A tarde no bairro Ingleses do Rio Vermelho, em Florianópolis, começava pesada, abafada pela tensão que se acumulava no portão de uma casa de dois andares na Rua Adílio Juvenal Mafra. O motivo do impasse parecia, à primeira vista, um desacordo banal de rotina: goteiras, prazos estourados e um serviço de impermeabilização na laje que simplesmente não avançava.
Exausta de cobranças sem resultado, a moradora tomou a decisão de encerrar o contrato. Mas a tentativa de colocar um ponto final no problema acabou abrindo a porta para o descontrole do pedreiro.
Diante da recusa, o prestador de serviço não aceitou o fim do trabalho. O tom de voz subiu rapidamente. Sozinha dentro de casa, com o coração acelerado e a maçaneta firme nas mãos, a mulher impediu a entrada do homem, que esmurrava a ideia de resgatar ferramentas e materiais deixados para trás. Diante dos avisos de que a polícia seria chamada, a resposta veio em tom de ameaça direta: ele voltaria com reforços, invadiria a propriedade e tomaria o que achava ser seu.
Sem margem para diálogo e com o relógio apontando o horário de seu compromisso de trabalho, a moradora apenas conseguiu dizer que nada seria resolvido ali, na correria, e que conversariam em outro momento. Ela trancou a casa e partiu, carregando no peito o nó sufocante de uma briga mal resolvida.
O retorno para o silêncio
Horas mais tarde, o sol já começava a ceder espaço para o fim da tarde quando a moradora retornou do trabalho, acompanhada de sua mãe. A expectativa era de encontrar a rua tranquila e a poeira da discussão assentada. Contudo, assim que o carro dobrou a esquina e se aproximou do portão verde, a realidade se transformou em uma cena digna de um pesadelo.
O primeiro impacto visual foi o caos na garagem. A gaiola de sua coelha de estimação, que costumava ficar protegida em um canto seguro, estava completamente estraçalhada. Bebedouros, potes de comida e os pertences do pet jaziam espalhados pelo chão de concreto como peças de um cenário de destruição deliberada. A porta da gaiola fora arrancada.
O rastro da crueldade
O desespero tomou conta do ambiente em segundos. Passos apressados buscaram pela garagem, mas o sopro final de dor estava metros à frente. Lançado no meio da via pública, sobre o asfalto frio da rua, estava o corpo da pequena coelha.
A cena não sugeria um acidente; transparecia a marca de uma vingança fria e calculada, desenhada para atingir no ponto mais vulnerável. A dor da perda misturou-se ao pavor de perceber que a promessa feita mais cedo fora cumprida da maneira mais perversa imaginável. Entre lágrimas compulsivas e o choque incalculável, mãe e filha ampararam-se no meio da rua enquanto os vizinhos se aproximavam sem entender a dimensão daquela covardia.
O chamado à Polícia Militar não era mais apenas por um desacordo de obra ou por palavras rudes ditas ao vento. Era o registro de uma linha cruzada, onde a disputa por uma laje transformou-se em violação de domicílio, intimidação e a execução brutal de um ser indefeso largado no asfalto.















