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Em Santa Catarina, o muro deixou de ser um lugar seguro para a política

O PL ampliou sua força, a esquerda ganhou espaço e os partidos que tentaram ser alternativa sem dizer a quê saíram menores das urnas, sinal de que a derrota não foi exatamente do centro, mas da indefinição.

Em Santa Catarina, o muro deixou de ser um lugar seguro para a política
Foto: Reprodução
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A eleição catarinense deixou um recado que a política tradicional deveria levar a sério: o PL ainda não havia chegado ao seu teto eleitoral. Durante meses, houve quem tratasse o crescimento da direita no Estado como um movimento próximo da saturação, como se o partido já tivesse ocupado praticamente todo o espaço disponível, mas as urnas contrariaram essa previsão em todas as frentes. Jorginho Mello foi reeleito já no primeiro turno, com 68,98% dos votos válidos, as duas vagas ao Senado ficaram com Caroline de Toni e Carlos Bolsonaro e a legenda ampliou sua presença no Legislativo.

Na Assembleia Legislativa, o PL passou de 11 deputados eleitos em 2022 para 16 em 2026, o equivalente a 40% das cadeiras, enquanto na Câmara dos Deputados avançou de seis para sete representantes catarinenses. Julia Zanatta, com 560.223 votos, foi a deputada federal mais votada do Estado, e Ana Campagnolo liderou a disputa para a Assembleia, com 387.523 votos. Não se trata apenas de preservar uma posição: o PL demonstrou capacidade de ampliar sua representação e de mobilizar um eleitorado expressivo em cada disputa de que participou.

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A esquerda também avançou, ainda que em escala menor. A federação formada por PT, PCdoB e PV passou de duas para três cadeiras na Câmara, com Ana Paula Lima, Pedro Uczai e Giovana Mondardo, e de quatro para cinco deputados na Assembleia, ganhos que mostram que, mesmo em um Estado de forte tradição conservadora, a esquerda consegue ampliar seu espaço institucional. Na disputa pelo governo, Gelson Merisio (PSB), finalista da eleição de 2018 e desta vez apoiado pelo campo progressista, terminou em segundo lugar.

Direita e esquerda possuem diferenças profundas, mas compartilham uma característica eleitoral relevante: são reconhecidas por suas posições, pautas e identidades políticas. Seus eleitores podem discordar de determinadas propostas ou rejeitar algumas de suas lideranças, e nem por isso deixam de saber, em linhas gerais, o que cada campo representa.

Seria tentador concluir, a partir daí, que o centro perdeu, embora os números não autorizem uma leitura tão simples. O Republicanos passou de um para três deputados estaduais e conquistou uma cadeira na Câmara, o Podemos trocou uma vaga na Assembleia por outra em Brasília e manteve o tamanho de sua representação, e o Novo preservou o que tinha nas duas casas. Os três disputaram a eleição ao lado do governador, numa escolha clara e conhecida do eleitor.

O retrato muda quando se observa o bloco formado por PSD, MDB, União Brasil e PP, que tentou se apresentar como alternativa ao PL sem deixar claro se era oposição ou outra versão da mesma direita, a ponto de batizar a coligação de “Santa Catarina Acima de Tudo”. A chapa, encabeçada por João Rodrigues (PSD), com Carlos Chiodini (MDB) como vice, terminou em terceiro lugar na disputa pelo governo, com 13,35% dos votos válidos, atrás até de Merisio. No Senado, Esperidião Amin (PP) e Antídio Lunelli (MDB) ficaram pelo caminho. Nas bancadas, os quatro partidos, que somavam 21 parlamentares eleitos em 2022, ficaram com 14, o que representa a perda de um terço das cadeiras e de metade da representação na Câmara.

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O MDB oferece o exemplo mais contundente. Na Câmara, o partido caiu de três representantes para apenas um, e na Assembleia sua bancada recuou de seis para quatro cadeiras, perdas expressivas para uma legenda que construiu parte importante da história política de Santa Catarina e que, por muito tempo, teve presença decisiva nas disputas municipais e estaduais.

Os aliados do MDB também perderam terreno. O PSD manteve suas três cadeiras na Assembleia, porém caiu de dois para um deputado federal, enquanto o União Brasil ficou sem representante na Câmara e recuou de três para dois deputados estaduais; com o PP, seu parceiro de federação, a queda foi de seis para quatro cadeiras no Legislativo estadual.

Seria igualmente apressado concluir que bastava estar ao lado do governador. A federação PSDB-Cidadania integrou a coligação vitoriosa e, mesmo assim, não elegeu ninguém, quatro anos depois de ter levado dois deputados estaduais e uma deputada federal. Sem uma razão própria para existir, o apoio acaba diluído na força do aliado.

