Em 2015, o Polo Industrial de Marechal Deodoro, na região metropolitana de Maceió, ganhou uma fábrica de cerâmica saída do forno: R$ 200 milhões de aporte anunciado, 50 mil metros quadrados de área construída e capacidade para produzir 20 milhões de metros quadrados de revestimento por ano. Era o cartão de entrada da Portobello no Nordeste, e o dono ficava a 2 mil quilômetros dali, em Tijucas. Onze anos depois, a fábrica não é mais dela.
Em fato relevante divulgado na segunda-feira (17), o Portobello Grupo confirmou ao mercado que concluiu a venda dos ativos operacionais e da marca Pointer para a Cerâmica Almeida, companhia centenária sediada em Santa Gertrudes, no interior de São Paulo. O valor não foi divulgado. Segundo a empresa, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação em 10 de agosto e todas as condições precedentes previstas em contrato, incluindo as aprovações societárias, foram cumpridas pelas partes.
A transição está prevista para o início de setembro, quando a gestão da unidade passa para a compradora. A Cerâmica Almeida opera três plantas industriais em São Paulo e informa capacidade próxima de 1,99 milhão de metros quadrados por mês, o que a coloca entre as maiores produtoras de pisos e revestimentos do país.
No documento enviado ao mercado, a Portobello amarra a venda ao próprio plano financeiro:
“Esse movimento está alinhado ao foco estratégico da companhia nos pilares de varejo integrado e expansão internacional. O valor da transação, somado à liberação do capital de giro alocado na unidade, contribuirá diretamente para a execução de uma das duas prioridades estratégicas da companhia para 2026: a otimização de sua estrutura de capital.”
Os números por trás da decisão
O contexto explica a urgência. A Portobello fechou 2025 com receita líquida de R$ 2,6 bilhões e prejuízo líquido de R$ 291,7 milhões, quase o triplo dos R$ 102 milhões registrados em 2024. O resultado foi castigado pelas enchentes que atingiram a operação catarinense no início daquele ano e pelo peso das despesas financeiras em um ciclo de juros altos.
O balanço do segundo trimestre de 2026, divulgado em Tijucas no dia 13 de agosto, mostra a conta ainda aberta. A dívida líquida chegou a R$ 1.171,0 milhões, ante R$ 1.120,2 milhões no trimestre anterior e R$ 955,8 milhões um ano antes. A alavancagem subiu para 3,47 vezes o EBITDA, contra 3,29 vezes no primeiro trimestre. A ação PTBL3 fechou o período a R$ 1,65, com queda de 64,4% em doze meses, e o valor de mercado da companhia recuou para R$ 232,6 milhões.
A operação, porém, reagiu. A receita líquida somou R$ 651,3 milhões no trimestre, alta de 10,3% sobre os três meses anteriores, e a margem bruta alcançou 37,9%, expansão de 4,6 pontos percentuais. O EBITDA ajustado e recorrente quase dobrou, para R$ 97,1 milhões. Ainda assim, o prejuízo líquido do trimestre ficou em R$ 62,7 milhões, e o do semestre, em R$ 103,9 milhões. A melhora operacional não venceu a despesa financeira.
Por que sobrou justamente para a Pointer
O próprio balanço mostra por que a unidade de Alagoas foi a escolhida. Enquanto o grupo entregou margem bruta de 37,9% no trimestre, a Pointer entregou 8,9%. A receita líquida da unidade ficou em R$ 53,3 milhões, cerca de 8% do total consolidado, com retração de 16,1% na comparação anual e sem nenhuma receita de exportação a partir daquele trimestre. Em um portfólio pressionado, era o ativo de menor rentabilidade.
O imóvel, aliás, já havia saído antes. A Portobello fez uma operação de sale and leaseback da planta de Marechal Deodoro, vendendo o terreno e a estrutura e seguindo como locatária. A segunda parcela dessa venda, de R$ 42,5 milhões, entrou no caixa no segundo trimestre, e o ITBI da operação, de R$ 2,1 milhões, apareceu no balanço como despesa não recorrente. Primeiro a companhia monetizou o tijolo; agora vendeu a operação.
