Todos os dias, Cacilda Reggiani sai da cidade onde mora e vai até a casa de Dona Índia, em Camboriú (SC), para alimentar 32 cachorros. Os animais foram recolhidos pela amiga ao longo de anos, mas hoje ela não tem mais condição de cuidar de nenhum deles. Dona Índia passou um mês internada no hospital por causa de uma queimadura e voltou para casa sem conseguir fazer as atividades do dia a dia.
Segundo Cacilda, que é amiga de Dona Índia há 30 anos, a situação é precária. A aposentada é idosa, tem problemas sérios de saúde e, além da queimadura, carrega uma sequela em uma das pernas desde uma queda sofrida em 2019. O irmão dela assumiu os cuidados e, de acordo com a amiga, vai ficar responsável por ela pelo resto da vida.
Com os cachorros, a história é outra. Conforme o relato de Cacilda, o irmão não quer assumir os animais, e Dona Índia não tem dinheiro nem saúde para alimentá-los e tratá-los. “Ela é uma pessoa aposentada, ela depende agora do irmão pra cuidar dela”, explicou.
Quem segura a rotina hoje é a própria Cacilda. Ela tem outros oito animais em casa e diz que está abrindo mão da própria vida para manter os cães de Dona Índia alimentados. “Eu estou deixando de cuidar da minha vida, porque eu tenho mais 8 animais em casa, pra poder estar aqui todos os dias cuidando deles”, contou.

A espera pelo Ministério Público
De acordo com Cacilda, o caso depende de uma providência do Ministério Público em conjunto com a Fundação do Meio Ambiente de Camboriú (FUCAM). Pelo relato dela, a previsão era de que todos os animais fossem recolhidos, mas até agora nenhum cachorro foi retirado do local.
A amiga diz que, se não for possível levar todos, ao menos os mais bravos deveriam sair primeiro. Segundo ela, os cães brigam entre si, vivem em um espaço precário e precisam de cuidados que ninguém está conseguindo bancar. “Eles precisam de remédio, eles precisam de um monte de coisa”, afirmou.
Cacilda deixa claro que não tem como manter o esquema por muito tempo. “Eu não vou ficar responsável por uma coisa que eu não tenho como ficar aqui todos os dias. Eu não moro aqui, eu moro em outra cidade”, disse. Para ela, a saída passa por uma definição de responsabilidade: “alguém tem que ficar responsável, ou então eles têm que vir aqui e retirar os animais”.

Como os cachorros chegaram
A história dos 32 cachorros começou há cerca de dez anos. Segundo Cacilda, por volta de 2016 Dona Índia passou a recolher animais abandonados na estrada perto de casa, um ponto conhecido pelo descarte de bichos. “Sempre aqui foi uma desova de animais”, relatou a amiga. Na época, Dona Índia ainda tinha saúde e foi acolhendo um cachorro atrás do outro.
Em 2019, veio a queda que deixou sequela na perna. Desde então, conforme a amiga, Dona Índia não recolheu mais nenhum animal, mesmo com o abandono continuando na estrada. Nos anos seguintes, a saúde dela foi piorando até chegar à situação atual, agravada pela queimadura.
“O que ela já pegou tá aí”, resumiu Cacilda, que pede ajuda para os animais antes que a situação se agrave. “Tem que resolver, porque assim que está, não dá pra continuar.”
Até a gravação da entrevista, segundo Cacilda, nenhum dos cachorros havia sido retirado do local. O espaço segue aberto para manifestação do Ministério Público de Santa Catarina e da FUCAM sobre o caso.















