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Loja dos Supercarros de BC pede socorro à justiça com dívida de R$ 156 milhões

Bóca Mafra, de Brusque, quer 60 dias de trégua dos credores e tenta barrar a apreensão de 22 carros avaliados em R$ 25 milhões

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Loja dos Supercarros de BC pede socorro à justiça com dívida de R$ 156 milhões
Foto: Reprodução
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A Bóca Mafra, revenda de carros de luxo com matriz em Brusque e a loja Bóca Mafra Premium em Balneário Camboriú, pediu à Justiça uma trégua de 60 dias contra os credores. A empresa declara R$ 156,4 milhões em dívidas e tenta impedir que uma factoring de São Paulo leve 22 carros do estoque, avaliados em R$ 25 milhões.

O pedido é uma tutela cautelar antecedente, prevista na Lei de Recuperação Judicial e Falências para a empresa que quer negociar com os credores antes de pedir recuperação judicial. A ação foi aberta na segunda-feira (26) pela Ambrósio Mafra Comércio de Automóveis, dona da marca, e pela Mafra Administradora de Bens, empresa de imóveis da mesma família.

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Na sexta-feira (30), o juiz Uziel Nunes de Oliveira, da Vara Regional de Falências, Recuperação Judicial e Extrajudicial de Jaraguá do Sul, deixou a proteção para depois. O magistrado deu 15 dias para as empresas corrigirem o pedido e negou o segredo de justiça que elas tinham solicitado.

Em nota enviada ao Jornal Razão nesta quarta-feira (4), a Bóca Mafra afirmou que vai cumprir o despacho do juiz e que um pedido de recuperação judicial depende do resultado da mediação com os credores.

Showroom da Bóca Mafra Premium, em Balneário Camboriú (Reprodução/Instagram @bocamafrapremium)

O que a loja pede

As empresas querem suspender por 60 dias todas as ações, execuções e cobranças contra elas, inclusive bloqueio de contas e apreensão de veículos. O alvo principal é a ação de busca e apreensão aberta no dia 20 de outubro pela Redfactor Factoring e Fomento Comercial na Justiça de São Paulo. A factoring quer levar 22 veículos dados a ela em garantia, avaliados juntos em R$ 25.055.791.

Se a trégua não vier, a loja pede ao menos para ficar com os carros como depositária. Segundo a decisão, a empresa tem 28 empregados diretos.

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Fachada da Bóca Mafra Premium, na Avenida do Estado (Reprodução/Instagram @bocamafrapremium)

Para justificar o pedido, a Bóca Mafra relatou queda nas vendas, mais concorrência, juros mais altos, capital de giro comprometido, margens menores e um estoque caro que precisa ser mantido. A empresa conta que a origem dela remonta a 1973, em Brusque, e que abriu a unidade premium em Balneário Camboriú em 2020.

Quem são os credores

A lista de credores entregue à Justiça soma R$ 156.425.650,68. Desse total, R$ 81,1 milhões entrariam numa eventual recuperação judicial. Os outros R$ 75,3 milhões ficam de fora, porque têm garantias como a alienação fiduciária.

Entre os maiores credores que ficam de fora estão o Banco Sofisa, com R$ 21,54 milhões, a BMP, com R$ 14,07 milhões, o Banco Safra, com R$ 10,83 milhões, e o Banco Inter, com R$ 7,8 milhões. Bradesco, Banrisul, Guanabara, Safra, Santander, Itaú e o fundo Ópera aparecem com créditos nos dois grupos. Três cooperativas de crédito, Sicoob Maxicrédito, Unicred União e Unicred Vale, somam R$ 16,5 milhões.

Por que o juiz não decidiu ainda

O juiz apontou que o pedido junta as duas empresas sem mostrar o que cada uma deve. Segundo a decisão, a crise descrita é toda da revenda de carros, e a administradora de bens só aparece como garantidora de empréstimos. “A condição de garantidora não demonstra, por si só, que a sociedade precise submeter suas obrigações ao regime recuperacional”, escreveu o magistrado.

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O juiz também observou que o sócio-administrador da revenda, Ambrósio Mafra Neto, tem 0,21% da administradora de bens, cuja maior sócia detém 99,16% das cotas. Para ele, laço de família e administração em comum não provam, sozinhos, que as duas empresas têm o mesmo controle.

Outro problema é a mediação com os credores. A loja abriu o procedimento na Câmara de Mediação e Arbitragem ACIF no dia 21 de outubro, cinco dias antes da ação. Até a decisão, os credores só tinham sido avisados, sem data marcada para a audiência. O juiz cobrou a cópia do pedido de mediação, a lista de credores convidados e a prova dos convites.

O magistrado ainda pediu que a empresa diga quais processos quer suspender. Nos documentos, ele só encontrou duas execuções, uma em Itajaí e outra em Balneário Camboriú, além da busca e apreensão de São Paulo.

