Logo Jornal Razão
Publicidade

“Pai, eu levei o segundo calote”: médico chora ao denunciar salário atrasado no hospital de Camboriú

Médicos dizem que o pagamento de setembro não caiu e pacientes relataram espera de cinco horas no pronto-socorro. AHBR culpa a prefeitura, que afirma ter feito o repasse

"Pai, eu levei o segundo calote": médico chora ao denunciar salário atrasado no hospital de Camboriú
Foto: Reprodução
Publicidade

Médicos do Hospital Cirúrgico de Camboriú (HCC) procuraram o Jornal Razão nesta terça-feira (13) para denunciar que estão sem receber o pagamento referente ao mês de setembro. Segundo eles, ninguém da administração informa quando o dinheiro vai cair.

A preocupação aumenta porque o contrato da Prefeitura de Camboriú com a Associação Hospitalar do Brasil (AHBR), que administra o hospital, termina no dia 25 de outubro. Os médicos temem ficar sem o salário no fim da gestão.

Publicidade

Enquanto os médicos cobram o pagamento, os pacientes cobram atendimento. No pronto-socorro, pacientes relataram espera de cinco horas nesta terça-feira. O Hospital Cirúrgico concentra o pronto-socorro, as cirurgias e as internações de Camboriú.

“Como que eu vou olhar pra minha noiva?”

O médico Álvaro Kroetz trabalha no hospital desde maio e chorou durante a entrevista. “Nós estamos na vigência de levar um calote. A empresa não se manifesta de maneira efetiva”, afirmou.

Ana Cláudia Rodrigues Marques esperava havia cinco horas por atendimento no pronto-socorro

Álvaro contou que perdeu a mãe na pandemia de Covid, quando ainda era estudante, e que veio para o litoral catarinense atrás de emprego. Hoje ele é o responsável financeiro da avó, que mora em Porto União, ajuda o pai, médico aposentado, e paga a faculdade da noiva. “Eu não fico com um real desse dinheiro. Esse dinheiro todo não é pra mim. É pra minha família que eu trabalho e pelo bem dos pacientes que a gente trata”, disse.

“Como que eu vou olhar pra minha noiva e dizer: ‘Eu não vou poder pagar sua faculdade’? Porque se ela não pagar, ela não faz prova”, desabafou. “O que que eu vou dizer pro meu pai? ‘Pai, eu levei o segundo calote aqui no litoral de Santa Catarina’.”

Publicidade

Segundo o médico, esta é a segunda vez que ele corre o risco de ficar sem receber. Antes de vir para Camboriú, Álvaro trabalhou três anos em Porto União e na região, no Hospital São Braz e no Hospital Regional, e afirma que nunca teve atraso. “Nunca tive um calote, nunca tive um atraso”, disse. “Virou um comércio dar calote em médico? Quer dizer que quando a empresa sai, ela dá um calote?”

Ele afirma que a equipe médica foi informada de que a empresa já recebeu o repasse e que, durante o contrato, o pagamento sempre caiu até o dia 10. “É só pra população saber que já foi feito o repasse. Qual é o problema?”, questionou. Sobre as respostas da direção do hospital, o médico foi direto: “São respostas vazias. Não tem nada concreto. Tudo que se desenha é mais uma vez um cenário de onde nós não vamos receber o nosso salário.”

Álvaro também criticou a exigência de dois a três anos de experiência para atuar na emergência, enquanto o pagamento atrasa. “Cobra-se experiência pro médico trabalhar e atuar com qualidade, um médico mais experiente, que saiba o que está fazendo. Em contrapartida, levar um calote?”, disse. “Isso precisa ser escancarado, porque isso é um mercado e isso tem que acabar.”

Médico pediu paciência e foi aplaudido

Mesmo sem o salário, o médico garantiu que a equipe não vai abandonar o atendimento. Ele contou que foi até a sala de espera explicar a situação aos pacientes. “Cheguei a falar com os pacientes, pedi clemência, pedi: ‘Por favor, gente, entendam, nós estamos sob pressão'”, relatou.

Publicidade

Segundo Álvaro, ele avisou que a equipe faria a triagem dos casos, e os pacientes entenderam. “Eu não queria aplauso, eles aplaudiram, eu não queria nada disso, mas eles entenderam a situação”, contou. “Nós não vamos deixar a população na mão. Nós vamos trabalhar.”

