Toda quarta-feira, uma mesa pequena com uma máquina de escrever antiga aparece na Praça XV de Novembro, em frente à Catedral, no centro de Florianópolis. Atrás dela senta Marina Hadlich, 40 anos, escritora. O atendimento é gratuito e funciona assim: a pessoa chega, diz o próprio nome e uma palavra qualquer, e sai dali minutos depois com um texto escrito na hora, feito só para ela.
A máquina era do avô. Estava em casa, parada, servindo de decoração, até que um vídeo gravado em Nova York chegou ao celular de Marina. Nele, uma mulher escrevia poesia na rua, para quem passasse. A ficha caiu na hora.
“Eu falei, gente, eu moro em Floripa. Eu gosto de falar com as pessoas. Eu tenho a máquina em casa”, conta. A primeira vez que ela levou o equipamento para a praça foi em 10 de janeiro de 2024. Desde então, não faltou uma quarta.

O método é sempre o mesmo. A palavra dita pela pessoa é o ponto de partida, e o resto Marina tira do lugar onde está. “Não tem como não ter inspiração nesse lugar. É para onde eu olho a natureza, é calçada, é gente, eu pego a inspiração”, diz. Ela escreve seguindo a primeira ideia que aparece, sem plano nenhum: “eu nunca sei como o texto vai terminar”.
O que começou como exercício de criatividade virou outra coisa. Muita gente para na mesa não pela máquina nem pelo texto, mas para conversar, para contar a própria história. “Antes de escrever ou de falar, eu estou aqui para escutar”, afirma. Tem dia em que a pessoa vai embora chorando com o cartãozinho na mão, dizendo a mesma frase que Marina já ouviu várias vezes: “você não me conhece, parece que escreveu para mim”.

Ela resume o propósito de forma simples. “O meu propósito é estar aqui para levar amor e alegria para as pessoas, ainda que às vezes ela saia chorando, mas é de alegria.”
Natural de Blumenau, Marina mora em Florianópolis há mais de vinte anos, no Ribeirão da Ilha, o que para ela já basta como credencial. “Porque morando lá, você se torna um manézinho”, brinca.
A vida antes da máquina de escrever era outra. Marina trabalhava na área do Direito, com reeducação de adolescentes e jovens em medida de internação, e costumava organizar campanhas de arrecadação de livros para ajudar nesse processo. Em 2017, largou tudo para viver só de literatura. O raciocínio, segundo ela, foi de ordem prática: se o livro ajudava depois, era melhor chegar antes. “Eu quero trabalhar com os livros antes, na reeducação.”

É essa lógica que sustenta a mesa na praça. Estar ali, no meio do caminho de quem atravessa o centro, é uma forma de colocar literatura na frente de quem talvez não fosse procurá-la. “Eu sou um livro aqui no meio do caminho”, define. “Quem tem cinco minutinhos e para, tem acesso a essa escrita diferente, mais literária.”
Marina já publicou quatro livros, três de forma independente e um por editora. Um deles é infantil e está esgotado. Outros dois reúnem contos sobre mulheres, e o quarto é um romance de comédia leve. O quinto vem por um caminho bem diferente: em setembro, ela lança “A Sombra de Amália”, um livro de terror, na Bienal do Livro de São Paulo. “Eu falo que esse é um livro para dar medo, mas para quem gosta, é só chegar.”
O trabalho na praça também rendeu reconhecimento na cidade. Ela foi destaque no Floripa Mil Grau em 2025, e o efeito apareceu na mesa. “O pessoal vem me procurar na praça. Fala, ah, eu te vi, queria te conhecer, queria que escrevesse para mim.”
Quem para, além do texto, geralmente leva um convite. Marina indica a biblioteca que fica logo ali adiante e o clube de leitura que mantém no Ribeirão. A mesa segue no mesmo ponto, toda quarta-feira, na Praça XV, em frente à Catedral, das 11h às 13h. Não se paga nada. Basta dizer uma palavra e um nome.

























