O Ministério Público Federal (MPF) abriu um procedimento investigatório criminal para apurar se o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, vazou informações sigilosas da Operação Sem Desconto, a investigação da PF sobre a farra do INSS. O alvo da apuração é o que Andrei disse em abril de 2025 sobre o Sindnapi, o sindicato de aposentados que tem como vice-presidente José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula (PT).
O procurador da República Gabriel Pimenta Alves assinou a portaria na quinta-feira (15), e a decisão veio a público nesta terça-feira (20). Segundo o portal Poder360, em reportagem publicada nesta terça, o caso tinha um pedido de arquivamento, mas a 7ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, que cuida do controle externo da atividade policial, não homologou o arquivamento e cobrou o “aprofundamento das investigações”.
Com isso, a notícia de fato virou procedimento investigatório criminal. O MPF quer saber em que circunstâncias o diretor-geral teve acesso às informações, o que ele disse exatamente e se houve divulgação de dados protegidos por sigilo. De acordo com a Gazeta do Povo, em reportagem sobre a portaria, a 7ª Câmara apontou possível descumprimento do dever funcional, violação de sigilo funcional (artigo 325 do Código Penal) e improbidade administrativa.
Entre as providências da portaria, o procurador mandou um ofício para que Andrei preste esclarecimentos. Também determinou que a cópia da decisão judicial que colocou sob sigilo o trecho do inquérito sobre o Sindnapi seja juntada ao processo. O caso foi enviado à Justiça Federal no Distrito Federal, onde o juiz de garantias vai acompanhar a investigação.
A fala que originou a apuração foi dada em 25 de abril de 2025, dois dias depois de a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagrarem a operação. Em entrevista ao ICL Notícias, Andrei foi perguntado sobre o Sindnapi e respondeu: “O irmão do presidente Lula não é alvo da operação, não é investigado na operação”. O diretor-geral também disse que o sindicato não tinha sofrido busca e apreensão e que os dirigentes da entidade não tinham sido alvo de nenhuma medida.
Na mesma entrevista, Andrei afirmou que a questão política “termina gerando uma onda de pessoas tentando fazer uma vinculação”. O Sindnapi, no entanto, já estava entre as 11 entidades associativas investigadas na operação. Segundo o Metrópoles, que teve acesso à decisão em reportagem desta terça, a fala despertou a suspeita de que informações sigilosas estariam sendo divulgadas para favorecer o sindicato e o irmão do presidente, e o entendimento de que Andrei assumia um papel que não caberia a um agente da investigação.
A entrevista já tinha causado reação em Brasília. Em maio de 2025, o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), levou o caso à Comissão de Ética Pública da Presidência. Em julho, numa audiência na Comissão de Segurança Pública da Câmara, Andrei disse que “não há que se falar aqui que a entidade não está investigada”, mas manteve que não houve mandado de busca contra o sindicato nem contra os diretores.
Andrei chefiou a segurança de Lula na campanha de 2022 e comanda a PF desde janeiro de 2023. Na mesma quinta-feira (15) em que o procurador assinou a portaria, Lula elogiou o diretor-geral em entrevista ao Jornal Nacional, mas disse que a explicação dele sobre a ida a uma festa bancada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, em Londres, “não foi convincente”. Perguntado se manteria Andrei no cargo num novo mandato, o presidente não garantiu: “Primeiro eu preciso ganhar as eleições”.
Ainda segundo o Metrópoles, o Sindnapi descontou R$ 599,5 milhões de aposentados em dez anos, de acordo com o relatório final da CPMI do INSS divulgado em março. O valor faz do sindicato a terceira entidade que mais descontou. Pelo mesmo levantamento, 56% do dinheiro foi descontado no governo Lula: de 2023 a 2025, foram R$ 339,5 milhões. Frei Chico foi citado no relatório, mas não foi indiciado. A CPMI terminou em 28 de março sem aprovar relatório, depois que o parecer do relator, o deputado Alfredo Gaspar, foi derrubado por 19 votos a 12.
Em outubro de 2025, uma nova fase da Operação Sem Desconto fez buscas na sede do Sindnapi, em São Paulo, e nas casas do presidente do sindicato, Milton Baptista de Souza Filho, o Milton Cavalo, e de outros dirigentes. Frei Chico não foi alvo das buscas. Dias depois, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), bloqueou até R$ 389 milhões da entidade. Em março deste ano, a Justiça Federal do DF bloqueou até R$ 562,4 milhões do Sindnapi e de Milton Cavalo, numa ação do INSS. A CGU também apontou que o sindicato omitiu a presença de Frei Chico na diretoria quando pediu a renovação do convênio com o INSS, em 2023.
Procurado pelo Metrópoles, Andrei disse que não quer comentar a decisão do MPF. A assessoria da PF informou que não vai se manifestar. O procedimento corre sob o controle do juiz de garantias da Justiça Federal do DF, a cinco dias do segundo turno da eleição presidencial, em que Lula disputa a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL).
Fontes: reportagem do Metrópoles, reportagem do Poder360 e reportagem da Gazeta do Povo.
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