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Eleições 2026

O que os Bolsonaro querem em Santa Catarina?

Carlos Bolsonaro transferiu o domicílio eleitoral para disputar o Senado por Santa Catarina, Jair Renan concorre à Câmara e Flávio fez do Estado um de seus palanques. Isoladamente, são candidaturas; lado a lado, parecem estratégia.

O que os Bolsonaro querem em Santa Catarina?
Foto: Reprodução
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Há uma pergunta que Santa Catarina ainda não fez com a atenção que ela merece: por que, afinal, os Bolsonaro escolheram nosso Estado?

A resposta mais simples já foi dada por alguns: Santa Catarina é um dos maiores redutos conservadores do país, tem um eleitorado historicamente identificado com a direita e oferece ao bolsonarismo um ambiente eleitoral muito mais favorável do que boa parte dos estados brasileiros. Tudo isso é verdade, mas é pouco para explicar o tamanho do movimento.

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Carlos Bolsonaro deixou para trás sete mandatos como vereador do Rio de Janeiro, transferiu seu domicílio eleitoral para Santa Catarina e agora disputa uma das duas vagas que o Estado terá no Senado. Jair Renan, que construiu sua primeira experiência política como vereador em Balneário Camboriú, também disputa uma vaga de deputado federal por aqui.

Dois filhos de Jair Bolsonaro; duas vagas em Brasília; um mesmo Estado. É difícil tratar isso como coincidência.

Carlos Bolsonaro não veio simplesmente disputar uma eleição. Antes mesmo de sua campanha ganhar corpo, já participava da construção da presença política da família em Santa Catarina. Flávio Bolsonaro também transformou o Estado em um dos palanques de sua candidatura à Presidência. E, na composição eleitoral catarinense, o mesmo projeto passou a reunir Flávio para presidente, Jorginho Mello para governador e Carlos Bolsonaro e Carol De Toni para o Senado.

Quando se olha cada candidatura isoladamente, parece eleição. Quando se olha o conjunto, parece estratégia. E talvez seja justamente essa a parte mais importante dessa história. O Senado passou a ocupar um lugar central no projeto político da família Bolsonaro. A composição da Casa Alta a partir de 2027 poderá ser decisiva para as disputas institucionais que a direita pretende travar em Brasília, especialmente em temas relacionados ao Supremo Tribunal Federal, às pautas conservadoras e ao próprio futuro político de Jair Bolsonaro.

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Nesse cenário, uma cadeira no Senado não é apenas um mandato, é uma peça chave no tabuleiro do poder; e Santa Catarina oferece duas.

É por isso que a escolha de Carlos Bolsonaro merece ser observada para além da candidatura de um filho de ex-presidente que decidiu disputar uma eleição fora de seu Estado de origem. O que está em jogo pode ser uma tentativa de transformar a força eleitoral catarinense em uma extensão de um projeto nacional.

Não há amadorismo, tampouco oportunismo, é estratégia pura. Digo isso porque, para construir essa operação, os Bolsonaro precisaram mexer em um tabuleiro que já estava montado.

A entrada de Carlos alterou a composição política que Jorginho Mello vinha construindo. Esperidião Amin, que fazia parte daquele desenho, acabou em outro campo. Dentro do próprio PL, surgiram manifestações de resistência. Ana Campagnolo protagonizou um episódio público ao não aderir ao pedido de apoio a Carlos e a disputa pelas duas vagas ao Senado transformou antigos aliados em concorrentes diretos. Ou seja: a família veio para unificar a direita, mas sua chegada também expôs as fissuras existentes dentro dela.

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E há um detalhe ainda mais revelador: Carlos Bolsonaro afirmou recentemente, em Itajaí, que o único candidato de direita ao governo de Santa Catarina é Jorginho Mello. A frase pode parecer apenas uma declaração de apoio, esperada por alguém que compõe uma determinada chapa ou coligação, mas não é.

Quando um dos principais nomes da família Bolsonaro desembarca em Santa Catarina e estabelece quem, na sua visão, representa a direita na disputa pelo governo, ele não está apenas pedindo votos para um aliado. Está ajudando a definir os limites de um campo político.

