O advogado Daniel Bialski, que defende o banqueiro Daniel Vorcaro nas investigações do caso Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou nesta sexta-feira (9) que é do cliente a voz em um dos áudios sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) divulgados pela VEJA, mas disse que não pode confirmar o conteúdo. “A voz realmente é dele em um dos áudios, porém não saberia dizer quando e em qual circunstâncias isso foi gravado”, disse Bialski ao jornalista Robson Bonin, da coluna Radar, da VEJA. Segundo o advogado, só Vorcaro “poderá confirmar ou não o teor dos fatos”. A declaração também foi registrada por Mateus Conte, da Revista Oeste.
Em áudio e documentos revelados na madrugada pela VEJA, Vorcaro relata ter dado cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo, por fora, para bancar o documentário de Oliver Stone sobre o presidente, além de repassar valores ao Instituto Lula. Lula nega ter pedido ou recebido qualquer vantagem do banqueiro. O caso veio à tona a 16 dias do segundo turno, em que Lula disputa a reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), em 25 de outubro.
Bialski afirmou que não defendia o banqueiro na época das negociações de delação premiada, que não conhece o anexo citado pela revista e que Vorcaro não prestou depoimento à Polícia Federal (PF) nem a outro órgão sobre o assunto.
Pela manhã, pessoas próximas a Vorcaro já tinham dito ao jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil, que a voz é do banqueiro. Elas afirmaram não saber como nem quando a conversa foi gravada e levantaram a hipótese de gravação clandestina, por causa de uma distorção no início do áudio que indicaria uma terceira pessoa no ambiente. Segundo essas fontes, a gravação é posterior à primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.
No começo da tarde, porém, uma nota assinada pelos advogados Sérgio Leonardo e Engels Augusto Muniz, que também defendem Vorcaro, disse que a defesa não confirma o conteúdo de qualquer material divulgado, “cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas”, segundo a CNN Brasil. Na mesma nota, a defesa afirmou que Vorcaro “possui informações personalíssimas e relevantes para o caso e segue disponível para contribuir com as autoridades”.
A campanha de Lula questiona a autenticidade do áudio, não descarta adulteração e acionou a PF para investigar a origem da gravação, segundo o jornalista Júnior Kamenach, do Jornal Opção. Ainda segundo Kamenach, procuradores que acompanham o caso suspeitam que o áudio foi gravado ilegalmente na Papudinha, em Brasília, onde Vorcaro está preso, e divulgado com fim eleitoral, e parte dos advogados do banqueiro tem a mesma suspeita. Procuradores e advogados ouvidos pelo jornal dizem que o dinheiro do filme não constava das propostas de delação.
Em nota, a PF informou que recebeu nesta sexta uma notícia-crime, sem dizer de quem, com pedido de providências urgentes para apurar fatos relacionados à publicação da revista, conforme reproduziu o jornalista Rafael Lorenzo M. Barretti, da Brasil Paralelo. A PF também declarou que o banqueiro não prestou depoimento com o teor relatado nem entregou anexos, documentos ou informações sobre o tema. A VEJA respondeu que nunca afirmou que os áudios e documentos foram apresentados à PF.
Na tarde desta sexta, Robson Bonin divulgou na VEJA outro trecho da gravação. Nele, Vorcaro conta a um interlocutor como reagiu Ubiratan, identificado pela revista como auxiliar do procurador-geral da República, Paulo Gonet, quando, segundo o banqueiro, o nome de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, foi levado à Procuradoria-Geral da República (PGR) pelos advogados dele, na proposta de delação.
“Quando coloquei o Okamotto pra cá, na primeira vez que levei na PGR, ele falou: ‘pelo amor de Deus, cê não tem nada disso aqui não’. Isso aqui é só… E aí eles usavam o argumento que é o seguinte: ‘isso aqui foi em dinheiro, não consegue provar você tira tudo’. Eles já saíram na largada assim”, diz Vorcaro. Segundo a revista, o nome de Ubiratan aparece no fim da gravação, mas o trecho foi cortado para preservar a identidade do interlocutor do banqueiro.
A PGR não comentou o trecho. Na nota enviada depois da primeira reportagem, o órgão afirmou que as tratativas de colaboração premiada envolvendo Vorcaro “foram sempre mediadas por advogados contratados pelo investigado, como devido” e que “todas as propostas formalizadas pela Defesa foram recebidas na forma como livremente elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias”. A PGR disse ainda que não houve interlocução direta de Vorcaro com nenhum representante do órgão nem depoimento oral dele, “justamente por conta da rejeição da proposta”. O banqueiro está preso desde março e, segundo a revista, trabalha numa terceira proposta de delação.
No primeiro trecho, Vorcaro compara o dinheiro que colocou no documentário sobre Lula com o patrocínio ao Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro para o qual o senador Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao banqueiro. “Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”, diz. Segundo a reportagem de Robson Bonin, o banqueiro relatou que o pagamento fazia parte de um acerto com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto para ter acesso aos fundos de pensão de servidores federais.
A reportagem também traz mensagens do celular do banqueiro. Segundo a revista, o Master entrou em 29 de abril de 2024 na “lista exaustiva”, o documento do governo que relaciona as instituições financeiras autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais. “Entramos na lista exaustiva. Resolvido”, disse o então sócio Augusto Lima. “Você é foda”, respondeu Vorcaro. No mesmo dia, ainda de acordo com a VEJA, um operador identificado como Júlio, ligado ao grupo do então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, cobrou um adiantamento de R$ 500 mil, que a revista diz ter sido pago.
À VEJA, Lula afirmou que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome”. Padilha e o ex-secretário-executivo Olavo Noleto negaram relação com o banqueiro. A defesa de Augusto Lima chamou os relatos de “mentirosos, falsos e delirantes”. A equipe de Oliver Stone nega ter solicitado ou recebido dinheiro de Vorcaro, segundo o Jornal Opção. Em maio, quando o financiamento do filme veio à tona, os produtores e diretores já tinham negado ao colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, ter recebido recursos do banqueiro.
Fontes: coluna Radar, de Robson Bonin, na VEJA, reportagem de Robson Bonin, na VEJA (novo áudio), reportagem de Robson Bonin, na VEJA (edição 3016), Caio Junqueira, na CNN Brasil, CNN Brasil (nota da defesa), Júnior Kamenach, no Jornal Opção, Rafael Lorenzo M. Barretti, na Brasil Paralelo, Mateus Conte, na Revista Oeste e Demétrio Vecchioli, no Metrópoles.
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