Uma das maiores investigações sobre o setor imobiliário de Santa Catarina teve novos desdobramentos nesta quarta-feira (3), com a deflagração da Operação Black Flow, que mira a atuação da construtora B.Fabbriani, sediada em Itapema. A ação foi coordenada pelo GAECO, com apoio da 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de Itapema e mandados cumpridos também no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Segundo o Ministério Público, a operação investiga fraudes estruturadas na venda de imóveis na planta, com uso indevido de valores pagos por compradores e possível desvio de recursos para benefício pessoal dos sócios. Foram expedidos 28 mandados de busca e apreensão e quatro de prisão preventiva, entre eles contra o fundador da empresa, Bruno Sequeira Fabbriani, além de Paulo Henrique Barrozo Fabbriani e outros membros da família.
Conforme apurado pela reportagem do Jornal Razão, os investigados são suspeitos de montar uma rede empresarial com dezenas de CNPJs e usar Sociedades de Propósito Específico (SPEs) para captar recursos de consumidores mesmo antes do registro dos empreendimentos. O dinheiro, em vez de ser aplicado nas obras, teria sido pulverizado entre empresas do grupo e transferido para contas pessoais, segundo aponta a investigação.
Construtora prometia, mas não entregava

Documentos públicos e relatos que circulam nas redes sociais revelam que a B.Fabbriani lançou mais de 15 empreendimentos desde 2017, quase todos com obras atrasadas, abandonadas ou nem sequer iniciadas. Apenas o Armona Residencial, em Itapema, foi entregue – mas com inúmeras reclamações por falhas construtivas e ações judiciais abertas por compradores.

A lista de empreendimentos inclui projetos como Villa Residencial, com obra 80% concluída e paralisada desde 2023, e o Colline, onde só as estacas da fundação foram feitas. Já empreendimentos como Move, Hub 444, Flow, Pop, Oslo, Haus, Duo, Mondrian, Hype, Nord e outros, todos com promessa de entrega entre 2025 e 2029, sequer saíram do chão. Em alguns casos, os terrenos ainda estão ocupados por casas antigas ou servem como estacionamento.
Mesmo diante do quadro crítico, a empresa seguia promovendo campanhas de vendas nas redes sociais e feirões com promessas de luxo, inovação e segurança jurídica. As imagens postadas pela incorporadora contrastam com a realidade dos canteiros.
Esquema revelado: dinheiro saía das obras e ia para contas pessoais
De acordo com o Ministério Público, o grupo usava uma estrutura sofisticada para dar aparência de legalidade ao negócio. Cada novo lançamento era vinculado a uma SPE sem registro de incorporação imobiliária, o que já configura infração à legislação. As vendas começavam mesmo sem aprovação formal.
O dinheiro pago pelos clientes era depositado na conta da SPE e rapidamente transferido para outras empresas do grupo, incluindo uma holding nos Estados Unidos, ou mesmo para contas pessoais dos investigados, segundo os autos da investigação. A análise dos extratos bancários revelou, ainda, gastos com cartões de crédito, aquisição de veículos e despesas pessoais, enquanto os empreendimentos permaneciam estagnados.
Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça mostram funcionários sendo orientados pelos superiores a realizar transferências indevidas e a maquiar informações contábeis para ocultar o rastro do dinheiro.

Impacto direto sobre milhares de famílias
Segundo levantamento obtido pelo Jornal Razão, pelo menos 1.500 compradores podem ter sido prejudicados pelos atrasos e paralisações. Há também reclamações de corretores que não receberam comissão, trabalhadores com salários atrasados e donos de terrenos permutados que não foram pagos.
Relatos públicos mostram clientes tentando cancelar os contratos (distratos) sem sucesso. Em muitos casos, a incorporadora teria imposto cláusulas abusivas ou recusado devolver valores pagos, mesmo com obras totalmente paradas. Um abaixo-assinado com centenas de assinaturas foi encaminhado ao Ministério Público, cobrando providências e denunciando o “descumprimento sistemático de prazos contratuais”.
Prisão dos responsáveis e bloqueio de bens
Na operação desta quarta-feira, o GAECO cumpriu os mandados com apoio técnico da Polícia Científica de SC e colaboração do Ministério Público do Rio de Janeiro. Os alvos estavam em residências e sedes de empresas em Itapema, Porto Belo, Joinville, São Paulo e Rio de Janeiro.
Com o nome de “Black Flow”, a operação faz referência ao fluxo obscuro do dinheiro desviado das contas dos empreendimentos para uso pessoal dos envolvidos. Segundo o MP, pelo menos R$ 90 milhões teriam sido movimentados de forma irregular.
Entre as fraudes apontadas estão:
- Venda de imóveis sem registro de incorporação
- Uso de procurações irregulares para movimentar SPEs
- Desvio de valores entre obras diferentes
- Alienação fiduciária de uma mesma unidade para vários compradores
- Falsas promessas contratuais com prazos irreais
O Ministério Público avalia que os investigados não tinham sequer capacidade operacional para cumprir os cronogramas prometidos e adotavam um modelo de negócios que beira a gestão fraudulenta, com indícios de crime contra a economia popular.
Expansão sob suspeita
Apesar das dezenas de processos e das obras paradas, a construtora seguia em ritmo acelerado nas redes sociais. Anunciava expansão para Joinville, Canoas, Pelotas, Balneário Camboriú e até para o Sudeste, com o slogan “nada vende mais do que a verdade bem dita”. Ao mesmo tempo, os compradores viam seus imóveis não serem entregues e acumulavam prejuízos.

Próximos passos: novas ações podem surgir
A investigação tramita sob sigilo, mas os desdobramentos devem se intensificar nas próximas semanas. Há indícios de que o grupo empresarial usava o dinheiro de novos lançamentos para cobrir rombos de projetos antigos – estratégia semelhante a esquemas de pirâmide.
A defesa dos investigados ainda não se manifestou.
O Jornal Razão seguirá acompanhando o caso e atualizando a população com novas informações assim que os autos forem liberados.