Um gaúcho que mora em Santa Catarina desde 2015 parou o carro no estacionamento do Comprão, na entrada de Tijucas, e reparou num papel preso à porta da caminhonete estacionada ao lado. Achou que fosse panfleto de propaganda ou material de campanha. Chegou perto e leu a frase escrita à mão, em letra cursiva: “Bati no seu carro”.
A lataria confirmava o recado. A caminhonete tinha a marca da batida na porta, e o bilhete, deixado por quem causou o estrago, trazia os dados para o dono fazer contato. Não havia ninguém esperando no estacionamento, nem testemunha cobrando atitude, nem câmera apontada. Só o papel dobrado na porta de um carro parado num supermercado de cidade do interior.
Quem encontrou a cena não era o dono da caminhonete, e sim esse cliente que tinha acabado de estacionar ao lado. Ele pegou o celular, filmou o bilhete e a porta amassada e publicou o vídeo nas redes. “Olha o que está escrito: bati no seu carro”, diz ele na gravação, enquanto aproxima a câmera do papel.
Na sequência, emenda o motivo de ter parado tudo para registrar aquilo. “Hoje, o melhor estado para viver, para mim, é isso”, afirma. Conta no próprio vídeo que é gaúcho e que se mudou para Santa Catarina em 2015. “Não tem nada melhor por conta da cultura, do respeito, da educação do povo catarinense.”
Ele fecha parabenizando o autor do bilhete, sem saber quem é. “Não sei se foi um catarinense que fez isso, mas aqui a cultura é essa mesmo”, diz. E resume o raciocínio com uma frase que diz repetir desde 2018: “Eu não sou aquilo que eu falo, eu sou aquilo que eu faço”.
O vídeo saiu do estacionamento de Tijucas e rodou o estado. A caixa de comentários virou uma espécie de arquivo público de casos parecidos, gente de cidade diferente contando a mesma história com outro carro, outro estacionamento, outro bilhete.
Um morador de Tijucas escreveu que passou pela situação em Florianópolis. Um veículo de Brusque bateu no carro dele e deixou um bilhete pedindo desculpas, com o nome da empresa e o telefone da seguradora. Outra seguidora contou que o marido também encontrou um contato deixado no para-brisa e teve o carro consertado. Uma terceira disse que a filha fez o mesmo em Palhoça.
O caso mais completo veio de um seguidor que contou o desfecho inteiro. A esposa dele ralou a porta de um carro no estacionamento de um mercado em Santa Catarina, ligou perguntando o que fazer e recebeu a orientação de agir como a pessoa do vídeo. Deixou o bilhete. No dia seguinte, a dona do carro ligou, informou o valor do conserto e cobrou pouco. A esposa foi até o local de trabalho dela para entregar o dinheiro e descobriu que se tratava de uma juíza no fórum. As duas ficaram amigas, a magistrada virou cliente do casal e indicou outras. “Ser honesto além de certo, abre muitas portas”, escreveu ele.
Nem toda a repercussão ficou no relato pessoal. Parte dos comentários usou o bilhete para puxar orgulho regional e disputa política, com gente de fora dizendo que quer morar no estado e gente daqui devolvendo convite. O autor do vídeo respondeu a quase todos, insistindo no mesmo ponto: honestidade, dignidade e hombridade como comportamento aprendido em casa e passado adiante.
Até agora não se sabe quem escreveu o bilhete, nem se o dono da caminhonete chegou a fazer o contato indicado no papel. O responsável pela batida não se identificou publicamente e não há registro de que o caso tenha virado ocorrência, o que é exatamente o motivo da história ter circulado: o problema se resolveu antes de precisar de polícia, seguradora ou discussão no estacionamento.















