O presidente Lula (PT) ergueu uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré diante da multidão no comício desta segunda-feira (28), na Praça da República, em Belém (PA), em plena guerra de versões com o senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre a padroeira do Brasil. A imagem foi entregue no palco pelo ex-governador do Pará Helder Barbalho (MDB), candidato ao Senado, que ofereceu a santa em nome “de todos os paraenses devotos de Nossa Senhora de Nazaré, pra que ela possa abençoar a sua vitória”.
Nas imagens do comício, Lula segura a santa com as duas mãos, levanta a imagem acima da cabeça em direção ao público e percorre a passarela do palco com ela, ao lado da primeira-dama Janja. Enquanto isso, a plateia canta “Nazaré, Nazarezinha, Nazaré rainha”. Depois, os candidatos da chapa foram chamados à frente para o encerramento, com o coro de “Lula novamente, Lula presidente”. A organização estimou cerca de 100 mil pessoas na praça.
O gesto não veio sozinho. No mesmo palco, Janja retomou a acusação contra o adversário: “Enquanto a gente quer o fim das bets, o outro lado quer o fim da Padroeira do Brasil”. A primeira-dama também pediu que “o manto de Nossa Senhora” proteja o público “de falsos adoradores de Deus, de falsos profetas da fé”. O Jornal Razão mostrou a fala de Janja em Belém. Antes de embarcar para o Pará, ela já tinha aparecido em um evento na Base Aérea de Brasília usando uma medalha de Nossa Senhora de Nazaré.
A disputa começou a circular nas redes em 23 de setembro. Posts passaram a afirmar que Flávio, que é evangélico, pretende tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, o que mexeria com o feriado de 12 de outubro. O gancho usado foi uma fala do próprio senador em agosto: “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Flávio negou a intenção já no dia 24.
O único projeto de lei que tratou do assunto não é dele nem da família Bolsonaro. É o PL 2.623/2007, do então deputado Professor Victório Galli (PMDB), apresentado em dezembro de 2007. O texto trocava “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” na lei do feriado. Foi rejeitado na Comissão de Educação da Câmara em julho de 2008 e arquivado no mês seguinte.
Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atendeu a defesa de Flávio. Ele classificou a afirmação como “notoriamente inverídica” e mandou tirar do ar 1.170 links: 1.022 no X, 54 no TikTok, 42 no Instagram, 4 no Facebook e 3 no YouTube. A ordem valia também para posts futuros “substancialmente equivalentes”, inclusive memes, com multa de R$ 50 mil por dia e por plataforma. Em outra decisão, Mendonça mandou o humorista Antonio Tabet apagar um post que dizia que a “família miliciana” tinha resolvido “atacar Nossa Senhora Aparecida”, sob multa de R$ 30 mil por publicação.
No domingo (27), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a ordem contra Tabet e estendeu o efeito a “outros conteúdos eventualmente removidos com o mesmo fundamento”. Para Dino, “se um candidato ou apoiadores seus vierem a se opor a tal lei é natural que sejam criticados”. A decisão saiu dentro de uma reclamação antiga que já estava com ele, sobre a inelegibilidade de Deltan Dallagnol, e juristas criticaram o caminho por driblar o sorteio de relator. Nesta segunda (28), a defesa de Flávio recorreu ao ministro Luiz Fux, falando em “fato falso objetivamente verificável, já desmentido”.
Lula também entrou na discussão. Em entrevista ao Canal Livre, da Band, no domingo, ele disse que “esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Quando a jornalista Adriana Araújo lembrou que se tratava de uma fake news, o presidente respondeu: “Eu não sei se foi fake news”. Um dia antes, no comício de São Miguel Paulista, em São Paulo, a campanha tocou a música “Nossa Senhora”, de Roberto Carlos, e Janja encerrou a fala com “Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, olhai por nós!”.
Flávio respondeu no mesmo dia do comício de Belém. No Mercado Municipal de São Paulo, ergueu uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e chamou o caso de “a maior fake news dessa campanha”. “Ela foi compartilhada pela Janja, foi compartilhada pela Simone Tebet aqui em São Paulo, foi compartilhada por toda a esquerda”, afirmou. “Nossa Senhora é a padroeira do Brasil, todos sabem que eu sou evangélico, respeito todas as religiões, respeito quem também não tem religião.”
A Igreja também foi arrastada para a briga. No domingo, em Goiânia, Flávio disse que o PT espalhou a história “com a ajuda de gente dentro da CNBB”. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil rebateu em nota nesta segunda: afirmou que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas” e que “a mentira não se combate com outra mentira”. Flávio recuou e agradeceu a nota, dizendo que ela confirma que a acusação era mentirosa.
O caso segue aberto no Judiciário. Dino disse que vai levar a decisão ao plenário do STF, ainda sem data, e o recurso de Flávio está com Fux. Enquanto isso, o calendário religioso entra de vez na campanha: o primeiro turno é em 4 de outubro, o Círio de Nazaré, maior festa católica do Pará, sai às ruas de Belém em 11 de outubro, e o feriado de Nossa Senhora Aparecida cai no dia 12, em meio à corrida para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.




















