O mar de Bombinhas até tenta manter o azul de cartão-postal. Mas quem olha com atenção vê outra coisa escorrendo pela areia. Em pleno verão, imagens gravadas por moradores mostram água extremamente escura, com aspecto (e odor) de esgoto puro, correndo diretamente para o mar em pontos da cidade. Na Praia de Quatro Ilhas, o cenário chocou até quem já se acostumou com problemas antigos de saneamento.
O que parece “apenas água suja” nas imagens tem nome e número. E o número assusta. Em pontos monitorados pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina, a concentração de coliformes fecais ultrapassa com folga o limite considerado seguro. Para se ter ideia, a legislação considera impróprio um ponto que registre mais de 800 Escherichia coli por 100 mililitros. Em Bombinhas, há medições recentes que passaram de 5 mil, 8 mil e chegaram a mais de 24 mil coliformes fecais em uma única amostra.
Traduzindo para a vida real, isso significa que a água analisada está dezenas de vezes acima do limite tolerável, indicando contato direto com fezes humanas ou animais. Não é força de expressão. Coliforme fecal não surge do nada. Ele aponta esgoto. E quando aparece em números tão altos, o risco deixa de ser abstrato e passa a ser sanitário.
O último relatório oficial da temporada 2025/2026 confirma o problema. Em Bombinhas, diversos pontos foram classificados como impróprios para banho, incluindo trechos da Praia de Bombas, Praia de Bombinhas, Morrinhos, Zimbros e Canto Grande Mar de Fora. Em alguns locais, a água vinha sendo considerada própria nas semanas anteriores e, de repente, explodiu em contaminação, conforme o levantamento técnico divulgado no dia 9 de janeiro.
É nesse contexto que surgem os vídeos feitos por moradores em Quatro Ilhas. A água escura desce pela areia e encontra o mar sem disfarce. Segundo especialistas, quando há esse tipo de escoamento visível, geralmente ele está ligado a drenagem pluvial contaminada, extravasamento de redes de esgoto ou ligações clandestinas. O próprio relatório do IMA alerta que chuvas, falhas em estações elevatórias e conexões irregulares podem carrear esgoto diretamente para o mar.
Para quem está na praia, pouco importa a origem técnica do problema. O impacto é imediato. Crianças brincam na areia, turistas entram na água sem saber o que está dissolvido ali, comerciantes tentam explicar o inexplicável. O cheiro denuncia antes mesmo da placa vermelha.
Bombinhas construiu sua imagem em cima de praias limpas e natureza preservada. Mas os dados oficiais mostram que, em pleno auge da temporada, parte dessa promessa está sendo engolida por um problema básico e antigo. Quando o exame aponta dezenas de milhares de coliformes fecais, não se trata de detalhe técnico. Trata-se de esgoto no mar.
Enquanto não houver solução estrutural e fiscalização eficaz, a cena tende a se repetir. A água escura continua correndo. O número de coliformes segue gritando nos laudos. E o risco fica por conta de quem entra no mar acreditando que beleza natural é sinônimo de segurança: tudo isso na cidade catarinense que cobra (e arrecada milhões de reais) com uma “Taxa de Preservação Ambiental” para receber seus visitantes.