O caso mais eloquente, contudo, não é o de um partido, mas o de um parlamentar. Em 2022, Jorge Goetten foi eleito pelo PL com 159.339 votos, a segunda maior votação do partido no Estado, atrás apenas de Caroline de Toni. Em 2024, deixou a legenda com o aval do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e assumiu o comando do Republicanos em Santa Catarina, numa articulação conduzida pelo próprio governador. No papel, não mudou de lado, já que o Republicanos esteve na coligação de Jorginho Mello; o que mudou foi o tom.

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Desde então, Goetten passou a falar em outra frequência. Durante o tarifaço norte-americano, em agosto de 2025, afirmou que “temos um inimigo comum que é o Trump” e criticou “esses extremismos, de um lado e de outro”. Na pré-campanha, defendeu o diálogo com ministros do governo federal e disse priorizar resultados para o Estado em vez de se pautar pela polarização ideológica. São posições legítimas, algumas até sensatas. O problema não está nelas, mas no fato de o eleitor que o levou a Brasília ter votado em outra coisa. Em 2026, Goetten fez 43.449 votos, uma queda de mais de 70% e a maior entre os deputados catarinenses que tentaram a reeleição.

Um detalhe torna o caso ainda mais revelador. Em março, Goetten projetava que o Republicanos seria “o partido que mais cresceu nas eleições” em Santa Catarina, e a sigla de fato cresceu, sem que seu presidente estivesse entre os eleitos. A legenda avançou ao ocupar um lugar claro na aliança governista, enquanto o deputado encolheu porque o eleitor já não sabia exatamente onde encontrá-lo. Goetten não foi para o centro; ficou no meio do caminho, deixando de ser reconhecido por quem o elegeu sem chegar a ser adotado por mais ninguém.

O caso de Ismael dos Santos exige mais cautela, e seria injusto colocá-lo na mesma prateleira. Um dos fundadores do PSD catarinense, ao lado de Raimundo Colombo, Ismael deixou o partido e voltou ao PL, legenda pela qual havia disputado a Prefeitura de Blumenau em 2004. Ao explicar a mudança, disse que o afastamento foi gradual e que a posição da direção nacional do PSD sobre a eleição presidencial o colocou numa situação “desconfortável”, resumindo a decisão com a frase “mudamos de partido, mudamos de número (…), mas não mudamos as nossas convicções”. Não há, portanto, indefinição no seu movimento, mas uma escolha explícita.

Ainda assim, o resultado não veio. Ismael fez 74.644 votos, contra 110.531 em 2022, e ficou como primeiro suplente do PL. Faltaram 1.814 votos para alcançar o último eleito da legenda, e ele ficará fora do Legislativo pela primeira vez em mais de uma década. Os motivos merecem uma análise mais cuidadosa do que cabe nesta coluna, embora o caso deixe ao menos uma lição prudente: trocar de partido, mesmo para o que venceu, não transfere votos automaticamente, e numa lista disputada o eleitor que já tinha seus nomes não abre espaço por gentileza.

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A trajetória de Ismael conta também a história do PSD. Os dois deputados federais que o partido elegeu em 2022, Ismael e Ricardo Guidi, não encontraram motivo para permanecer na legenda e disputaram a eleição pelo PL, onde só Guidi conseguiu se reeleger. Quando um partido não consegue manter nem os próprios quadros, a explicação dificilmente está só no eleitor.

É aqui que a leitura precisa ser ajustada, porque o problema não é estar entre a direita e a esquerda. O muro, na política, não é uma posição geográfica, e sim a indefinição. Pode ser ocupado por quem tenta se colocar como alternativa sem dizer alternativa a quê, por quem se encosta no aliado mais forte sem apresentar nada além da própria disponibilidade e também por quem é eleito com uma identidade e passa o mandato tentando parecer outra coisa.

Durante anos, a capacidade de dialogar com diferentes correntes foi uma das principais vantagens competitivas dos partidos tradicionais, e o trânsito entre grupos, a formação de alianças e a ocupação de espaços nos governos permitiam acumular influência. O problema surge quando a articulação política deixa de servir a um projeto e passa a ser o próprio projeto, porque é nesse momento que o diálogo se confunde com conveniência, a construção de consensos vira justificativa para não assumir posições e a busca por alianças se sobrepõe à necessidade de apresentar uma identidade clara à sociedade.

O eleitor não precisa encontrar radicalismo em cada candidato, porém precisa reconhecer convicções, prioridades e compromissos. Existe uma diferença entre a liderança que negocia sem abandonar seus princípios e aquela que muda de discurso conforme a composição política mais conveniente: a primeira constrói pontes, enquanto a segunda corre o risco de perder a confiança de todos os lados.

