O presidente Lula (PT) entregou nesta terça-feira (20) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma autorização para divulgar os próprios sigilos bancário, fiscal e telefônico, os da primeira-dama Janja e os dos cinco filhos, relativos aos últimos oito anos. A abertura só vale se Flávio Bolsonaro (PL), adversário dele no segundo turno de domingo (25), fizer o mesmo. Enquanto cobra transparência do rival, o governo de Lula mantém em sigilo R$ 55,2 milhões gastos no cartão corporativo da Presidência, 99% do total, além dos registros de quem visitou o banqueiro Daniel Vorcaro na prisão e da carta que o presidente mandou a Vladimir Putin.
“Neste momento em que eu tô dando a entrevista pra vocês, os meus advogados estão lá em Brasília, no Tribunal Superior Eleitoral, entregando um documento meu, pedindo a quebra do meu sigilo bancário, telefônico e exigindo que o Flávio Bolsonaro faça o mesmo”, disse Lula em entrevista em São Luís (MA). “Vamos ver se ele tem coragem de abrir a vida secreta dele.” O documento, assinado por Lula, transforma em pedido formal o desafio que ele fez no debate da Band, no domingo (18). O texto pede que os dados dos dois candidatos sejam publicados no DivulgaCandContas, o sistema do TSE, ou em outro site de acesso público, antes da quarta-feira (21). Do lado de Lula, entra a L.I.L.S. Palestras, Eventos e Publicações, da qual ele é “sócio não administrador”. Do lado de Flávio, o pedido lista quatro empresas no Brasil e a offshore Alcazar Holdings, na Ilha da Madeira, em Portugal, em cuja conta o senador figuraria como “usuário master”, “segundo apuração da Polícia Federal divulgada pela imprensa”. A íntegra foi publicada pelo Poder360.
No debate, Lula desafiou: “Eu desafio você, os Bolsonaro e eu, amanhã, abrirmos nossa conta bancária. Abrir o telefone, o sigilo de telefone”. E completou: “Eu abro da minha família inteira e você abre da sua família”. Depois, repetiu o desafio: “Quero ver se ele tem a coragem de abrir o sigilo bancário dele, o telefônico dele”. Disse ainda que está “disposto a que a sociedade brasileira saiba quem é que é ladrão”. Flávio respondeu que não tem “absolutamente nada a esconder”, achou graça da proposta porque Lula “propõe a quebra de sigilo telefônico quando ele não tem celular” e disse que suas contas “estão sempre abertas”. “Só que a questão, Lula, é que o seu dinheiro é por fora sempre”, rebateu o senador. Até a publicação desta matéria, o candidato do PL não tinha dito se vai assinar uma autorização igual.
Nas redes, o desafio virou cobrança contra o próprio Lula. “Queremos o sigilo do cartão corporativo, das visitas ao planalto, dos voos na FAB e do instituto Lula”, escreveu um perfil no X nesta terça-feira, em post com mais de 6,8 mil visualizações.
“Nem de um dia”
Na campanha de 2022, Lula fez do fim do sigilo de 100 anos uma bandeira contra Jair Bolsonaro (PL), que tinha usado o mecanismo para esconder, entre outras coisas, visitantes dos palácios e o próprio cartão de vacinação. “Não haverá sigilo de cem anos, nem de dez anos, nem de um dia”, disse Lula na superlive de 26 de setembro de 2022. “No primeiro dia de governo, nós vamos fazer um decreto (…) para acabar com esse sigilo de cem anos, porque eu quero ver (…) o que esse cidadão está escondendo do povo brasileiro.”
No governo, Lula mandou a Controladoria-Geral da União (CGU) revisar os sigilos de Bolsonaro, e alguns caíram, como o das visitas a Michelle Bolsonaro. O dispositivo, porém, continua de pé: o sigilo de até 100 anos está no artigo 31 da Lei de Acesso à Informação (LAI), que trata de informações pessoais, e os órgãos do governo dele seguem usando. Em 30 de julho deste ano, no podcast Inteligência Ltda., Lula disse ser “radicalmente contra sigilo de 100 anos” e afirmou que as negativas são decididas pelos órgãos do governo: “Isso nem chega na Presidência”.
Quem visitou Vorcaro
Em julho, o ministro da Justiça de Lula, Wellington César Lima e Silva, negou um recurso e manteve o sigilo de 100 anos sobre os registros de visitas recebidas por Vorcaro, ex-dono do Banco Master, enquanto ele esteve preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. O pedido foi feito pela equipe da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, e já tinha sido negado pela PF. Segundo o parecer que embasou a decisão, divulgado pelo Times Brasil, o objetivo é “preservar informações pessoais relacionadas à intimidade e à vida privada”, e a fama do preso e o interesse público “não são suficientes, por si só, para justificar a divulgação”.
O Banco Master virou munição de Lula contra Flávio na campanha. Em Ceilândia (DF), no dia 9, o presidente disse que o país “não será governado pelos sócios do Banco Master, pelos parentes do Vorcaro”. Na semana passada, o Metrópoles revelou que a Aeronáutica usou o mesmo artigo 31 para negar os planos de voo do jato de Vorcaro em novembro de 2025. Em nota, a FAB afirmou que “não impõe quaisquer sigilos em listas de passageiros” e que os planos de voo não trazem os nomes de quem estava a bordo.