Mesmo que a proteção venha, ela não impede protestos, negativação do nome e cobranças fora da Justiça, segundo a decisão. A suspensão também não alcança créditos garantidos por alienação fiduciária nem dívidas de atos cooperativos.

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As cobranças que vieram antes

O pedido de proteção chegou depois de uma sequência de cobranças. No dia 9 de outubro, o Banco Safra entrou com uma ação monitória e três execuções no Foro Central de São Paulo contra a loja e contra Ambrósio Mafra Neto. Onze dias depois, veio a busca e apreensão da Redfactor.

Em Balneário Camboriú, a BME Securitizadora cobra R$ 4,8 milhões em 47 cheques que a loja emitiu e depois sustou. No mesmo processo, a securitizadora cobra R$ 5,3 milhões de um contrato em que Ambrósio Mafra Neto assinou como responsável solidário. Para garantir a dívida, a loja ofereceu um terreno em Bombinhas e um apartamento em Brusque, avaliados por ela mesma em R$ 7,87 milhões. Em decisão publicada no dia 1º de outubro, o juiz suspendeu a venda de bens da loja e do sócio nesse processo até analisar a defesa dos dois.

Carros vendidos e apreendidos pela polícia

Entre as causas da crise, a empresa também cita golpes e inadimplência. Processos mostram carros de luxo que a loja vendeu, não recebeu e que acabaram apreendidos em investigações policiais.

Em São Paulo, a Justiça Federal manteve bloqueado o dinheiro do leilão de um Porsche Panamera que a loja vendeu em julho de 2022 por R$ 1,09 milhão. A compradora não pagou, e a Polícia Federal apreendeu o carro 11 dias depois da venda, num imóvel ligado à Operação Diamante, que investiga lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas na Baixada Santista. Na sentença, a Justiça apontou que a loja estaria envolvida na venda de ao menos quatro carros de luxo sequestrados na operação.

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A loja diz ter agido de boa-fé. Ao rejeitar um recurso da loja na primeira instância, o juiz federal escreveu que “não se afirma sua cumplicidade, mas tampouco há evidente boa-fé”. A Bóca Mafra apelou, e o caso está na pauta do Tribunal Regional Federal da 3ª Região para o dia 14 de dezembro.

No Piauí, a Justiça deu razão à loja. Em abril, cancelou o sequestro de uma Lamborghini Huracán que a Bóca Mafra comprou em fevereiro de 2025 por R$ 2,49 milhões e reconheceu a empresa como compradora de boa-fé. Em Itajaí, a loja conseguiu acesso aos autos da Operação Toppare, da Polícia Federal, para tentar reaver um Porsche 911 Turbo que diz ter vendido a uma empresa que não pagou.

A empresa

A revenda leva o apelido do fundador, Ambrósio Mafra Filho, o Bóca, que foi vereador de Brusque e morreu em maio de 2021, aos 70 anos. Hoje a empresa é tocada pela família, com Ambrósio Mafra Neto como sócio-administrador. Além da matriz em Brusque, tem filiais registradas em Brusque, em Nova Trento e na Avenida do Estado, em Balneário Camboriú, onde fica a loja premium.

Nesta terça-feira (3), o site da loja anunciava 297 veículos à venda. O mais caro era uma Ferrari 12Cilindri Spider zero quilômetro, de R$ 6.990.990.

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O que diz a Bóca Mafra

Em nota enviada ao Jornal Razão, a empresa disse que vai cumprir o despacho do juiz. “Serão sanados todos questionamentos e dúvidas”, afirmou a Bóca Mafra.

Sobre a mediação, a empresa informou que a câmara já fez contato com todos os credores e está agendando as reuniões para os próximos dias. “A intenção e esforço é para que todos participem”, diz a nota.

A Bóca Mafra afirmou que o pedido de recuperação judicial depende da negociação. “Se as negociações forem exitosas, não será necessário um pedido de recuperação judicial, ou extra, todavia, caso não avancemos no caminho da composição, está em pauta sim uma medida judicial”, diz a nota.

Sobre a busca e apreensão dos 22 carros movida pela Redfactor, a empresa disse que se trata de “uma divergência decorrente de relações comerciais, que está sendo discutida na Justiça” e que vai apresentar a posição dela no processo.

“Estamos enfrentando um momento difícil, que jamais desejaríamos”, afirmou a Bóca Mafra. A empresa disse buscar “uma solução justa, por meio do diálogo e da transparência” e lembrou que a história dela “foi construída com muito trabalho e relações de confiança”.

Leia também: “Momento difícil, que jamais desejaríamos”, diz Bóca Mafra sobre dívida de R$ 156 milhões em BC

© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/justica/loja-supercarros-bc-pede-socorro-justica-divida-156-milhoes

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