O blumenauense Tony Alves, de 20 anos, viralizou nas redes sociais ao traduzir para a Língua Brasileira de Sinais (Libras) as músicas da Oktoberfest de Blumenau. Filho ouvinte de pai e mãe surdos, ele aprendeu a Libras antes do português, e foi dentro de casa que nasceu a profissão: hoje ele é instrutor de Libras e influenciador.
Em entrevista ao Jornal Razão nesta terça-feira (20), durante a Oktoberfest, Tony contou que cresceu vendo os pais sofrerem preconceito. Numa das vezes, ele acompanhou o pai, que estava desempregado, na procura por trabalho. “O dono daquele local falou: ‘Ó, teu pai, ele não pode trabalhar aqui porque ele é surdo'”, lembra.
Na rua, a cena se repetia. Quando alguém pedia uma informação aos pais dele, Tony se oferecia para traduzir: “Eles são surdos, mas pode perguntar pra mim que eu vou traduzir pra eles”. A resposta, segundo ele, costumava ser a mesma: “Não, não, não, então deixa”.
Há mais de cinco anos na internet, Tony começou gravando vídeos de musculação com acessibilidade em Libras, porque não encontrava esse tipo de conteúdo na rede. Os primeiros vídeos eram feitos só para os pais e os amigos deles assistirem, e acabaram viralizando.

Ele explica por que sinaliza mesmo quando o vídeo já tem legenda. “A legenda não é acessível pra todas as pessoas”, afirma. Segundo Tony, há escolas que recebem alunos surdos sem intérprete, e muitos crescem sem saber ler e escrever: usam a Libras, mas não o português.
A fama na Oktoberfest veio quando ele decidiu mostrar o gosto por músicas antigas e da região. “Meus amigos falam: ‘tu tem vinte anos, mas tua alma é de setenta já'”, conta. Os vídeos traduzindo as músicas típicas viralizaram, e os seguidores passaram a pedir nos comentários que ele traduzisse a “Marreca”, música que estaria na Oktoberfest com a banda Cavalinho. “Não foi a banda que me chamou. Foi o público”, diz. Tony procurou o empresário da banda e subiu ao palco da festa para interpretar a música em Libras.
A apresentação foi voluntária. “Não queria que me pagasse, pra mim subir no palco da Oktober, pra conseguir mostrar a Libras pro Brasil, porque meu único objetivo foi esse”, afirma.
O resultado, diz ele, aparece na rua. Tony conta que já viu crianças de quatro e cinco anos sinalizando por causa dos vídeos, e gente traduzindo músicas e marcando o perfil dele. Andando pela Oktoberfest, ele é parado por visitantes que mostram o próprio nome soletrado em Libras e perguntam se está certo. “Isso transbordou no meu coração, não com ódio”, resume. “Vamo mudar pra amor, porque foi isso que meus pais me ensinaram.”
Na reportagem em vídeo do Jornal Razão, a apresentação da repórter ganhou interpretação em Libras feita pelo próprio Tony.
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