O ex-secretário de Blumenau André Espezim acompanhou os agentes do Gaeco durante a busca no próprio apartamento, na região da Alameda Rio Branco, área nobre da cidade, e saiu de lá preso na manhã desta quarta-feira (7). Um empresário, dono de uma produtora de audiovisual em Blumenau, também foi preso preventivamente.
As duas prisões são as primeiras da Operação Sentinela, a investigação que apura como um grupo instalado na Prefeitura de Blumenau teria transformado em negócio a contratação de vigilantes para escolas e creches depois da chacina na Creche Cantinho Bom Pastor, em abril de 2023, quando quatro crianças foram mortas.
Na segunda fase da operação, o Gaeco cumpriu ainda nove mandados de busca e apreensão em Blumenau e Florianópolis, em apoio à 14ª Promotoria de Justiça de Blumenau, do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). O JR noticiou as prisões pela manhã.
Bens escondidos e provas sob ataque
Desta vez, o alvo não é só o desvio. Segundo o MPSC, depois da primeira fase, em maio, a investigação encontrou indícios de que investigados e pessoas ligadas a eles agiram para esconder bens e disfarçar a origem do dinheiro. Entram na conta movimentações financeiras fora do padrão, negociações de bens e operações feitas em nome de terceiros.
O Ministério Público afirma ainda que houve tentativa de interferir na produção de provas e de obstruir a investigação. Foi isso que levou a Justiça a decretar as prisões preventivas. Em maio, ninguém havia sido preso.
A nova fase apura organização criminosa, lavagem de dinheiro, obstrução de investigação, falsidade ideológica e falso testemunho. O que é atribuído a cada um dos presos não foi divulgado, porque o processo corre em sigilo.
O contrato fechado em cima da tragédia
Em 5 de abril de 2023, um homem pulou o muro da Creche Cantinho Bom Pastor, no bairro Velha, e atacou com uma machadinha as crianças que brincavam no parquinho. Quatro morreram e outras cinco ficaram feridas. O autor foi condenado a 220 anos de prisão.
Cinco dias depois, enquanto famílias lotavam a catedral da cidade em uma missa pelas vítimas, a prefeitura disparava um e-mail pedindo orçamentos de vigilância escolar com prazo de 24 horas, segundo documentos da investigação. Mais de dez empresas responderam.
A escolhida foi a Orcali. Conforme o Gaeco, informações sigilosas das propostas concorrentes foram repassadas à empresa, que apresentou um desconto mínimo, calculado na medida para vencer. O contrato emergencial passou de R$ 9 milhões. Um aditivo somou mais R$ 4 milhões e, no fim de 2023, uma licitação manteve a empresa no serviço por R$ 42 milhões.
Dos R$ 56 milhões pagos pela segurança das escolas, a estimativa da investigação é que R$ 2,8 milhões, 5% do total, tenham voltado em propina para agentes públicos.
Como o dinheiro voltava
O MPSC descreve um esquema de direcionamento de licitações entre 2021 e 2024, em contratos de segurança patrimonial, limpeza urbana e serviços especializados. Só nesse período, a Orcali recebeu R$ 257 milhões do município.
O ex-chefe de gabinete da prefeitura, César Botelho, é apontado pelo Gaeco como o coordenador. Em 2021, durante a licitação da limpeza das escolas, ele teria avisado a um intermediário: “Ficou somente o nosso amigo na licitação”.
Para o dinheiro voltar, segundo a investigação, postos de combustíveis emitiam notas fiscais simuladas em nome da empresa assim que a prefeitura pagava. O valor era sacado e entregue em espécie aos servidores.
Quem é o ex-secretário preso
André Espezim foi um dos homens fortes da gestão do ex-prefeito Mário Hildebrandt. Comandou a Secretaria de Comunicação e presidiu o Samae. Em 2022, tentou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Podemos, recebeu 15,3 mil votos e não se elegeu.
Segundo documentos da investigação, Espezim aparece como o segundo comissionado beneficiado pelo esquema. Mensagens analisadas pelo Gaeco indicariam que a campanha dele em 2022 recebeu dinheiro do grupo e que parte das despesas seria paga por fora. Ele já havia sido alvo de buscas na primeira fase, em maio.
Prefeito rompeu o contrato e tirou a empresa das escolas
A atual gestão, do prefeito Egidio Ferrari (PL), que assumiu em janeiro de 2025, não é investigada. Depois da primeira fase, a prefeitura abriu auditoria nos contratos citados pelo Gaeco.
Em 8 de junho, Ferrari anunciou o rompimento do contrato de vigilância escolar e deu prazo até 26 de junho para a empresa deixar escolas e creches. A prefeitura criou a Secretaria de Segurança Pública, que assumiu a proteção das unidades.
Hildebrandt não é investigado, mas a conta chegou nas urnas
O ex-prefeito Mário Hildebrandt (PL) não é investigado e não é alvo de nenhuma das operações. O próprio Gaeco deixou isso claro. Em maio, na coletiva sobre as três operações em Blumenau, o coordenador estadual do grupo, Wilson Paulo Mendonça Neto, afirmou que nenhum prefeito, atual ou anterior, é investigado.
No mesmo dia, Hildebrandt gravou um vídeo para dizer que não era alvo das apurações e defendeu a contratação emergencial dos vigilantes depois do ataque à creche. Disse que tomaria a mesma decisão de novo.
Mas o desgaste veio. As operações atingiram o coração da gestão dele: o ex-chefe de gabinete, ex-secretários e os maiores contratos da prefeitura. E Hildebrandt pagou o preço nas urnas.
No último domingo (4), o ex-prefeito que governou Blumenau por quase sete anos tentou uma vaga de deputado estadual. Recebeu 25.003 votos, 0,58% dos válidos em Santa Catarina, e não se elegeu. Ficou como suplente do PL. Três dias depois da eleição, o Gaeco prendeu um ex-secretário da gestão dele.
Três operações em 24 horas
A Sentinela faz parte de uma sequência que abalou Blumenau em maio. No dia 6, a Operação Ponto Final mirou um cartel de empreiteiras, com R$ 570 milhões em contratos investigados e prejuízo estimado de R$ 117 milhões. No dia 7, vieram a primeira fase da Sentinela, com 21 mandados de busca em Blumenau, Florianópolis e Itajaí, e a Operação Arbóreo, que apura R$ 3,6 milhões em propina no contrato da merenda escolar.
O que vem agora
O material apreendido nesta quarta será analisado pelo Gaeco. A investigação está na reta final e deve ser enviada à Justiça em breve. Até aqui não há denúncia apresentada, e Espezim e o empresário respondem como investigados.
© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/justica/gaeco-prende-ex-secretario-mario-hildebrandt-blumenau-propina-creche























