Ela questionou. Disse ao médico que o filho tinha apenas um mês e 17 dias. Perguntou se a medicação não seria forte demais para um bebê tão pequeno. Segundo a mãe, ouviu que seria aplicada uma dose menor, que a criança suportaria e que aquele era o protocolo indicado.
Pouco depois, o bebê ficou roxo.
Horas mais tarde, Fernanda Gabriele já não tinha nos braços o único filho que tinha. O bebê, oficialmente identificado pelo Município como uma criança de 45 dias, morreu na noite de quarta-feira (12), no Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí, depois de ter sido atendido inicialmente no Hospital Cirúrgico Camboriú (HCC).
Entre a entrada da criança com uma reação alérgica após a ingestão de fórmula e o desfecho devastador, existe um fato que já não depende apenas da palavra da família: os registros do próprio prontuário apontam que foi administrada uma quantidade de medicamentos superior à efetivamente prescrita.
Isso ainda não permite afirmar, tecnicamente, que a quantidade aplicada causou a morte. A relação entre a intercorrência e o óbito continua sob apuração. Mas confirma que, durante o atendimento de um bebê de pouco mais de um mês, a medicação não foi administrada exatamente como havia sido prescrita.
Em entrevista ao Jornal Razão, Fernanda reconstruiu as horas de desespero e repetiu o pedido que, segundo ela, permanece sem resposta: justiça pelo filho.
“Eu cheguei lá com uma reação alérgica só no meu bebê. E eu saí de lá sem vida. Ele saiu de lá sem vida. Eu saí sem o meu bebezinho nos meus braços.”
Fernanda Gabriele, em entrevista ao Jornal Razão
“Eu achava o medicamento muito forte”
Fernanda contou que levou o filho ao HCC depois de perceber uma reação alérgica provocada, segundo ela, por uma fórmula infantil. Conforme o relato, o médico prescreveu adrenalina e dexametasona.
A idade da criança fez a mãe hesitar. Ela diz que expôs a preocupação ao profissional antes da aplicação.
“Eu questionei ele. Falei que ele só tinha um mês e 17 dias e que eu achava o medicamento muito forte para ele. Mas ele me garantiu que iria passar uma dosagem bem menor e que o meu filho iria aguentar, que eram os protocolos que ele deveria usar.”
Segundo Fernanda, a profissional que entrou na sala para aplicar os medicamentos não informou se era enfermeira ou técnica de enfermagem e não se identificou. A mãe afirma que apenas recebeu a orientação para colocar o bebê de bruços, porque a aplicação seria feita no glúteo.
“Eu perguntei o que era. Ela falou dexametasona e a outra era adrenalina. Quando ela aplicou o medicamento, meu bebê começou a chorar muito e ficou roxo.”
O bebê ficou roxo e o monitor marcou mais de 200
A mãe relata que o filho começou a evacuar, tentou vomitar e apresentou tremores. Assustada, procurou ajuda imediatamente. Segundo ela, o médico inicialmente teria dito que aquela reação era normal e decorria do medicamento.
O quadro, no entanto, não se normalizou conforme ela esperava.
Fernanda afirma que um monitor chegou a indicar frequência cardíaca entre 230 e 250 batimentos por minuto. Enquanto o bebê chorava, profissionais tentavam obter um acesso venoso e colocaram um dispositivo para ajudá-lo a respirar. A mãe diz que perguntava repetidamente o que estava acontecendo, mas não recebia uma explicação clara.
“Eu perguntava para eles várias vezes o que estava acontecendo e ninguém me falava. O médico não me falava, as enfermeiras não me falavam. Eles só ficavam tentando furar meu bebê para colocar um acesso.”
Ela calcula que o filho permaneceu por cerca de uma hora e meia naquele sofrimento antes da transferência.
“Foi puro tormento. Eu sem resposta, perguntava para o médico, e ele falava que depois iria me informar o que estava acontecendo com o meu bebezinho.”
Fernanda Gabriele
Segundo a mãe, apenas quando a criança já estava sendo colocada na ambulância o médico perguntou à equipe se alguém havia explicado a situação à família. Foi então, ainda conforme Fernanda, que ela ouviu pela primeira vez que uma profissional havia administrado o medicamento de forma errada.
“Eu falei: ‘Não, ninguém me explicou ainda o que está acontecendo. Eu preciso saber’. Foi quando o médico falou que a enfermeira deu um medicamento errado.”
