Porto Belo, no Litoral Norte de Santa Catarina, volta a enfrentar um cenário repetido a cada alta temporada: trânsito parado, deslocamento lento e sensação de cidade “travada”. A principal reclamação de moradores e visitantes tem nome e endereço. É o caos viário concentrado em poucos eixos, com a Avenida Governador Celso Ramos no centro do problema.
O município tinha 27.688 habitantes no Censo 2022 e a estimativa do IBGE aponta 31.557 moradores em 2025. No verão, porém, Porto Belo não lida só com quem mora na cidade. Ela também vira corredor de passagem para Bombinhas, outro destino que concentra multidões.
Bombinhas projeta receber entre 1,9 milhão e 2,3 milhões de visitantes por temporada, segundo números divulgados com base em históricos recentes do município. Quando esse volume se espalha pela região, qualquer afunilamento vira um efeito dominó que engole Porto Belo. Recentemente, o assunto repercutiu mais ainda após a deputada Paulinha (PODEMOS) afirmar que levou duas horas para percorrer apenas cinco quilômetros no acesso ao município vizinho.
É o tipo de situação que expõe um diagnóstico básico: não é um problema que se resolve apenas com apito, cone e orientação de trânsito.
A Guarda Municipal fica na linha de frente e, por isso, acaba virando o rosto mais visível de uma cobrança que, na prática, é maior do que fiscalização e presença na rua. Hoje, Porto Belo conta com 15 guardas municipais atuando no serviço externo, divididos em três plantões de cinco GMs. E esse efetivo não atua apenas no trânsito. Além de organizar fluxo em pontos críticos, a equipe também atende ocorrências pelo 153, faz ações preventivas e responde a demandas de segurança e ordem pública em diferentes bairros, muitas vezes ao mesmo tempo.
Na leitura de quem acompanha o problema de perto, esse dado ajuda a colocar a discussão no lugar certo. O congestionamento não nasce porque falta vontade de trabalhar ou porque falta agente na esquina. Ele explode porque a cidade depende de uma malha viária limitada para absorver, ao mesmo tempo, deslocamento interno, fluxo turístico e o trânsito de quem só está passando para chegar a Bombinhas, sendo considerado o maior problema.
A própria Prefeitura tem buscado medidas de ajuste para tentar reduzir pontos de estrangulamento antes do verão. Em outubro de 2025, o município anunciou mudanças de sentido em ruas do Centro como parte de um plano de mobilidade, citando foco em melhorar fluxo e segurança na alta temporada. Também houve anúncio de apresentação de um plano para otimizar circulação viária, com o objetivo declarado de reduzir congestionamentos e dar mais fluidez durante o período de maior movimento.
O problema é que essas ações, embora ajudem, funcionam como “remendo” quando o gargalo é estrutural. Quando a cidade cresce, recebe milhares de visitantes e ainda absorve o caminho para outro município turístico, a falta de rotas alternativas cobra seu preço. E o preço aparece em minutos virando horas, em motoristas irritados, comércio impactado e moradores presos na própria cidade.
Nos bastidores, a discussão já chegou à esfera política regional. Em agosto de 2025, foi oficialmente apresentado um projeto de “Estrada Parque”, descrito como acesso alternativo entre Porto Belo e Bombinhas, com proposta de pavimentar o trajeto do Morro da Antena, incluir ciclofaixas e reduzir impacto ambiental, com menção de apoio financeiro do governador Jorginho Mello e participação de lideranças estaduais e municipais. A existência desse projeto reforça o óbvio: há reconhecimento de que o sistema atual não aguenta sozinho.
O Jornal Razão ouviu especialistas em mobilidade urbana, que apontam que Porto Belo sofre com falta de rotas alternativas e com a concentração do fluxo em poucos eixos. Segundo essa avaliação, medidas operacionais têm efeito limitado quando a capacidade da via principal já está no limite, porque qualquer incidente simples, como colisão leve, veículo quebrado, obra emergencial ou travessia intensa de pedestres, gera travamento em cadeia. Também foi citado que, em cidades turísticas, o pico de deslocamentos acontece em horários parecidos, o que exige planejamento sazonal com soluções de médio e longo prazo, como requalificação de acessos, criação de rotas de alívio, melhorias de sinalização e desenho viário, além de estratégias para reduzir a pressão sobre o mesmo corredor em dias críticos. A conclusão é direta: “a Guarda organiza, mas quem precisa ‘desafogar’ é a infraestrutura, com decisão política e execução contínua, não só no calor do verão.”