Mensagens atribuídas ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC), a maior facção criminosa de Santa Catarina, circulam em grupos internos da organização com uma ordem para moradores de comunidades: votar em Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro, e não apoiar Flávio Bolsonaro (PL). Um dos textos ameaça com “cobrança severa” quem votar no adversário do presidente.
Oficialmente, nenhuma autoridade se manifestou sobre o caso. O Jornal Razão confirmou com fontes ligadas às polícias locais e estaduais que as mensagens estão sendo monitoradas pela inteligência das forças de segurança de Santa Catarina. A ordem é acompanhar a circulação dos textos para garantir que nenhum eleitor seja coagido.
O que dizem as mensagens
Um dos comunicados, assinado como “Comunicado do PGC Estadual”, pede que os moradores de bairro “não votem no filho do ditador do Bolsonaro” e que “transmita o salve para todas as quebradas”, para levar a orientação ao “maior número de moradores”. O texto diz que a facção não levanta bandeira de governo “de esquerda” nem “de direita”, mas afirma que, nas mãos da família Bolsonaro, as periferias vão “perder recursos”.
O segundo texto é mais direto. Pede que integrantes procurem familiares e conhecidos “que vota dia 25” para que votem “no partido PT 13” e termina com a ameaça, na grafia original: “Se chegar em nosso conhecimento que votaram no bolsonaro ou se sabermos que estão apoiando este outro partido (…) Estará sujeito a cobrança sevéra aos envolvidos”.
O Jornal Razão não publica as imagens originais das mensagens para proteger as fontes. O vídeo desta reportagem traz uma reprodução do texto, com a grafia original. Não há nenhum indício de participação da campanha de Lula ou do PT nas mensagens.
Lula na frente em algumas comunidades, Flávio em outras
O Jornal Razão somou os 2.172 boletins de urna de Florianópolis, São José e Palhoça publicados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e separou o resultado do primeiro turno para presidente por local de votação. A soma bate com a totalização oficial.
Em comunidades da Capital, Lula ficou na frente. No local de votação do Morro da Caixa, no Centro de Florianópolis, o presidente teve 74,9% dos votos válidos, contra 20,3% de Flávio Bolsonaro. No Monte Cristo, região onde fica a comunidade Chico Mendes e onde a Polícia Militar já apontou pontos de venda de drogas do PGC, Lula teve 54,1%. Na cidade inteira, Flávio venceu, com 48,6% contra 40,8%.
Em outras áreas onde a facção atua, o resultado foi o inverso. No Caminho Novo, em Palhoça, onde fica a região do Macacari, apontada pela investigação da Polícia Civil como área dominada pelo PGC, Flávio teve 57%. Na Bela Vista, em São José, citada como “quebrada influente” nos documentos internos da facção revelados pelo JR em 2025, foram 59%. Na Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis, 52,5%.
| Local | Lula | Flávio |
|---|---|---|
| Morro da Caixa, Florianópolis (1 local de votação) | 74,9% | 20,3% |
| Monte Cristo, Florianópolis (1 local) | 54,1% | 37,1% |
| Caminho Novo, Palhoça (2 locais) | 33,2% | 57,0% |
| Bela Vista, São José (2 locais) | 31,4% | 59,0% |
| Costeira do Pirajubaé, Florianópolis (4 locais) | 38,0% | 52,5% |
| Florianópolis (total) | 40,8% | 48,6% |
Foi depois desses resultados que os comunicados passaram a circular. Segundo fontes ouvidas pelo Jornal Razão, o resultado nas comunidades também está no escopo das investigações, que ainda são preliminares.
O que diz a lei
Usar violência ou grave ameaça para obrigar alguém a votar ou não votar em um candidato é crime previsto no artigo 301 do Código Eleitoral, com pena de até quatro anos de reclusão, mesmo que o objetivo não seja alcançado.
Em março, o TSE manteve a cassação do prefeito e do vice de Santa Quitéria, no Ceará, por coação de eleitores feita por facção criminosa, que o tribunal tratou como abuso de poder político e econômico. Em Santa Catarina, o Ministério Público investiga desde julho, na Operação Catilina, a suspeita de que uma facção coagia moradores de Itapoá a apoiar candidatos.
Quem for ameaçado pode denunciar à Polícia Militar, pelo 190, ou à Justiça Eleitoral, pelo aplicativo Pardal. O voto é secreto.
Quem é o PGC
O Primeiro Grupo Catarinense nasceu em 2003 no sistema prisional e tem no complexo de São Pedro de Alcântara a sua “Torre”, o centro de comando. A facção tem estatuto, “ministérios” que formam a cúpula e “disciplinas” que fiscalizam e punem integrantes. É aliada do Comando Vermelho e rival do PCC.
Em setembro, a Polícia Penal barrou uma carga de celulares que seria levada para dentro do complexo e fez uma varredura com mais de 100 policiais penais no berço da facção.
As imagens que acompanham esta reportagem são de maio de 2025, quando o Jornal Razão revelou um racha na cúpula do PGC, com documentos internos em que dois grupos se acusavam de traição. A disputa terminou em morte dentro da própria facção. No vídeo, homens encapuzados posam com fuzis, coletes balísticos e munição espalhada pelo chão.
© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/seguranca/pgc-manda-votar-lula-cobranca-severa-bolsonaro-sc