Uma semana entre o aval e a assinatura
A cronologia é apertada. A intenção de venda foi anunciada ao mercado no início de julho. O Cade liberou em 10 de agosto. No release do segundo trimestre, publicado três dias depois, a empresa ainda descrevia o negócio como “potencial alienação” e informava que a unidade seguiria operando normalmente sob gestão do Portobello Grupo até a eventual conclusão. No dia 17, veio o fato relevante confirmando o fechamento.
O que fica em Alagoas
A unidade responde por cerca de 300 empregos diretos e 900 indiretos, segundo dados da própria operação, e produz uma linha mais popular de revestimentos. A partir de setembro, esses postos passam a responder a um novo comando.
O negócio também ocorre com um contencioso fundiário aberto no pano de fundo. O Tribunal de Justiça de Alagoas reconheceu que a desapropriação dos 182 hectares onde o polo industrial foi erguido, feita em 2010 pelo governo estadual, se deu à margem da legislação federal, e o produtor rural que reivindica a área obteve usucapião em 2019. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, e advogados do produtor calculam a indenização em mais de R$ 600 milhões. A imprensa alagoana levantou a hipótese de que a venda serviria para afastar a Portobello dessa conta. Nas comunicações ao mercado, a companhia sustenta apenas o enquadramento estratégico e financeiro da operação.
O peso da empresa em Tijucas
Em Santa Catarina nada muda de dono. A Portobello, que completou 47 anos em junho, mantém sede e parque fabril às margens da BR-101, em Tijucas, além da rede Portobello Shop, de lojas próprias e franquias. A empresa segue como uma das duas maiores geradoras de riqueza do município: pelos dados mais recentes de valor adicionado municipal, respondeu por R$ 750,3 milhões, ou 21,23% do total, posição em que foi ultrapassada pela Growth Supplements por uma diferença de R$ 10,3 milhões.
O aperto já chegou ao chão de fábrica catarinense. Em assembleia realizada em 21 de maio, os ceramistas rejeitaram a proposta de reajuste de 4,11% apresentada pela empresa, que previa o índice do INPC para quem não recebe prêmio assiduidade e a elevação do prêmio de R$ 450 para R$ 800 para os demais. “A assembleia é soberana. Vamos convidar a empresa a retomar as negociações tendo em vista a negativa da categoria”, afirmou Eduardo Santana, do Sindicato dos Ceramistas de Tijucas.
A venda é também a primeira grande carta da nova gestão. Em 1º de maio deste ano, Cesar Gomes Junior, sócio-fundador e ex-presidente do conselho de administração, assumiu o comando executivo do grupo no lugar de John Shojiro Suzuki. Sem a Pointer no perímetro, a companhia passa a operar concentrada em varejo integrado e expansão internacional, esta última puxada pela operação nos Estados Unidos, que hoje produz localmente 90% do que vende no mercado americano. O valor da transação segue sem divulgação, a companhia não informou prazo para detalhar o impacto contábil, e a troca de gestão em Marechal Deodoro está marcada para o início de setembro.
Perguntas e respostas
O que exatamente a Portobello vendeu?
Os ativos operacionais da fábrica de Marechal Deodoro (AL) e a marca Pointer. O terreno e a estrutura já haviam sido vendidos antes, em operação de sale and leaseback, e são alugados.
Quando a Cerâmica Almeida assume?
A transição da gestão está prevista para o início de setembro de 2026.
Quanto a Pointer representava no grupo?
Cerca de 8% da receita líquida consolidada no segundo trimestre, com margem bruta de 8,9% contra 37,9% do grupo.
A operação de Tijucas foi afetada?
Não. A sede e o parque fabril catarinense não fazem parte da transação.





















