Seu Rubens voltou para casa na manhã desta terça-feira (22) e só então viu o tamanho do estrago. Um dia antes, o morador de 76 anos passou mais de duas horas encostado na parede da casa, em Timbé do Sul, no Extremo Sul de Santa Catarina, com a água da enchente subindo até a cintura, até ser retirado por um helicóptero do Serviço Aeropolicial (Saer).
A imagem dele sozinho, cercado pela correnteza barrenta, circulou pelas redes sociais ao longo da segunda-feira (21). Em entrevista ao portal 2Linhas, seu Rubens contou como tudo aconteceu e corrigiu a idade divulgada inicialmente: ele tem 76 anos, e não 63.
Seu Rubens mora sozinho. Na segunda, almoçou e deitou um pouco na cama. Por volta das 14h, uma vizinha ligou perguntando se havia água dentro da casa. Ele não entendeu a pergunta de início. Quando se levantou e pôs o pé no chão, percebeu que a enchente já tinha entrado.
“Aí eu me apavorei”, contou. Ele saiu para a rua, mas a água já cercava o terreno e não deu mais tempo de ir embora. Ficou num canto junto à parede, o único ponto em que ainda conseguia se manter de pé. “Fiquei aqui, água lá, água aqui, água ali, tudo roda. E eu fiquei aqui. E a água subindo.”
O nível chegou à cintura. Da rua, moradores faziam sinal avisando que o helicóptero estava a caminho. A aeronave passou duas vezes por cima da casa, e a tripulação sinalizou que voltaria depois de retirar outras pessoas mais acima, em áreas onde famílias inteiras estavam ilhadas. “Tinha gente pior do que eu. Mais ilhado”, disse.
Enquanto esperava, estava “só de bermuda, todo molhado, frio”. E havia um agravante: seu Rubens tinha passado por uma cirurgia na sexta-feira (18), três dias antes. Quando o helicóptero voltou, a equipe baixou a corda, içou o morador e o levou para o hospital. Ele passou a noite na casa da filha.
Na volta, encontrou a casa tomada pelos estragos. Perdeu a geladeira e o que ficava encostado no chão. O carro foi empurrado pela água e terminou tombado de bico, mas não foi levado pela correnteza. “As coisas que eu perdi, a gente arruma. Isso aí não é problema. Eu estou bem, estou vivo”, resumiu.
Desde cedo, vizinhos e conhecidos chegaram para ajudar na limpeza. Seu Rubens foi criado em Timbé do Sul e trabalhou muitos anos como caminhoneiro. Disse que ficou emocionado com o movimento de gente na frente de casa. “A gente é bem visto aqui no Timbé.”
Sobre a equipe que o tirou da água, o agradecimento veio curto: “Muito bem atendido. 100%.” Segundo o 2Linhas, o Saer retirou mais de 20 pessoas de áreas de risco no município ao longo da segunda-feira, em uma operação com policiais civis, Samu e outras equipes de emergência.
Timbé do Sul recebeu 156,8 milímetros de chuva em cerca de oito horas e decretou situação de emergência por até 180 dias. Segundo a Defesa Civil, o município soma 160 desalojados, quatro desabrigados, 42 casas afetadas e duas comunidades isoladas, e a Serra da Rocinha está totalmente obstruída por deslizamento. A água que desceu da cidade também alagou Turvo durante a noite.
A enchente atingiu uma cidade marcada pela tragédia de dezembro de 1995, quando uma enxurrada deixou 16 mortos. Em todo o estado, a Defesa Civil contabiliza 60 municípios com estragos, e quatro já decretaram situação de emergência: Timbé do Sul, Turvo, Criciúma e São Joaquim. Em Timbé, um abrigo municipal foi aberto, e as famílias começam agora a limpeza das casas.















