O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o mais votado do Brasil em 2022, publicou neste sábado (26) um vídeo com os candidatos em quem votaria se fosse eleitor do Paraná e deixou de fora justamente o nome que o próprio partido lançou ao governo do estado: o senador Sergio Moro (PL). A oito dias do primeiro turno, Nikolas indicou nomes para deputado estadual, deputado federal, Senado e Presidência. Para governador, silêncio total.
“Para deputado estadual, Paulo Melo, cara sensacional. Para deputado federal, Guilherme Kilter, se Deus quiser, vai ser o mais votado do Paraná também. Para senador, são dois votos. O primeiro, Filipe Barros, 222, e o segundo voto, Deltan Dallagnol, 300. Para presidente, obviamente, 22, Bolsonaro”, disse o deputado.
O recado está no Senado. Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo) são os dois candidatos ao Senado que dividem o palanque com Moro. Nikolas pediu voto para os dois companheiros de chapa e pulou o cabeça da chapa. Paulo Melo é do PL e Guilherme Kilter, do Novo. O 22 citado para presidente é o número de Flávio Bolsonaro (PL). Nenhum candidato ao governo do Paraná foi mencionado, nem Moro nem qualquer adversário.
O silêncio chama ainda mais atenção quando se olha para as outras listas do deputado. Nesta semana, Nikolas divulgou colinhas para seis estados (Espírito Santo, Goiás, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Ceará e Acre) e, segundo o Metrópoles, incluiu nomes também para os governos estaduais. No Paraná, a vaga de governador ficou em branco.
Não é a primeira vez que Nikolas vira as costas para o senador. No início de setembro, em live no podcast IronTalks, do apresentador Felipe Sestaro, o deputado rebatia críticos da direita que o cobravam por torcer por Ricardo Salles e Guilherme Derrite, e devolveu a acusação de incoerência. “As pessoas estão vendo a incoerência de vocês”, afirmou. “Eles podem apoiar o Sergio Moro, que traiu Jair Bolsonaro.” O apresentador emendou: “Maior traidor da pátria”.
Segundo o site Bem Paraná, o trecho circulou tanto no estado que Moro precisou se aproximar de amigos de Nikolas para, nas palavras do site, “fingir apoio”. A colinha deste sábado reforça a crítica.
A ferida com o bolsonarismo é antiga. Moro entrou no governo Bolsonaro como ministro da Justiça em 2019 e saiu em abril de 2020 atirando contra o então presidente, a quem acusou de tentar interferir na Polícia Federal. A acusação virou inquérito no Supremo Tribunal Federal. Para boa parte da direita, foi ali que Moro ganhou o rótulo de traidor, que agora volta a assombrar a campanha.
O caso Flávio Dino jogou mais lenha na fogueira. Em dezembro de 2023, o Senado aprovou o indicado de Lula para o STF por 47 votos a 31, em votação secreta. Moro nunca revelou o próprio voto. Na sabatina, foi fotografado abraçado e sorrindo com Dino. Durante a votação, o Estadão flagrou o celular do senador no plenário: um aliado salvo como “Mestrão” alertava que não podia existir vídeo dele “falando que votou a favor”, e Moro respondia que manteria o voto em segredo.
Até Deltan Dallagnol, hoje colega de chapa, cobrou o senador naquela noite. A assessoria de Deltan confirmou que ele mandou mensagem pedindo que Moro votasse contra Dino e declarasse o voto. Em Santa Catarina, os três senadores fizeram o contrário e anunciaram publicamente voto contrário: Jorge Seif (PL), Esperidião Amin (PP) e Ivete da Silveira (MDB).
A suspeita virou arma na campanha. No horário eleitoral de 16 de setembro, o governador Ratinho Junior (PSD), que apoia Sandro Alex (PSD), acusou Moro de trair Bolsonaro e de ter votado em Dino. “Vem aqui falar que combate o PT e votou a favor do Flávio Dino, que foi indicado pelo PT para estar no Supremo Tribunal Federal”, disse. Moro recorreu à Justiça Eleitoral e perdeu: o TRE-PR manteve a propaganda no ar e negou o direito de resposta, porque o sigilo do voto impede o senador de provar que votou contra.
Moro ainda lidera as pesquisas, mas o cenário está longe de resolvido. Na Quaest, feita entre 20 e 23 de setembro, ele aparece com 36%, contra 20% de Requião Filho (PDT) e 20% de Sandro Alex. Na IRG, feita entre 17 e 20 de setembro, a chapa de Moro tem 39,7% e a de Sandro Alex, 27,8%. No segundo turno, a IRG já mostra os dois tecnicamente empatados.
A mesma pesquisa IRG aponta que 46% dos paranaenses ainda não tinham candidato definido para governador no cenário espontâneo. É nesse eleitorado indeciso que o silêncio de Nikolas pesa: dono de uma das maiores audiências da direita nas redes, o deputado mineiro indicou toda a chapa e deixou o eleitor bolsonarista sem nenhum sinal de voto em Moro.
O primeiro turno das eleições é em 4 de outubro. Se houver segundo turno para o governo do Paraná, a votação será em 25 de outubro.
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