Em julho de 2023, o então ministro Luís Roberto Barroso subiu ao palco do congresso da UNE, em Brasília, e disse ao microfone: “Nós derrotamos o bolsonarismo”. Não era candidato, não era dirigente de partido. Era ministro do Supremo Tribunal Federal. Meses antes, na diplomação de Lula, Alexandre de Moraes tinha avisado, sorrindo, que ainda havia muita gente para prender e muita multa para aplicar.
Essas duas falas são antigas, e é justamente por isso que importam. Elas mostram que o tribunal escolheu um lado muito antes da campanha de 2026 e nunca fez questão de esconder. O que aconteceu neste ano foi só a continuação.
Em junho, a Primeira Turma condenou Eduardo Bolsonaro e o tornou inelegível. Em julho, Flávio Dino bloqueou R$ 119 milhões do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. No fim do mesmo mês, Moraes deu 48 horas para Jair Bolsonaro explicar um vídeo exibido na convenção que lançou o filho à Presidência e lembrou que a prisão domiciliar podia virar regime fechado. Cada decisão tem seu processo e seus fundamentos. O conjunto, visto por quem vota, tem outro nome.
A reta final
Foi nos últimos dez dias que a coisa perdeu qualquer cerimônia. Uma mentira passou a circular nas redes: a de que Flávio Bolsonaro tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O ministro André Mendonça, no TSE, mandou remover as postagens. Dois dias depois, Flávio Dino derrubou a ordem sozinho e liberou o conteúdo de volta. Luiz Fux cassou a decisão de Dino no dia seguinte, e o plenário do TSE manteve as publicações fora do ar.
O Estadão escreveu em editorial que Dino atua para reeleger Lula. O Globo, também em editorial, falou em Fla-Flu eleitoral entre ministros e apontou a perda de credibilidade da Justiça como a pior novidade desta eleição. Não são jornais bolsonaristas.
Em 1º de outubro veio o debate da TV Globo. Lula avisou na véspera que não iria, como não foi a nenhum debate do primeiro turno. Gilmar Mendes anulou uma decisão do presidente do TSE e obrigou a emissora a incluir mais um candidato. Estela Aranha, ministra do TSE, proibiu a Globo de mostrar o púlpito vazio com o nome do presidente, atendendo à coligação dele. Estela trabalhou com Dino no Ministério da Justiça, foi assessora de Lula, chegou ao tribunal por nomeação dele e gravou vídeo pedindo voto no petista em 2022. A Globo cancelou o debate. No dia seguinte, Dino foi às redes defender as decisões e sugerir que as críticas a Estela eram por ela ser mulher.
O que o eleitor respondeu
Jair Bolsonaro está condenado a 27 anos e três meses, cumpre prisão domiciliar com tornozeleira e não pode nem gravar vídeo. Mesmo assim, no domingo (4), Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro foi eleito senador por Santa Catarina, e Jair Renan e Renato Bolsonaro ganharam vaga na Câmara. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno na frente, com 56 milhões de votos (47,04%), contra 45,15% de Lula.
O PL sai das urnas com a maior bancada do Senado e da Câmara. Ficaram pelo caminho Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Gleisi Hoffmann, Marina Silva, Simone Tebet e Manuela d’Ávila. O bloco que defende o impeachment de ministros do Supremo passa a ter maioria no Senado e força para presidir a Casa. Não tem, ainda, os 54 votos que um impeachment exige. Mas a conversa mudou de lugar.
As pesquisas já avisavam. No Datafolha de setembro, 47% reprovam o trabalho dos ministros, o pior índice desde 2019, e só 18% aprovam. Na Quaest, 56% dizem não confiar no tribunal, dez pontos a mais que em agosto. Na AtlasIntel, 61% não confiam nos ministros e 49,8% defendem o afastamento imediato de Moraes, no meio da crise do caso Master.
A conta
O argumento do Supremo, repetido por anos, é que tudo foi feito para proteger a democracia. O brasileiro cansou de ouvir. Quem protege a democracia não comemora a derrota de um campo político num palco de estudantes, não decide quem senta no debate e não governa ao lado de um presidente. E o governo Lula governou com o tribunal: quando o Congresso derrubou o aumento do IOF, foi Moraes quem devolveu a vitória ao Planalto.
O segundo turno está aberto e pode dar Lula. Isso não muda o que já foi decidido no domingo. O Supremo entrou na eleição como parte, e o eleitor tratou o tribunal como parte: votou contra. A instituição que deveria ser árbitro sai de 2026 menor do que entrou, com um Senado hostil e sem a confiança de mais da metade do país.
Barroso tinha dito que eles derrotaram o bolsonarismo. As urnas responderam três anos depois.
Fotos: Luiz Silveira/STF e Divulgação/STF.
© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/opiniao/stf-decidiu-participar-eleicoes-perdeu
















