“Receba meu anjinho, por favor. Me ajuda, Jesus, eu não vou conseguir sem meu bebezinho.” A frase foi dita por Fernanda Gabriele no momento em que o caixão do filho descia à sepultura, na manhã desta sexta-feira (14), no Cemitério do Rio do Meio, em Camboriú. O pequeno Murilo tinha 45 dias e morreu na noite de quarta-feira (12), depois de receber medicação no Hospital Cirúrgico Camboriú e ser transferido em estado grave para Itajaí.
O sepultamento foi marcado por forte comoção. Familiares e amigos acompanharam a despedida em orações, e a mãe passou os últimos momentos ao lado do caixão, falando com o filho e pedindo por justiça.
“Deus dá muito carinho pra ele, porque ele é muito carinhoso”, disse Fernanda durante a despedida. Em outro momento, pediu: “Faz uma festa bem bonita pra ele”. E repetiu o que já havia dito em entrevista ao Jornal Razão um dia antes: “Ele é nossa alegria”.
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Entre as orações, a mãe também questionou: “Por que, Jesus?”. E resumiu a dor que carrega desde a noite de quarta-feira: “Ele tá cansado, ele sofreu muito na mão daqueles médicos”.
Durante a oração, a avó de Murilo pediu a Deus que desse forças à filha para seguir na busca por justiça, um pedido que atravessou toda a cerimônia.
Família luta por túmulo permanente
A despedida, porém, veio acompanhada de uma nova cobrança da família: o túmulo onde Murilo foi sepultado é provisório, com prazo de três anos, e os familiares tentam garantir que a sepultura se torne permanente.
A reivindicação aparece nas mensagens enviadas pela família ao secretário de Assistência Social de Camboriú, Sérgio, às quais o Jornal Razão teve acesso. Em uma delas, os familiares listam o que precisam do Município: “Capela. Caixão. Túmulo PERMANENTE. E queremos respostas. JUSTIÇA”, escreveram, acrescentando que “o único que conseguimos é provisório”.
Em outras mensagens, a família cobra agilidade na entrega dos registros médicos: “AGILIZAR TODOS OS PRONTUÁRIOS MÉDICOS DE CAMBORIÚ” e “IML tem urgência nesses prontuários”.
Secretário nega que presença no cemitério seja “mídia”
O secretário de Assistência Social esteve no cemitério durante o sepultamento. Questionado pelo Jornal Razão se a Prefeitura prestou solidariedade à família ou se a presença no local era apenas para “fazer mídia”, ele negou.
“A prefeitura não veio fazer mídia. A prefeitura se solidariza, lamenta muito o episódio. É um fato muito triste. É toda a sociedade de Camboriú que se sente enlutada com esse acontecimento”, afirmou. “Eu tenho falado com a família desde antes de ontem à noite. Nós temos todas as conversas registradas por WhatsApp.”
O secretário mostrou as conversas à reportagem. Nos registros, aparecem ligações de voz e a mensagem em que ele se coloca à disposição da mãe. Confrontado sobre se os contatos telefônicos seriam o tipo de apoio prestado pela Prefeitura, respondeu que o atendimento não se resume a ele.
“Não apenas eu falei com a família. A diretora Denise falou com a família. A Secretaria de Saúde falou com a família. São outros profissionais da Secretaria que também conversaram com a família”, declarou.
Sobre a fala do secretário de Saúde interino, Henrique Manuel Alves, que na véspera afirmou ao Jornal Razão que o Município não tem que pedir desculpas à mãe, Sérgio disse não ter ouvido a declaração.
“Eu não ouvi a fala dele, então eu não posso me manifestar sobre o que ele falou. Talvez isso tenha sido tirado de um contexto. Mas não acredito que o secretário de Saúde não se lamente com o episódio. Tenho certeza que ele está muito abalado”, afirmou. E completou: “Eu acho que pedir desculpas é algo muito, até nesse momento, simples de se fazer. É muito mais do que isso”.
Segundo o secretário, a estrutura pública se fez presente na despedida. “A Secretaria de Saúde se faz aqui presente. A Secretaria de Assistência Social também. O vereador Josué, pela Câmara de Vereadores. Estamos aqui, todo o município de Camboriú, atendendo, confortando e amenizando a dor da família”, declarou.
A versão da família, no entanto, segue diferente. Os familiares sustentam que, até aqui, o apoio concreto recebido do Município se resumiu ao caixão e à cova, esta com prazo de três anos.
Entenda o caso
Murilo foi levado ao Hospital Cirúrgico Camboriú na quarta-feira (12), segundo a mãe, após apresentar uma reação alérgica provocada por uma fórmula infantil. Fernanda relata que questionou a medicação indicada, por o filho ter apenas um mês e 17 dias, mas ouviu que seria aplicada uma dosagem menor e que o bebê suportaria o tratamento.
Ainda conforme o relato, após a aplicação a criança chorou muito, ficou roxa, apresentou tremores e chegou a registrar entre 230 e 250 batimentos cardíacos por minuto. O bebê foi transferido pelo SAMU ao Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí, levado à UTI, mas não resistiu. Em nota oficial, a Prefeitura de Camboriú informou que os registros do prontuário apontam medicação aplicada em quantidade acima da prescrita.
Na quinta-feira (13), o hospital afastou a pediatra e a equipe de enfermagem envolvidas no atendimento. No mesmo dia, em entrevista ao Jornal Razão, o secretário de Saúde interino afirmou que o Município não pediria desculpas à família: “Eu acho que o município não tem que pedir desculpa, o município tem que acolher”. A entrevista foi encerrada pela assessoria da Prefeitura, e o repórter do JR foi retirado do local.
À noite, o prefeito Leonel Pavan se manifestou nas redes sociais, anunciou a abertura de sindicância e prometeu “responsabilizar quem quer que seja”. A apuração sobre a morte de Murilo segue em andamento, sem prazo definido para conclusão.
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