Vestido de garçom, com uma garrafinha de água na mão e um adesivo colado nela, Márcio Rodrigues começou a abordar motoristas num semáforo de Santos, no litoral paulista. Entregava a água, deixava o cliente seguir viagem e só depois recebia. Cinco anos depois, é com esse mesmo trabalho de rua, agora vendendo morango cravejado, que ele paga aluguel, prestação do carro e as contas da casa em Balneário Camboriú (SC).
Antes da sinaleira, a vida era outra. Márcio morava em São Paulo e era empresário. Na pandemia, perdeu tudo, segundo ele, “por falta de uma educação financeira”. A perda veio junto com um abalo familiar, e ele foi parar na rua.
Foram oito meses em situação de rua, revirando lixo e dormindo na rodoviária. A virada, conta ele, começou com uma oração. “Um belo dia eu olhei para o céu e falei: Senhor, me ajuda a virar o jogo e dar a volta por cima”, relatou em entrevista ao Jornal Razão. Márcio saiu da rua, saiu da depressão e passou a empreender.
A água entregue antes do pagamento
A ideia do garçom com a garrafinha adesivada nasceu em Santos. O método é simples: ele entrega o produto, a pessoa leva e paga depois. Márcio diz que precisou se preparar para o risco de levar calote.
“Eu sabia que talvez pessoas não iriam pagar”, contou. A estratégia foi trabalhar a própria cabeça para não guardar mágoa de ninguém. “Não quero saber se ela pagou ou não. Não me interessa. O importante é o que ela vai fazer”, disse. O resultado, segundo ele, surpreende: “Resumindo, faz cinco anos, todo mundo paga”.
Da quitinete ao apartamento no Centro
Já recuperado, Márcio se casou de novo e decidiu recomeçar longe de São Paulo. Disse à esposa que iria para um lugar próspero. O destino foi Balneário Camboriú, onde chegou vendendo água nos semáforos e ficou um mês.
Depois, seguiu para Itajaí, onde veio a maçã do amor. “A Maçã do Amor foi e continua sendo um sucesso”, afirmou. Foi ali que ele diz ter ficado conhecido. Foram três anos morando numa quitinete, período que ele faz questão de não renegar.
Há um ano e meio, Márcio realizou o que chama de sonho: voltar a morar em Balneário Camboriú. Hoje, a família vive num apartamento alugado no Centro da cidade. E o carro-chefe mudou de novo: agora é o morango do amor, doce que virou moda e passou a dominar as vendas.
Cada morango paga uma conta
Tudo o que ele tem hoje, segundo Márcio, saiu das vendas na rua. “Hoje as minhas contas, o meu financeiro, depende de cada morango cravejado que eu vendo”, disse. É com esse dinheiro que ele paga a prestação do carro, o aluguel e as despesas do mês.
Márcio também se apresenta como influenciador e diz receber carinho das pessoas que o encontram nas ruas. Mesmo assim, avalia que ainda tem “uma longa estrada para caminhar” até se tornar um caso de sucesso e conquistar parcerias com empresas grandes.
“Se tem luta, tem vitória”
Para quem passa pelo que ele passou, o recado é direto. “Nunca desistir, entendeu? Nunca desistir porque se tem luta, tem vitória”, afirmou. E completou: “Se eu venci, você também consegue vencer”.














