O deputado federal André Janones (Rede-MG), que comanda o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, foi proibido pela Justiça de Minas Gerais de chegar a menos de 300 metros da ex-namorada. A prefeita de Ituiutaba (MG) acusa o parlamentar de mandar uma foto íntima dela, de lingerie, para um secretário da prefeitura e de chamar a imagem de “aperitivo” do que ainda estava por vir.
Ele manda e os petistas obedecem
O canal de Janones passou de 55 mil para mais de 4 milhões de seguidores em pouco mais de uma semana depois do primeiro turno e virou a central da militância digital de Lula (PT). As regras foram ditadas pelo próprio deputado. “Você vai ter que deixar o seu elitismo e sua arrogância intelectual de lado e se portar como robô. Só obedecer a ordem nas redes sociais. Todos nós falarmos a mesma narrativa”, disse ele num vídeo de setembro. Numa live de 8 de outubro, resumiu o funcionamento do grupo em três expressões: “comando único”, “só obedece” e “agir igual um robô”.
Neste sábado (17), a ordem foi não olhar. Antes de a CNN exibir a entrevista de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha investigada pela Polícia Federal no caso dos descontos irregulares do INSS, Janones gravou um vídeo mandando os apoiadores de Lula não defenderem o presidente. “Cê não vai nem ler a matéria”, disse. “Ler já é engajar.” A ordem correu em grupos petistas numa mensagem encaminhada com frequência: “Muito importante seguir as orientações do Janones de não engajar de jeito algum nos posts e publicações que falarem sobre a entrevista da Roberta pra CNN Brasil”. Logo abaixo vinham quatro comandos: “Não abra”, “Não leia”, “Não clique” e “Não comente”.
Na entrevista que a militância foi mandada ignorar, Roberta chamou Lula de machista. “Um homem desse não pode falar sobre feminismo, sobre feminicídio, sobre machismo, porque ele é o próprio machista. Ele preservou todos os homens e me jogou, a única mulher, aos leões”, afirmou.









“Aperitivo”
Foi no mesmo sábado que voltou a circular nas redes o caso da mulher que conseguiu medida protetiva contra o comandante do exército digital de Lula. Janones e a prefeita de Ituiutaba, cidade natal dele no Triângulo Mineiro, namoraram entre 2014 e 2018, segundo ela. Depois ela foi chefe de gabinete do deputado na Câmara e se elegeu prefeita em 2020 com o apoio dele, que mandou R$ 58,4 milhões em emendas para a prefeitura em quatro anos, 76% de tudo o que tinha para distribuir.
Segundo a prefeita, tudo desandou em dezembro de 2024, logo depois da reeleição dela, quando se recusou a demitir uma aliada como o deputado exigia. Ela afirma que Janones mandou para o secretário de Saúde de Ituiutaba uma foto íntima dela, tirada sem consentimento quando os dois ainda eram um casal, e avisou que aquilo era só um “aperitivo”. A prefeita diz ainda que o deputado ameaçou expor outras fotos e vídeos íntimos do relacionamento para “destruir” a imagem dela e mandar na gestão da cidade.
Com base na Lei Maria da Penha, a Justiça de Minas Gerais proibiu Janones de procurar a prefeita, a família dela e as testemunhas por qualquer meio, de chegar a menos de 300 metros deles, de frequentar os lugares que ela frequenta e de divulgar qualquer foto ou vídeo íntimo dela. Se desobedecer, pode ser preso em flagrante. Na decisão, o juiz escreveu que “descortina-se um possível contexto de violência psicológica e moral”. Em julho de 2025 as restrições foram prorrogadas por mais seis meses, porque a Justiça viu risco ainda presente à integridade psíquica da prefeita. O processo corre em segredo de Justiça.
“Eu vou destruir essa mulher”
Em março deste ano, num evento para mulheres em Ituiutaba, a prefeita contou o caso em público sem dizer o nome do deputado. “Coisas que eu nunca falei, eu tô falando aqui hoje”, avisou, num vídeo que ela deixou fixado nas redes sociais. “Não tive violência física, mas tive violência emocional, tortura psicológica, violência política. Eu bati em algumas portas e as pessoas tinham medo, porque era uma mulher lutando contra um parlamentar.”
No discurso, ela repetiu frases que atribui ao parlamentar. Numa reunião: “Eu vou te destruir. Eu vou mostrar pra Ituiutaba que você é uma mulher superincompetente, burra, idiota, incapaz”. No recado mandado junto com a foto: “Diz pra ela que isso é só o começo (…) Eu vou destruir essa mulher”. A prefeita contou que passou dois dias trancada no quarto chorando e que ouviu dele que a cidade não teria “mais nem um centavo” das emendas. Também disse que o vice da chapa foi imposto para que ele tivesse “controle” sobre ela.
Quando o caso veio à tona, em abril de 2025, Janones negou tudo numa live. “Eu não enviei nenhuma foto, eu não cometi nenhum crime”, disse. Na mesma transmissão, porém, afirmou que a ex não mentiu: “A prefeita não inventou história, não mentiu. Ela tinha elementos até dezembro que a levou a crer que eu fiz aquilo que ela me acusou. Mas esses elementos não existem mais”. Ele chamou o caso de armação.
R$ 157,8 mil de rachadinha
Não é o primeiro escândalo do líder do Exército do Lula. Em março de 2025, Janones fechou um acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR) para encerrar o inquérito da rachadinha no gabinete dele e devolveu R$ 157,8 mil: R$ 131,5 mil aos cofres da Câmara e R$ 26,3 mil de multa. Para fechar esse tipo de acordo, a lei exige confissão. Segundo a PGR, o deputado admitiu que, no início de 2019, com o nome sujo na praça, pediu a um assessor um cartão de crédito adicional. As faturas foram pagas pelo funcionário. Janones diz que “em hipótese alguma” admitiu a rachadinha.
O caso veio a público em 2023, com um áudio gravado por um ex-assessor numa reunião de fevereiro de 2019, na Câmara. Na gravação, Janones diz que algumas pessoas “vão receber um pouco de salário a mais e elas vão me ajudar a pagar as contas” da campanha de 2016, quando perdeu a eleição para prefeito de Ituiutaba. A Polícia Federal indiciou o deputado em 2024 por corrupção passiva, associação criminosa e peculato. Na Câmara, o pedido de cassação foi arquivado em junho de 2024 no Conselho de Ética, por 12 votos a 5, com parecer de Guilherme Boulos (PSOL-SP). Em julho de 2025, Janones teve o mandato suspenso por três meses por ofender o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) no plenário.
Rejeitado em casa
Nas urnas, o líder do Exército do Lula encolheu. Reeleito em 4 de outubro pela Rede, com 78.780 votos, Janones perdeu cerca de 160 mil votos em relação a 2022, quando teve 238.967. Em Ituiutaba, a cidade dele, fez 6.381 votos e ficou em quarto lugar, atrás de Hermano Freitas (PL), Weliton Prado e Nikolas Ferreira.
O processo da prefeita segue em segredo de Justiça em Minas Gerais. Janones segue no comando do canal, que a campanha de Lula teve de registrar na Justiça Eleitoral como meio oficial de comunicação depois de o TSE suspender o grupo, acusado de replicar conteúdos que o próprio tribunal já tinha considerado inverídicos. O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL) é no próximo domingo (25).
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