Fernanda diz que pediu os dados da profissional e o prontuário completo, mas não recebeu os documentos naquele momento. Segundo ela, a orientação foi para que tentasse se acalmar. A mãe afirma que recebeu um calmante.
“Como eu iria me acalmar de uma maneira dessas?”
Fernanda Gabriele
Corrida até Itajaí terminou na UTI
O bebê foi levado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) ao Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí. Fernanda acompanhou a transferência.
De acordo com a mãe, a frequência cardíaca do filho permaneceu acima de 200 batimentos por minuto mesmo depois da chegada ao hospital de referência. Ela relata novas tentativas de acesso venoso, choro intenso e a transferência às pressas para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
“Eles furaram inteiro o meu bebê. Toda hora eu dizia: ‘Gente, meu bebê é muito difícil de tirar acesso. Eu preciso que vocês me ajudem’. E eles não me ajudaram. Meu bebê se foi.”
Fernanda Gabriele
Fernanda afirma que, pouco antes do óbito, recebeu a informação de que o filho estava bem. Pouco depois, segundo ela, um médico retornou e informou que a equipe havia tentado reanimá-lo por mais de 20 minutos, sem sucesso.
“Meu bebê não estava bem. Em menos de dez minutos, ele voltou e disse que o meu bebê tinha ido a óbito.”
Fernanda Gabriele
O óbito teria sido confirmado por volta das 20h, conforme o relato da mãe. A criança era o único filho de Fernanda.
“Ele era um anjinho. Ele era a nossa alegria dentro de casa. Era uma criança amada, desejada. Ele era o meu bebê.”
Fernanda Gabriele
“Eu sou apenas uma mãe clamando por justiça”
Fernanda afirma que registrou boletins de ocorrência relacionados aos atendimentos em Camboriú e Itajaí. Segundo ela, familiares também voltaram ao HCC em busca de documentos e informações, mas não receberam naquele momento todas as respostas que procuravam.
Até a entrevista concedida nesta quinta-feira (13), a mãe dizia não ter recebido contato da Secretaria Municipal de Saúde nem da Prefeitura de Camboriú.
“Não tive amparo de ninguém. Nem da Secretaria de Saúde, nem da Prefeitura, de ninguém.”
Fernanda Gabriele
A fala da mãe é marcada pela repetição de um pedido que nenhum protocolo, nota ou procedimento administrativo consegue diminuir.
“Eu quero justiça pelo meu bebê. Eu exijo respostas. Ele é o único filho que eu tenho. Ninguém vai trazer o meu filho de volta. Eu sou apenas uma mãe clamando por justiça.”
Fernanda Gabriele
Prontuário confirma quantidade superior à prescrita
A nota oficial divulgada pela Secretaria Municipal de Saúde de Camboriú confirma o ponto central da denúncia: os registros do prontuário indicam que a quantidade administrada foi superior àquela prescrita pelo médico.
“Os registros constantes do próprio prontuário apontam, entretanto, para a administração de quantidade de medicamentos superior àquela efetivamente prescrita.”
Secretaria Municipal de Saúde de Camboriú
A Secretaria acrescentou que o bebê chegou ao HCC com alterações clínicas importantes, incluindo saturação de oxigênio de 78%. Segundo a pasta, depois da identificação da intercorrência foram adotadas medidas de suporte e monitoramento, e o SAMU foi acionado.
Conforme os registros citados pelo HCC, a criança estava hemodinamicamente estável no momento da transferência. Essa anotação ainda precisará ser analisada em conjunto com os demais parâmetros clínicos e com os registros do transporte. A mãe afirma ter acompanhado o filho com a frequência cardíaca acima de 200 batimentos por minuto. Somente a análise completa dos prontuários poderá esclarecer a cronologia clínica.
O Município ressalta que ainda não existe conclusão técnica capaz de estabelecer relação causal entre a quantidade de medicamento administrada e o óbito. As notas divulgadas até agora também não informam qual dos medicamentos foi aplicado acima da prescrição nem qual foi a quantidade prescrita e efetivamente administrada.
A administração do hospital foi notificada com urgência para entregar a cronologia completa do atendimento, identificar as equipes envolvidas, detalhar os procedimentos adotados e informar os protocolos de segurança utilizados. Também foi determinada a preservação integral dos prontuários, prescrições e demais registros assistenciais.
