Os dois candidatos à Presidência no segundo turno, marcado para este domingo (25), apresentaram planos de governo que apontam para lados opostos. O Jornal Razão leu os dois documentos do início ao fim: são 76 páginas no plano de Flávio Bolsonaro (PL) e 84 no de Lula (PT). Abaixo, tema a tema, está o que cada um propõe para os próximos quatro anos, o que os dois têm em comum e o que nenhum deles explica.
O plano de Flávio se chama “Para o Brasil vencer o atraso” e define o projeto como uma “alternativa liberal, conservadora, reformista e corajosa”. O de Lula, assinado pela coligação de PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede, traz o título de diretrizes para o “Programa de Transformação do Brasil” e se apresenta como a continuidade do governo atual. Tudo o que está nesta reportagem é o que os próprios documentos dizem. São propostas, não garantias: várias delas dependem do Congresso para sair do papel.
Dois rumos para o país
O plano de Flávio Bolsonaro propõe uma virada. A segurança pública abre o documento e é tratada como “a condição para todos os demais” temas. Depois vem o “Tesouraço”, um corte de gastos que, segundo o texto, abriria espaço para baixar juros e impostos. O Estado ficaria menor e mais digital, com mais obras e serviços tocados pela iniciativa privada. Os programas sociais seriam mantidos, mas como “ponto de partida”, com foco em levar o beneficiário ao emprego.












O plano de Lula propõe aprofundar o que o governo já faz. O Estado continuaria puxando o crescimento com o Novo PAC, a política industrial, os bancos públicos e a Petrobras. A conta das políticas sociais seria dividida cobrando mais imposto de quem ganha mais. A palavra soberania atravessa o documento inteiro: digital, energética, alimentar, mineral e na política externa.
Os dois textos usam espaço para atacar o adversário. O de Flávio atribui ao PT a alta da dívida, dos juros e dos preços. O de Lula chama o período do governo Bolsonaro de “herança maldita” e cita a tentativa golpista de 8 de janeiro de 2023. São versões de cada campanha.
Economia e juros
Flávio Bolsonaro propõe uma nova regra fiscal, com superávit primário e a dívida pública primeiro estabilizada e depois em queda. O plano prevê o corte de pelo menos 10 ministérios, de cargos comissionados e de supersalários, além da retomada do programa de desestatização, avaliado “caso a caso”. A meta declarada é fazer o país crescer 4% ao ano ao longo de uma década. Segundo o documento, a dívida subiu 13 pontos em relação ao PIB nos últimos quatro anos, e é isso que mantém os juros altos.
Lula propõe manter o arcabouço fiscal criado no governo atual. O plano diz que o equilíbrio das contas virá do crescimento, do controle do aumento de gastos e do corte de privilégios, e compara os juros de hoje à inflação do passado, por concentrar renda. O documento afirma que o déficit de 2026 deve fechar perto de 0,4% do PIB, mas não traz meta numérica de dívida, de superávit nem de crescimento para o próximo mandato.
Impostos
O plano de Flávio propõe revisar a reforma tributária aprovada no governo atual e reduzir o novo imposto sobre o consumo. O texto afirma que esse imposto ficaria perto de 30%, contra 19% na média dos países da OCDE, e que a reforma criou R$ 500 bilhões em exceções. Também promete menos imposto sobre energia e combustíveis e o fim gradual do IOF sobre o câmbio. O documento não diz se mantém a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
O plano de Lula defende a reforma tributária como foi aprovada, com a troca de cinco tributos por dois, a cesta básica isenta e a devolução de imposto aos mais pobres. Destaca a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a cobrança maior sobre super-ricos, offshores e fundos exclusivos. Propõe ainda usar o Imposto Seletivo para encarecer produtos que fazem mal à saúde.
Trabalho e escala 6×1
Flávio Bolsonaro propõe reduzir aos poucos o custo da carteira assinada, “sem retirar direitos”, e criar contratos com menos encargos para jovens de 18 a 24 anos no primeiro emprego e para pessoas com 50 anos ou mais desempregadas há um ano. Defende que o acordo entre empresa e trabalhador valha mais que a lei, o chamado negociado sobre o legislado, e critica o que chama de “República Sindical”. O plano não fala da escala 6×1 nem da política de reajuste do salário mínimo.
Lula propõe o fim da escala 6×1 e a jornada de 40 horas sem corte de salário, nos termos aprovados pela Câmara e que ainda dependem do Senado. Mantém o aumento real do salário mínimo todo ano, quer regras e previdência para quem trabalha por aplicativo e propõe rever pontos da reforma trabalhista que, segundo o texto, levam à precarização.
Segurança pública
O plano de Flávio Bolsonaro declara PCC, CV e milícias organizações narcoterroristas e diz que quem estiver com fuzil na mão “vai ser abatido pelas forças de segurança”. Propõe reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, construir 5 presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador, criar 500 mil vagas no sistema prisional, aplicar castração química a estupradores e abusadores de crianças condenados e acabar com a progressão de regime em crimes hediondos. Também prevê militares nas fronteiras, nos portos e nos aeroportos, 1 milhão de câmeras com reconhecimento facial e o dobro do investimento federal em segurança.
O plano de Lula propõe criar o Ministério da Segurança Pública, depois de aprovada a PEC da Segurança enviada ao Congresso. Aposta em sufocar o dinheiro das facções, com a Lei Antifacção sancionada em 2026, em integrar as polícias e em ampliar as forças conjuntas contra o crime organizado. Mantém o controle de armas, defende câmeras na farda dos policiais com padrão nacional e o policiamento de proximidade.
