Uma denúncia de sequestro e estupro mobilizou a Polícia Militar em Tijucas (SC) e desmoronou diante dos próprios policiais. A adolescente de 14 anos que fez a acusação contra um motorista de aplicativo acabou admitindo que havia inventado tudo.
A família procurou as autoridades depois que a jovem contou ter sido vítima de um crime grave durante uma corrida pedida por aplicativo, a caminho da escola. Segundo essa primeira versão, o motorista teria desviado a rota em direção à BR, encostado uma arma em sua cabeça e feito com que ela consumisse drogas.
A adolescente afirmou ainda que teria ficado em poder do homem por quase seis horas, que não lembrava do que havia acontecido nesse período e que acreditava ter sido dopada e estuprada. Também relatou ter visto um saco com pó branco dentro do carro.
Diante de uma acusação desse tamanho, a guarnição da PMSC passou o atendimento inteiro tentando estabelecer a sequência dos fatos e montar a linha do tempo do que seria um dos crimes mais graves do Código Penal.
Foi então que a história mudou. Levada a uma sala reservada e acompanhada por uma policial feminina, a jovem apresentou outra versão: o motorista não havia praticado nenhum ato contra ela e a corrida seguiu normalmente até o endereço solicitado. Ao descer do carro, ela encontrou o namorado e passou a tarde com ele.
O motivo da mentira, segundo ela relatou aos policiais, era o medo da reação dos pais por ter faltado à aula.
A acusação que quase prendeu um inocente
A gravidade do caso está no tamanho da acusação que quase saiu do papel. Sequestro e estupro, somados, podem resultar em penas que ultrapassam duas décadas de prisão. E uma denúncia contra motorista de aplicativo tem alvo imediato: a plataforma registra o pedido da corrida, o trajeto, o horário e a identidade de quem estava ao volante.
Na prática, bastariam alguns minutos para a polícia ter nome, documento e placa do homem apontado. Um trabalhador que apenas cumpriu a corrida poderia ter sido levado preso, ter o carro e o celular apreendidos e passar a responder por dois dos crimes mais graves da legislação brasileira, com base em um relato que se desfez no primeiro contato com a polícia.
Mesmo com o arquivamento posterior, o estrago dificilmente se desfaz na mesma velocidade. A acusação circula, o nome circula, e a desmentida raramente alcança quem ouviu a primeira versão.
Há ainda o custo operacional. Cada hora dedicada a uma ocorrência inventada é uma hora a menos de policiamento disponível para quem realmente precisa. Denúncias falsas de crime sexual também cobram um preço de quem sofreu violência de verdade: cada caso forjado alimenta a desconfiança sobre a próxima mulher que decide registrar uma ocorrência real.
Diante da segunda versão, os policiais constataram, em tese, a prática de falsa comunicação de crime. A adolescente foi conduzida à Delegacia de Polícia Civil acompanhada da mãe, para as providências cabíveis.
Por ser menor de idade, ela não responde criminalmente como um adulto. O caso segue pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê a aplicação de medidas socioeducativas. O motorista de aplicativo não chegou a ser identificado formalmente nem indiciado.