E isso nos leva a uma pergunta maior: os Bolsonaro escolheram Santa Catarina porque encontraram aqui uma direita forte ou estão tentando transformar essa força em uma estrutura política sob sua liderança? Talvez seja um pouco das duas coisas.

Santa Catarina já tinha um eleitorado conservador, lideranças próprias e uma estrutura partidária consolidada. Os Bolsonaro não inventaram isso. O que perceberam foi que esse ambiente poderia funcionar como uma das bases mais importantes de sustentação de um projeto nacional. É uma diferença sutil, mas fundamental. Não se trata apenas de conquistar votos em Santa Catarina, mas de construir influência a partir deles.

Carlos Bolsonaro pode conquistar uma cadeira no Senado; Jair Renan pode chegar à Câmara dos Deputados; Jorginho Mello pode renovar o mandato; Flávio Bolsonaro pode chegar ao Palácio do Planalto. E, no meio desse mesmo tabuleiro, Carol De Toni ainda disputa uma das duas vagas que Santa Catarina terá no Senado. Isoladamente, são candidaturas. Colocadas lado a lado, revelam algo muito mais ambicioso: a possibilidade de fazer de Santa Catarina um dos principais pontos de apoio do bolsonarismo a partir de 2027.

Se esse desenho ganhar forma nas urnas, Santa Catarina não será apenas o Estado onde o bolsonarismo encontrou um dos seus eleitorados mais fiéis. Poderá se transformar em uma peça estratégica de um projeto de poder que começa no território catarinense, mas não termina nele. O que está em disputa, portanto, não são apenas mandatos, mas a capacidade de transformar força eleitoral em influência política e, a partir dela, projetar Santa Catarina para o centro de uma disputa nacional.

Durante décadas, São Paulo e Minas Gerais ocuparam posições centrais na política brasileira não apenas porque reuniam grandes eleitorados, mas porque eram capazes de transformar sua força regional em influência nacional. São Paulo continua sendo, de longe, o maior colégio eleitoral do país, com mais de 34 milhões de eleitores, enquanto Minas Gerais reúne outros 16,3 milhões. Juntos, os dois estados representam mais de 31% do eleitorado brasileiro.

Santa Catarina está muito distante dessa dimensão numérica e não seria razoável compará-la a esses estados nesse aspecto. No entanto, na visão deste analista, pode estar surgindo aqui uma outra forma de protagonismo, baseada na possibilidade de um Estado com eleitorado menor, mas politicamente estratégico, concentrar uma parcela relevante de uma determinada força nacional e transformar essa densidade política em representação no Congresso, influência institucional e capacidade de participar diretamente das grandes disputas de poder em Brasília.

São Paulo e Minas fizeram história pelo tamanho de sua força eleitoral; Santa Catarina pode, a partir de 2027, começar a chamar atenção pela capacidade de transformar uma identidade política regional em uma plataforma de poder nacional. E é exatamente por isso que esta eleição merece ser observada com mais cuidado.

Porque existe uma diferença importante entre um Estado votar majoritariamente em determinado grupo político e esse grupo decidir fazer desse Estado uma base estratégica de poder. A família Bolsonaro não está chegando a um território politicamente vazio. Santa Catarina já possui seus próprios líderes, seus interesses, seus acordos e uma classe política que há décadas disputa espaço, influência e protagonismo. A presença dos Bolsonaro não apaga essa estrutura; ao contrário, passa a disputar espaço dentro dela.

E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante dessa história. Os Bolsonaro podem conquistar votos catarinenses, eleger senadores, deputado federal e ajudar a definir os rumos da disputa pelo Governo do Estado. Agora, transformar força eleitoral em liderança política é outra coisa. Voto não significa, necessariamente, transferência de comando. Uma coisa é ter o eleitorado; outra, bastante diferente, é construir legitimidade dentro de uma política estadual que já possui seus próprios protagonistas.