Saúde
Flávio Bolsonaro propõe corrigir a tabela do SUS paga a hospitais, santas casas e clínicas, contratar exames da rede privada nos horários em que os aparelhos ficam parados e entregar remédio em casa para idosos, pessoas com deficiência e doentes crônicos. O plano prevê ainda prontuário eletrônico único ligado ao CPF, inteligência artificial para marcar consultas e centros de referência para o autismo.
Lula propõe ampliar o programa Agora tem Especialistas, com mutirões, carretas e terceiro turno nas unidades, e criar uma fila única digital organizada pela gravidade do caso. A Farmácia Popular seguiria gratuita e passaria a oferecer exames para hipertensão e diabetes. O plano também cita o prontuário único, o Mais Médicos e a ampliação da vacinação nas escolas.
Educação
O plano de Flávio Bolsonaro propõe alfabetizar pelo método fônico, ampliar as escolas cívico-militares e garantir uma escola “livre de doutrinação político-partidária”, em que os pais decidem os valores ensinados aos filhos. Onde faltar vaga na rede pública, a família receberia um voucher para escola ou creche particular. O financiamento estudantil mudaria: o aluno só começaria a pagar quando estivesse empregado, com parcela proporcional ao salário.
O plano de Lula coloca a escola em tempo integral como “absoluta prioridade” e mantém o Pé-de-Meia, as cotas e o piso do magistério. Promete mais institutos federais, um novo ciclo de expansão das universidades públicas e internet em todas as escolas. A meta é chegar a 80% das crianças alfabetizadas na idade certa.
Bolsa Família e programas sociais
O plano de Flávio Bolsonaro diz que vai manter os programas sociais que já existem, com combate a fraudes, mas não cita o Bolsa Família pelo nome. O beneficiário teria prioridade em vagas de emprego e qualificação e poderia voltar ao benefício sem fila se perdesse a vaga. O texto propõe proibir o uso do dinheiro dos programas em apostas e criar o Ganha-Ganha, em que boas atitudes, como concluir um curso ou pagar as contas em dia, valeriam juros menores e cashback.
O plano de Lula propõe manter e ampliar o Bolsa Família, o Pé-de-Meia, o Gás do Povo e a conta de luz gratuita para famílias de baixa renda que consomem até 80 kWh por mês. A novidade é a Política Nacional de Cuidados, com espaços para crianças de 3 a 12 anos, lavanderias públicas e formação de cuidadores.
Energia e meio ambiente
Flávio Bolsonaro propõe liberar a exploração de gás de xisto (fracking) “com responsabilidade ambiental”, reduzir encargos da conta de luz mantendo a tarifa social e fixar prazo para o licenciamento ambiental: se o órgão não decidir a tempo, a licença seria concedida. A meta é zerar o desmatamento ilegal até 2029. O plano não cita a Petrobras nem o Acordo de Paris.
Lula coloca a Petrobras no centro da política de energia, com a volta da empresa à distribuição de combustíveis e uma política de preços para amortecer choques de fora. A meta é zerar o desmatamento líquido até 2030 e cortar de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035.
STF, redes sociais e o lugar no mundo
O plano de Flávio Bolsonaro propõe uma reforma do STF: limitar as decisões de um ministro só, tirar da Corte o julgamento criminal de parlamentares e exigir quarentena de um ano para que um ministro de Estado seja indicado ao Supremo. Defende o fim da reeleição para presidente e um “Tesouraço na Censura” para acabar com o que chama de “Ministério da Verdade”. Na política externa, propõe reaproximar o Brasil de Estados Unidos, Israel e Argentina e retomar a entrada na OCDE.
O plano de Lula propõe regular as redes sociais e as plataformas digitais contra a desinformação e o discurso de ódio e rediscutir as emendas parlamentares, que, segundo o texto, somaram R$ 50 bilhões no orçamento de 2026. Na política externa, aposta no BRICS, no Sul Global e no Mercosul, e defende a reforma da ONU e do FMI.
Onde os dois concordam
Apesar dos projetos opostos, os planos se encontram em alguns pontos. Os dois propõem prontuário eletrônico único e inteligência artificial contra a fila do SUS, monitorar com tecnologia os agressores de mulheres com medida protetiva, produzir fertilizante no Brasil, zerar o desmatamento e garantir creche para toda criança. Nenhum dos dois propõe uma nova reforma da Previdência.
O que os planos não explicam
O plano de Flávio Bolsonaro não diz como fica o reajuste do salário mínimo nem se mantém a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil. Também não explica de onde viria o dinheiro para cortar impostos e gerar superávit ao mesmo tempo em que dobra o gasto com segurança, prevê R$ 900 bilhões em infraestrutura e cria 500 mil vagas em presídios. Parte das propostas, como a maioridade penal e o fim da reeleição, depende de mudança na Constituição.
O plano de Lula não traz meta para a dívida pública, para o superávit ou para o crescimento da economia, e não informa quanto custam as promessas novas, como os exames na Farmácia Popular, a expansão do tempo integral e o Ministério da Segurança. O fim da escala 6×1 ainda depende de votação no Senado.
O segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula é neste domingo (25). A comparação tema a tema também está no carrossel acima, com as páginas de cada plano citadas em cada slide.
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