A agenda da Janja
Janja está no pedido entregue ao TSE. Em 2024, porém, a Casa Civil negou à agência de dados Fiquem Sabendo a agenda da primeira-dama, as atas de reuniões e a lista de assessores à disposição dela. A justificativa, segundo o jornal O Globo, foi que Janja “não ocupa cargo público”. A CGU manteve a negativa em todos os recursos. Depois das cobranças, em fevereiro de 2025, ela passou a mostrar a agenda do dia nos stories do Instagram, que somem em 24 horas, conforme o Poder360. As agendas anteriores seguem indisponíveis.
Até os visitantes do próprio Lula ficaram sob sigilo. Em março de 2023, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) classificou como reservados os registros de entrada no Palácio da Alvorada desde 1º de janeiro, com sigilo até o fim do mandato, alegando a segurança do presidente. Depois das críticas, o GSI recuou em parte e prometeu divulgar quem vai a agendas oficiais. As visitas consideradas privadas continuaram em segredo.
Cartão, iate e cartas
O sigilo também cobre o dinheiro gasto pela Presidência. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), aprovada em julho de 2025, mostrou que a Presidência gastou R$ 55,5 milhões no cartão corporativo entre janeiro de 2023 e abril de 2025. Desse total, R$ 55,2 milhões, 99%, estavam sob sigilo, o maior percentual desde o início do monitoramento, segundo o Poder360.
Os voos também. Em agosto de 2024, o avião presidencial que trazia Lula de Santiago, no Chile, para Brasília pousou na base aérea de Guarulhos e decolou 10 minutos depois. A Folha de S.Paulo pediu a lista de passageiros pela LAI, e o GSI pôs a informação em sigilo até o fim do mandato. O Planalto não explicou a parada. Naquele dia, Janja estava em São Paulo para compromissos pessoais, segundo a Gazeta do Povo. Em 2025, o governo pôs sigilo de cinco anos na lista de passageiros dos aviões da FAB emprestados a ministros do STF, que pediram 154 viagens entre 2023 e fevereiro de 2025, também segundo a Folha.
Na COP30, em Belém, em novembro de 2025, Lula e Janja se hospedaram no Iana 3, um barco-hotel regional estilo iate. O custo total da estadia não foi divulgado. Segundo a revista Veja, a Presidência informou só a diária média. O ex-deputado Deltan Dallagnol entrou com uma ação popular para obrigar a divulgação dos contratos, conforme o Poder360. A Presidência disse que buscou “soluções que fossem adequadas para receber o presidente”.
As cartas de Lula a outros chefes de Estado também ficam trancadas. Desde 2023, a Casa Civil negou os 12 pedidos feitos pela LAI sobre essa correspondência. Entre eles estão a carta de Lula a Vladimir Putin após a reeleição do russo, em março de 2024, e a carta recebida do argentino Javier Milei. O governo alegou “caráter pessoal” e o “princípio constitucional do sigilo à correspondência”, e os documentos ficaram sem qualquer prazo para liberação. As informações são da Folhapress, em reportagem publicada pelo Jornal de Brasília em março.
A lista segue em outros órgãos. Segundo levantamento do Metrópoles, o Exército negou a lista de generais escolhidos para promoção e pôs sigilo de 100 anos em comunicações com a empresa Palantir. O Banco do Brasil escondeu os visitantes da presidência do banco, e a Secom se recusou a dizer quais agentes públicos fizeram media training em um contrato público.
1.339 pedidos em um ano
Um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo com o Datafixers.org, publicado em março de 2024, mostrou que o governo Lula negou 1.339 pedidos de informação em 2023, o primeiro ano do mandato, com a alegação de dados pessoais, a mesma que abre caminho para o sigilo de até 100 anos. Em 2022, último ano de Bolsonaro, tinham sido 1.332. Entre os pedidos negados estavam a agenda de Janja e os nomes de quem a visitou no Planalto e no Alvorada, a lista dos militares do Batalhão da Guarda Presidencial de serviço no 8 de janeiro e os telegramas do Itamaraty sobre o caso Robinho, segundo o O Tempo.
Em 2025, os órgãos federais negaram 10.824 pedidos, o maior volume desde 2020, segundo o Estadão. Nos três primeiros anos do mandato, um em cada três pedidos negados foi justificado com algum tipo de sigilo.
O que diz o governo
A CGU afirma que, desde setembro de 2024, o sigilo de 100 anos deixou de ser aplicado de forma automática a dados pessoais e que só 83 pedidos receberam essa classificação entre junho e dezembro de 2025. “É dever dos órgãos públicos garantir o princípio da máxima transparência”, disse o órgão à Gazeta do Povo em janeiro.
No podcast de julho, Lula fez uma oferta a quem tiver um pedido negado: “Se um jornalista pedir uma informação e o responsável negar para ele, pergunte para mim, que eu vou dizer”.
Fontes: pedido de Lula ao TSE, no Poder360, auditoria do TCU sobre o cartão corporativo, no Poder360, coluna de Malu Gaspar, no O Globo, via Times Brasil, Folhapress, no Jornal de Brasília, levantamento do Estadão com o Datafixers, no O Tempo, Gazeta do Povo, Metrópoles e CNN Brasil.
Leia também: Lula, que diz não ter celular, desafia Flávio Bolsonaro a abrir o sigilo telefônico ‘pra saber quem é ladrão’
Leia também: Governo Lula impõe sigilo de 100 anos, que ele prometeu derrubar em 2022, aos voos do jato de Vorcaro
© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/politica/pt-quebra-sigilo-flavio-lula-sigilo-cartao-corporativo-55-milhoes




