É por isso que esta análise não pode ser confundida como defesa ou crítica à família Bolsonaro. Não cabe a uma coluna dizer ao eleitor se a presença de Carlos Bolsonaro, Jair Renan, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro nome desse grupo é boa ou ruim para Santa Catarina. Essa decisão pertence exclusivamente ao eleitor. O que cabe ao colunista é olhar para o movimento, retirar dele o aspecto mais óbvio e tentar compreender o que existe por trás de uma escolha que, evidentemente, não parece ter sido geográfica.

Na minha opinião, aqui talvez esteja a pergunta que os demais candidatos deveriam estar fazendo com mais atenção: se os Bolsonaro enxergaram em Santa Catarina uma possibilidade de construir uma base política com projeção nacional, o que os outros grupos políticos estão oferecendo ao Estado como projeto de poder?

No caso de João Rodrigues, que hoje aparece como o principal adversário de Jorginho Mello na disputa pelo governo, a questão vai além de simplesmente disputar o eleitorado que não está com Bolsonaro. É preciso compreender qual é o espaço político que pretende ocupar e qual projeto de Santa Catarina pretende apresentar para além da polarização nacional. Afinal, se a família Bolsonaro chegou ao Estado trazendo uma estratégia claramente nacional, talvez esteja faltando aos seus adversários apresentar uma estratégia igualmente clara para Santa Catarina.

Essa é uma diferença que pode se tornar decisiva ao longo da campanha. Não basta dizer que Santa Catarina não pertence aos Bolsonaro. É preciso mostrar a quem ela pertence politicamente, ou melhor, que projeto de Estado seus próprios líderes pretendem construir. Porque, se existe uma estratégia nacional desembarcando em Santa Catarina, o contraponto não pode ser apenas a resistência a essa estratégia. Precisa ser uma estratégia catarinense capaz de disputar espaço, influência e futuro.

Voltando ao questionamento central desta provocação e depois de observar os movimentos das últimas semanas, parece difícil acreditar que a resposta seja simplesmente uma eleição para o Senado, uma vaga na Câmara dos Deputados ou mesmo o apoio a um candidato ao governo. Há método demais, movimentação demais e interesses nacionais demais envolvidos para tratar tudo isso como uma coincidência eleitoral.

Carlos Bolsonaro não transferiu seu domicílio para Santa Catarina por acaso. Jair Renan não construiu sua trajetória política no Estado por acaso. Flávio Bolsonaro não transformou Santa Catarina em um de seus principais palanques por mera conveniência. A escolha de Santa Catarina como espaço para uma operação política dessa dimensão também não parece ter sido casual.

Não se pode prever que os Bolsonaro conseguirão aquilo que vieram buscar. A eleição ainda precisa acontecer, parte dos catarinenses ainda precisa escolher seus representantes e a política de Santa Catarina continua tendo seus próprios atores, interesses e contradições. O que pode afirmar, com veemência, é que existe uma estratégia em curso e que seria ingenuidade tratar todos esses movimentos apenas como decisões eleitorais isoladas.

Por isso, a pergunta que abriu esta coluna continua sem uma resposta definitiva: o que os Bolsonaro querem em Santa Catarina? Talvez ainda não seja o momento certo para saber exatamente até onde esse projeto pretende chegar, mas já não parece cedo demais para reconhecer que a escolha do Estado não foi geográfica. Santa Catarina foi escolhida por aquilo que representa eleitoralmente, pelo espaço que pode oferecer dentro de uma estratégia nacional e pela possibilidade de transformar força regional em poder político.

Resta saber se os Bolsonaro conseguirão transformar essa escolha em domínio político ou se encontrarão, em Santa Catarina, uma estrutura própria, com lideranças e projetos capazes de disputar esse espaço. Porque a verdadeira questão talvez não seja apenas o que a família Bolsonaro pretende construir aqui, mas quem terá condições de responder a esse movimento com uma estratégia própria.

E essa é uma pergunta que não deveria interessar apenas aos Bolsonaro, mas a todos os que pretendem disputar o poder em Santa Catarina.

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