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A eleição também mostrou que o desempenho de um partido não determina, necessariamente, o destino de todos os seus integrantes, e, no MDB, dois nomes merecem atenção especial: Rafael Pezenti e Fernando Krelling. Pezenti foi reeleito deputado federal com 125.010 votos, 83% a mais do que os 68.208 obtidos em 2022. Krelling, por sua vez, renovou o mandato na Assembleia com 70.506 votos, ante os 54.320 da eleição anterior, um crescimento de aproximadamente 30%. Enquanto a legenda perdia duas cadeiras em cada uma das casas legislativas, os dois parlamentares ampliavam suas votações individuais.

O fenômeno não se restringiu ao MDB. No União Brasil, Sérgio Guimarães mais que triplicou sua votação e foi o terceiro mais votado para a Assembleia, enquanto Dr. Vicente e, no PP, Pepê Collaço praticamente dobraram as suas. São partidos que encolheram, mas tiveram candidaturas capazes de crescer. Os números não explicam, isoladamente, as razões desse desempenho, porém revelam que a retração partidária não impediu que determinados nomes ampliassem sua conexão com o eleitorado, ainda que o avanço individual não se confunda com a recuperação da legenda.

Os dois emedebistas poderiam ter um papel relevante em um eventual movimento de reconstrução do MDB catarinense. Com trajetórias eleitorais em ascensão e mandatos renovados, reúnem condições para participar de uma discussão sobre os rumos da legenda, sua identidade pública, a formação de novas lideranças e a recuperação da presença partidária nos municípios. Isso não significa que devam assumir sozinhos essa tarefa ou que a renovação dependa exclusivamente deles; significa reconhecer que os resultados individuais podem servir de ponto de partida para uma reorganização mais ampla.

Para recuperar espaço, o MDB não precisa abandonar sua história, mas compreender o que, nesse novo tempo, ainda conversa com o eleitor e o que deixou de fazer sentido. A tradição municipalista, a presença regional e a experiência administrativa podem continuar sendo ativos políticos, desde que estejam vinculadas a um projeto reconhecível, com posições claras e capacidade de responder aos problemas contemporâneos. O desafio, portanto, não é escolher entre tradição e renovação, e sim evitar que a tradição se transforme em acomodação e que a renovação se limite à substituição de nomes sem mudança de rumo.

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A mesma discussão alcança o PSD, o União Brasil e o PP, para os quais não basta atribuir os resultados à força da polarização ou à mobilização das bases adversárias. Quando um partido encolhe enquanto concorrentes do mesmo campo crescem, precisa examinar suas próprias escolhas, a mensagem que transmite e a relação que mantém com a sociedade. Culpar exclusivamente o ambiente político é uma maneira conveniente de adiar o diagnóstico.

O raciocínio vale também para as lideranças que se orgulham de manter relações com todos os campos. Ter interlocução ampla é uma vantagem quando permite construir soluções e vira obstáculo quando a busca por trânsito político impede qualquer definição sobre prioridades, compromissos e limites. O eleitor percebe a diferença entre quem dialoga para realizar um projeto e quem preserva todas as possibilidades para não comprometer nenhuma delas.

O recado, aliás, não se restringe a 2026. As disputas municipais de 2028 já começam a ser preparadas nos bastidores, e os partidos terão de decidir se pretendem apenas reunir alianças ou apresentar projetos capazes de mobilizar eleitores. Em Santa Catarina, onde a força das lideranças locais continua relevante, a proximidade com a população e os resultados administrativos seguirão pesando, e a capacidade de explicar com clareza o que se representa também fará parte dessa disputa.

O centro ainda tem espaço na política catarinense, como a eleição provou nos partidos que fizeram escolhas claras e nas candidaturas que cresceram mesmo dentro de legendas em retração. O que ele não tem é garantia de sobrevivência baseada apenas na tradição, no acesso aos governos ou na habilidade de compor alianças, porque a influência acumulada no passado não se converte, por si só, em votos no presente.

No fim, a questão central não é se a política precisa de diálogo, porque evidentemente precisa, mas se o diálogo continuará sendo uma ferramenta para construir projetos ou será usado como justificativa para evitar escolhas.

O centro não precisa se transformar em direita ou esquerda para recuperar relevância; precisa deixar de tratar a ausência de identidade como se fosse uma virtude política. Quando todos sabem com quem um partido está disposto a negociar e ninguém consegue explicar o que ele efetivamente defende, o problema já não é a polarização, e sim a falta de um motivo convincente para votar nele.

Em Santa Catarina, o muro pode até continuar de pé, mas a eleição deixou um aviso claro: quem fizer da indefinição sua principal estratégia, seja entre os polos, seja à sombra de um aliado mais forte, seja atrás de um tom que já não corresponde ao voto recebido, corre o risco de descobrir que o eleitor consegue escolher outros caminhos.

© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/opiniao/muro-deixou-de-ser-lugar-seguro-politica-sc

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