Ele já não caminha sozinho e quase não enxerga, mas quando alguém pergunta a idade a resposta sai sem hesitar. “Eu completei 102 anos em agosto, dia 27 de agosto.” Seu Aprígio Joaquim de Sales, nascido em Tijucas em 1924, recebe visita na casa onde vive cercado pela família e desabafa com a franqueza de quem passou a vida inteira no trabalho pesado. “Já não domino mais o meu corpo”, diz, sem perder o bom humor.
Tijucano da região do Itinga, ele conta que nasceu e cresceu “lá em cima do Quilombo”, onde a família tinha terreno. Foi ali que aprendeu tudo o que sabe. “Eu trabalhei na roça, na lavoura. Fazia farinha, fazia açúcar, colhia feijão”, resume. A escola formal nunca fez parte da vida dele. “Eu nunca tive um dia de escola. A minha escola é que o meu pai me ensinava na roça.”
O trabalho era no braço e no carro de boi. Naquela época não existia estrada até o terreno da família. “Hoje tem estrada, mas na época não tinha, era carrinho de boi”, lembra. Foi assim, entre a farinha, o açúcar e o feijão, que ele atravessou o século.
Da lavoura veio o sustento de uma família grande. Seu Aprígio teve oito filhos e, segundo a neta Jeane, hoje soma 20 netos e 14 bisnetos. A esposa continua ao lado dele. Ele conta que os dois se casaram num primeiro de maio e que desde então nunca se separaram. “Toda a vida, graças a Deus, vivendo sempre junto.”

Ela, já debilitada, resume o casamento de décadas em poucas palavras. “Foi muito bom viver esses 65 anos. Eu vivi bem, graças a Deus. Toda vida eu vivi bem.” Sobre o marido, diz que ele “levou a vida direitinho”, cuidando dela enquanto ela cuidava dele.
A neta Lidiane cresceu perto do avô e guarda as lembranças do engenho de farinha. Conta que ele não deixava as crianças mexerem na farinha quando forneava e que a diversão era esperar a farinha quentinha sair. “Para nós, assim, ele é um orgulho, né? A gente ter ele na nossa vida”, diz.
Segundo ela, a casa vive cheia. Família, conhecidos e até gente de fora aparecem para conhecer o tijucano de 102 anos, e todo mundo é bem recebido. O próprio seu Aprígio explica a fórmula: paciência, carinho e amizade.
A filha Leonida, que hoje cuida do pai, descreve o mesmo temperamento. “Maravilhoso, né? Muito calmo, uma pessoa muito paciente. Ele toda vida teve paciência com tudo, com a família, com a mãe.” Ela conta que a dependência é recente. “Até o ano passado ele se virava sozinho. Fazia tudo.” Com a esposa mais fraca, ele passou a se emocionar com mais facilidade.

Seu Aprígio não esconde a frustração de quem passou a vida inteira em movimento e agora depende dos netos para se locomover. “Quero trabalhar, não posso, quero andar, não posso, quase não enxergo. Seja o que Deus quiser”, diz. Sobre o segredo para chegar aos 102, ele desconversa e ri.
Cercado por quatro gerações, ele segue recebendo visitas na casa da família em Tijucas, onde a cada dia alguém aparece para ouvir a história do homem que nunca abriu um caderno e criou oito filhos com a farinha do próprio engenho.