Técnica de enfermagem e pediatra foram afastados
O Hospital Cirúrgico Camboriú pertence ao Município e está sob gerenciamento e responsabilidade assistencial da Associação Hospitalar do Brasil (AHBR), que organiza os serviços e administra as equipes da unidade.
Após a repercussão do caso, a AHBR informou que instaurou uma investigação interna e afastou cautelarmente a técnica de enfermagem e o médico pediatra envolvidos no atendimento. A entidade também comunicou o Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina (Coren-SC) e o Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC).
A gestora ressalta que o afastamento é preventivo e não representa reconhecimento de culpa ou atribuição definitiva de responsabilidade. A entidade afirma que vai reconstruir toda a cronologia, analisar a prescrição, o preparo e a administração dos medicamentos, as providências tomadas após o agravamento e as condições da transferência.
Também foram anunciadas medidas de reforço nos protocolos de prescrição, dispensação, preparo, conferência e administração de medicamentos, especialmente em atendimentos pediátricos e no uso de fármacos de alta vigilância.
Saúde de Camboriú já era alvo de inquérito do MPSC por fila de gestantes
A morte do bebê ocorre em um momento no qual a saúde pública de Camboriú já enfrentava questionamentos do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) em outro caso grave, sem relação comprovada com o atendimento realizado no HCC.
No dia 4 de agosto, pouco mais de uma semana antes da morte da criança, o Jornal Razão revelou que o MPSC havia instaurado um inquérito civil para apurar a situação de uma gestante de alto risco que não conseguiu realizar um ultrassom morfológico pela rede pública municipal.
Segundo a apuração publicada na ocasião, o exame havia sido solicitado por uma unidade básica de saúde em dezembro, mas não foi disponibilizado pelo SUS. Em 16 de janeiro, a gestante precisou parcelar o procedimento em três vezes numa clínica particular. Doze dias depois, ela procurou a Secretaria Municipal de Saúde para pedir uma declaração escrita de que o exame não estava disponível na rede pública, mas afirmou ter deixado o local sem o documento. O episódio passou a ser apurado pelo MPSC.
A investigação também expôs uma diferença difícil de ignorar nos números oficiais. Enquanto a Secretaria Municipal de Saúde informou ao Ministério Público que havia 19 gestantes esperando por ultrassonografia obstétrica, sendo cinco classificadas como urgentes, seis como brevidade e oito como eletivas, o sistema consultado pela Promotoria apontava 85 pacientes na mesma fila. Entre os registros estava um pedido parado desde setembro de 2025. Conforme a apuração publicada pelo Jornal Razão, as duas listas coincidiam apenas na primeira posição.
A Prefeitura sustentou, naquela ocasião, que a fila é “viva, rotativa e de alta movimentação diária”, que o Município acompanha aproximadamente 900 gestantes simultaneamente e que cada solicitação passa por regulação médica, com avaliação da idade gestacional, das comorbidades e dos sinais de alerta.
O inquérito envolvendo as gestantes trata do acesso a exames obstétricos e não estabelece qualquer ligação com a medicação administrada ao bebê ou com a morte registrada nesta quarta-feira. Ainda assim, o procedimento mostra que, antes da tragédia que agora exige novas respostas, a gestão municipal da saúde já estava sob cobrança formal do MPSC por uma denúncia e por divergências que precisavam ser esclarecidas.
Mãe e hospital apresentam versões opostas sobre acolhimento
A falta de amparo relatada por Fernanda é contestada pela AHBR. Enquanto a mãe afirma que não recebeu apoio e que só pôde ver o filho depois da confirmação da morte, a gestora sustenta que a família foi acolhida por Assistência Social, Psicologia, coordenações médica e de enfermagem e pela gerência do HCC.
São versões frontalmente diferentes sobre um ponto profundamente humano do caso. A mãe diz que pediu ajuda e respostas enquanto via o filho sofrer. A instituição afirma que ofereceu acolhimento e os esclarecimentos possíveis. Essa divergência também precisa ser esclarecida com horários, registros e identificação dos atendimentos prestados à família.
O que nenhuma das notas altera é o desfecho: Fernanda entrou em busca de atendimento para uma reação alérgica e terminou aquela noite sem o único filho nos braços. Agora, enquanto órgãos e instituições apuram prescrições, doses, procedimentos e responsabilidades, ela repete aquilo que disse do começo ao fim da entrevista ao Jornal Razão:
“Eu sou uma mãe. Eu quero justiça.”
Fernanda Gabriele
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