A jornalista Amanda Souza de Miranda, servidora da Universidade Federal de Santa Catarina, atribuiu a chuva de granizo que destruiu telhados na Grande Florianópolis ao agronegócio e à construção civil. A publicação foi feita horas depois de o temporal atingir a região, na noite de sábado (29), enquanto milhares de famílias ficavam sem cobertura em Biguaçu e na capital.
Em vídeo gravado durante a chuva, ela questiona: “Isso aqui é falta de saneamento básico? Ou será que isso aqui é o agro destruindo a nossa área verde? Prefeito vendendo a cidade para a construtora? É isso”. A primeira pergunta ironiza a resposta dada pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) na sabatina do Jornal Nacional, na sexta-feira (28), quando ele apontou o saneamento básico como principal medida de proteção ambiental diante das mudanças climáticas.
No X, a jornalista publicou fotos das pedras de gelo com o comentário: “Lembranças dos extremos climáticos na ilha de Santa Catarina, estado de bolsonaristas negacionistas que acham que tudo bem destruir área verde pra construir prédios de Airbnb”.
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“Santa Catareich” e o estado “destroçado”
As falas vieram semanas depois de uma entrevista dela ao portal Opera Mundi, em que trata o estado com deboche e recorre a uma alusão direta ao nazismo. Questionada sobre como estão as eleições em Santa Catarina, “que o pessoal jocosamente chama de Nazilândia”, ela responde chamando o estado de “Santa Catareich”.
O termo faz referência ao Terceiro Reich, nome do regime nazista alemão, e transforma o apelido em rótulo aplicado a todo o estado e aos seus eleitores. Na sequência, ela avalia o cenário eleitoral catarinense: “Eu apostaria mais numa eleição no primeiro turno, lamentavelmente, porque é só um sintoma de quanto o estado está destroçado”. A entrevista está disponível no canal do portal no YouTube.
O Opera Mundi é um dos veículos digitais que mais receberam verba publicitária federal na atual gestão. Entre 2023 e 2026, o portal acumulou R$ 925.801,01 em desembolsos de anunciantes públicos, quase R$ 1 milhão apenas neste mandato. No mesmo período, oito portais alinhados ao campo da esquerda somaram R$ 15,3 milhões, com Brasil 247 (R$ 3,98 milhões) e Carta Capital (R$ 3,62 milhões) no topo da lista.
A cientista citada por ela fala em El Niño e La Niña
Depois da repercussão, a jornalista publicou um novo vídeo com tom diferente do primeiro. Nele, informa que está bem, pede que as pessoas se protejam e passa a tratar o tema pela ótica científica. “A gente está vivendo um alerta de superaquecimento e eventos extremos como o que aconteceu ontem aqui em Florianópolis vão ser cada vez mais frequentes”, disse.
Ela repete a tese do desmatamento como agravante e volta a citar “prefeitos rifando as suas áreas verdes para a construção civil e no interior para o agronegócio”. Em seguida, exibe um trecho de entrevista com a professora Regina Rodrigues, da UFSC, apresentada por ela como uma das maiores especialistas em clima e extremos climáticos do país.
A explicação da cientista, no entanto, segue outro caminho. Regina Rodrigues fala em desequilíbrio energético do planeta e na alternância cada vez mais frequente entre El Niño e La Niña, sem citar construtoras, agronegócio ou prefeituras catarinenses.
“O El Niño geralmente causa seca no Norte, Nordeste e chuvas intensas no Sul. E a La Niña, ao contrário. Então, ambos causam extremos no Brasil”, explica a professora. Segundo ela, desde 2014 houve apenas um ano neutro, o que reduziu os intervalos de normalidade e ampliou a frequência dos eventos severos.
A Defesa Civil de Santa Catarina, por sua vez, atribuiu o temporal deste fim de semana à combinação de uma frente fria estacionária com ar quente e instável sobre o estado, cenário monitorado desde antes de o granizo cair.
Amanda Miranda é doutora em jornalismo pela UFSC e servidora pública federal lotada na área de comunicação institucional da universidade. Ela mantém atuação intensa nas redes sociais, onde se apresenta como ativista pelo direito à informação e monitora mandatos de parlamentares de direita.
Enquanto a polêmica corria nas redes, Biguaçu decretou situação de emergência, contabilizou mais de duas mil famílias atingidas e recebeu o primeiro carregamento de 2 mil telhas do Governo do Estado. Florianópolis também decretou emergência na região Norte da Ilha, com pelo menos 700 famílias afetadas.
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