, pô. O teu pai vai ser o nosso teste, aqui”. Sobre o tamanho da carga, resumiu: “Dez toneladas, amor”.

Carlos também contou à mulher que conversou com Pezão e Doca, apontados pela investigação como chefes do Comando Vermelho no Complexo do Alemão, e avisou que ela receberia R$ 10 mil na conta. Para a PF, ele era o “matuto”, o encarregado de receber a droga com o sogro e repassar a carga aos destinatários.

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A maconha viajava num caminhão frigorífico, com nota fiscal de frango congelado. Segundo a PF, a droga teria saído da região de fronteira do Paraná, entre Cascavel e Foz do Iguaçu. No dia 8 de agosto, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) parou o caminhão no Sul Fluminense, ele já vinha escoltado por viaturas da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Polícia Civil do Rio. Os policiais civis disseram que levavam o veículo para a Cidade da Polícia, recusaram os cães farejadores oferecidos pela PRF e seguiram viagem.

Segundo a PF, em vez de apreender a droga, os policiais teriam passado a negociar a liberação. Pelo celular do motorista, que estava nas mãos deles, Carlos ofereceu R$ 300 mil e a entrega do “X9”, o informante que tinha denunciado o caminhão. Depois, segundo a investigação, a negociação subiu para valores entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões. Para a PF, depois do acerto a carga teria sido entregue ao destino final.

No dia seguinte, 9 de agosto, a PRF parou de novo o mesmo caminhão, com o mesmo motorista, agora no sentido São Paulo. Os agentes estranharam, porque o motorista deveria estar preso. Ele contou o que tinha acontecido e entregou o celular. No baú, sobrava só um vestígio de 1,3 grama de maconha. Foi o começo de três operações da PF. A Drake, em outubro de 2023, prendeu quatro policiais civis e um advogado. A Corsário, em maio de 2024, prendeu mais um policial civil, um policial militar e outro advogado. A Kryos, em maio de 2025, mirou os suspeitos de enviar e de receber a carga, com mandados de prisão no Paraná e em Balneário Piçarras.

Foi esse vestígio que pesou no julgamento. Para o relator, desembargador Luiz Márcio Victor Alves Pereira, o resíduo deu positivo para maconha, mas “não é suficiente, por si só, para amparar a condenação pelo tráfico de drogas, diante da ínfima quantidade”. Pesou também o fato de o caminhão ter ficado com os policiais civis sem as formalidades de apreensão. Sem a droga, falta a prova material do crime, e o tribunal aplicou o princípio de que, na dúvida, se decide a favor do réu, seguindo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

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A associação para o tráfico ficou de pé. Para a câmara, os relatórios da PF, os dados dos celulares e das contas na nuvem e os laudos provam que os três se associaram ao Comando Vermelho para receber a carga. A ligação com a facção pesou contra eles no cálculo da pena, assim como o transporte da droga entre estados. A corrupção ativa de Carlos também foi mantida.

Os policiais civis, o policial militar e os advogados respondem só por corrupção em duas ações na Justiça de Resende (RJ), uma da Drake e outra da Corsário, ainda sem sentença. Em maio de 2025, o STJ trancou a acusação de tráfico contra um dos policiais pelo mesmo motivo, a droga que nunca foi apreendida, e a decisão foi estendida aos demais, que acabaram soltos. O Ministério Público do Rio recorreu, e o recurso está na pauta virtual da Sexta Turma do STJ entre 29 de outubro e 5 de novembro. Os três catarinenses pediram ao STJ para ser incluídos naquela decisão, e o pedido será analisado junto com o recurso do MP. Ainda cabe recurso contra a decisão do TJRJ.

© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/justica/familia-sc-10-toneladas-maconha-absolvida-trafico-segue-presa

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