Cinco horas de espera

A gerente Ana Cláudia Rodrigues Marques torceu o pé e esperava havia cinco horas por atendimento e por um raio-x. Ela contou que passou mais de duas horas só para ser triada e que, enquanto isso, viu pacientes que chegaram depois serem atendidos antes. “Só tão atendendo prioridade e nós estamos aqui aguardando atendimento”, disse.

Ana Cláudia confirmou que um médico foi até a sala de espera avisar sobre o problema. “Esse doutor que tava aqui veio avisar a gente: ‘Olha, a gente tá com problema, porque a gente tá com falta de salário'”, contou. Segundo ela, o médico explicou que os pacientes com pulseira verde, os casos menos graves, teriam de esperar. “Tem mais pessoas que tão lá dentro, assim como eu, se torcendo de dor, chorando de dor, que precisam de atendimento.”

A diarista Lourdes Braz de Menezes foi ao hospital com os dois filhos depois que a energia acabou no posto de saúde do Tabuleiro, onde eles tinham consulta. Ela estava havia cerca de três horas no local, sem atendimento. “Tá um caos aqui pra gente fazer consulta aqui, tá complicado”, afirmou. “A gente tem que reclamar pra autoridade pra poder tomar uma providência.”

Publicidade

Márcia Moreira contou que levou o marido ao hospital no domingo (11), por volta das 9h, e que ele só foi atendido depois das 13h. Nesta terça, ela estava de novo no hospital, onde uma amiga com o pé quebrado também esperava atendimento. “Hoje tá pior ainda”, disse. “Esse hospital é muito bom, não pode ser perdido esse hospital. Se fechar o hospital, o que vai ser de nós?”

O que diz a AHBR

Em nota enviada ao Jornal Razão, a Associação Hospitalar do Brasil negou o atraso e atribuiu a responsabilidade à prefeitura. Segundo a entidade, os funcionários com carteira assinada receberam antes do quinto dia útil. Os médicos e demais prestadores contratados como PJ ou autônomos recebem entre os dias 10 e 20 de cada mês e, por causa do feriado, os pagamentos estão em processo de liquidação, com prazo até o dia 20.

A associação também afirma que só assinou o contrato com o município mediante cláusula de repasse antecipado e que a prefeitura não tem mantido a pontualidade dos repasses nem o saldo antecipado na conta da parceria. Segundo a nota, isso compromete a continuidade da parceria no fim do contrato, quando as rescisões trabalhistas geram um grande passivo financeiro. A nota é assinada pelo diretor-presidente da AHBR, Christian Salgado.

Confira a nota na íntegra:

Publicidade

A AHBR informa que possui política institucional de pontualidade no pagamento de todos os colaboradores e prestadores de serviço.

Esclarecemos que todos os colaboradores registrados via CLT receberam seus salários no dia contratual, de forma antecipada, antes do vencimento do 5 dia útil, como ocorre com todos os trabalhadores.

Quanto aos profissionais autônomos, os PJ’s e prestadores de serviços, incluindo os médicos, recebem conforme a programação estabelecida. Do dia 1 ao dia 10 do mês é o prazo para recebimento da medições, notas fiscais e RPA’s de pagamentos e os pagamentos se iniciam a partir do dia 10 até o dia 20. Tendo em vista que tivemos feriado, houve, estamos em processo de liquidação dos pagamentos, esclarecendo que o prazo do crédito é até o dia 20. Esclarecemos ainda que a política institucional da AHBR de antecipação do pagamento não vincula o pagamento subsequente à data antecipada.

Esclarecemos ainda que a AHBR ao assumir contrato com o Município, somente assinou mediante cláusula que garantia o repasse antecipado do recurso. Ao longo da execução contratual, verifica-se que a Municipalidade não tem mantido a regularidade da pontualidade do repasse, bem como a manutenção do saldo financeiro antecipado na conta bancária da parceria, o que vem impactando a previsibilidade da continuidade da parceria, principalmente em momento de finalização de contrato que gera grande passivo financeiro decorrente das rescisões trabalhista.

Publicidade

A AHBR reitera seu compromisso com a pontualidade no pagamento e com a gestão transparente.

At.te
Christian Salgado
Diretor Presidente

O que diz a prefeitura

Procurada pelo Jornal Razão, a Prefeitura de Camboriú afirmou que fez o repasse e que o pagamento dos profissionais é responsabilidade da AHBR. “O repasse foi feito. É uma obrigação da empresa contratada fazer o pagamento de todos os profissionais contratados por eles”, informou a prefeitura.

© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/saude/medico-chora-salario-atrasado-hospital-cirurgico-camboriu

Publicidade

Mais de Camboriú

Ver todas ›
Publicidade
Publicidade