O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chamou os candidatos do Enem 2026 de “soldado da democracia” neste domingo (8), no primeiro dia de provas. Na sala de monitoramento do Inep, em Brasília, ele disse que a aplicação do exame era uma “guerra contra o retrocesso”. Horas depois, a prova cobrou SUS, Lei Rouanet, MST e terras raras.
De boné azul com a frase “Amigo do Enem”, Lula falou numa transmissão ao vivo do Canal Gov, ao lado do ministro da Educação, Leonardo Barchini, que pediu a ele uma mensagem aos estudantes. “Nós aqui estamos fazendo uma guerra contra o retrocesso. Estamos fazendo uma guerra pela educação”, disse o presidente. Depois, pediu aos candidatos: “Cabeça erguida, todos vocês, soldado da democracia, soldado da educação, soldado da paz”.
Na mesma fala, o presidente listou as próprias promessas. “É por isso que a gente prometeu fazer escola de tempo integral no Brasil inteiro. É por isso que a gente prometeu universalizar o Pé-de-Meia. É por isso que a gente prometeu criar o Pé-de-Meia universitário”, afirmou.
O que caiu na prova
A redação pediu um texto dissertativo-argumentativo sobre “A valorização do Sistema Único de Saúde (SUS) como direito universal”. Entre os textos de apoio estavam dois artigos da Constituição e um texto sobre os impactos do SUS, como a queda da mortalidade infantil, segundo professores de cursinho que analisaram a prova.
O tema chegou duas semanas depois da eleição em que Lula derrotou Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, em 25 de outubro. O plano de governo registrado pela campanha no TSE diz que o “fortalecimento do SUS público e universal é inalienável”. Neste domingo, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, comemorou a escolha: “O povo brasileiro, há poucas semanas, defendeu o SUS, garantindo, no debate eleitoral, que a saúde é um direito do nosso país”.
Em Linguagens, um infográfico apresentou o impacto econômico da Lei Rouanet, estimado em mais de R$ 49 bilhões desde 1992, com retorno indireto de R$ 1,59 para cada R$ 1 investido. A lei de incentivo à cultura é alvo frequente de críticas da direita.
Em Ciências Humanas, uma questão tratou de cursos de formação do MST para pequenos agricultores e da redução da concentração de terras no país. Outra trouxe um gráfico com as maiores reservas de terras raras do mundo, ligadas à ascensão do chamado Sul Global. Em 16 de setembro, em plena campanha, Lula sancionou a política nacional de minerais críticos e estratégicos e disse na cerimônia que a “soberania não está à venda”.
A prova também cobrou o ECA Digital, lei de proteção de crianças e adolescentes na internet sancionada por Lula em 2025, a guerra no Irã e o Estreito de Ormuz, o voto feminino, a participação das mulheres na ciência e nas Olimpíadas, povos indígenas, o MST e o movimento operário. A ditadura militar apareceu em duas questões, uma delas sobre a música de Chico Buarque como resistência ao regime.
Da “cara do governo” ao Enem de 2026
Em 15 de novembro de 2021, em Dubai, o então presidente Jair Bolsonaro disse que “começam agora a ter a cara do governo as questões da prova do Enem”. A frase veio dias depois de dezenas de servidores deixarem cargos de chefia no Inep, e a oposição acusou o governo de interferir no exame. Na Câmara, a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) perguntou ao então ministro Milton Ribeiro: “O que é uma prova ter a cara de um governo?”.
O Inep afirma que as questões do Enem saem do Banco Nacional de Itens, um acervo de perguntas elaboradas e testadas antes da montagem de cada prova. Em 2023, o instituto informou que 82 dos 95 itens do primeiro dia daquele ano tinham sido feitos entre 2020 e 2021, ainda no governo Bolsonaro.
Santa Catarina
Em Santa Catarina, cerca de 133,2 mil pessoas se inscreveram no Enem 2026, segundo o Ministério da Educação. A prova de Ciências Humanas teve uma questão sobre a Guerra do Contestado, o conflito que marcou o Planalto Norte e o Meio-Oeste catarinense entre 1912 e 1916, considerada uma das mais difíceis do dia por professores.
O segundo dia de provas, com Matemática e Ciências da Natureza, é no próximo domingo (15). O resultado sai em janeiro de 2027, segundo o Inep.
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