Existe um jeito simples de medir a influência de um banqueiro sobre um ministro: ver o que ele levou pra casa.
Daniel Vorcaro procurou André Mendonça em março de 2025. Foi recebido uma vez, por 20 ou 30 minutos, num instituto em São Paulo. Falou de um processo de precatórios. O ministro ouviu, orientou que o advogado mandasse memorial pro gabinete, guardou o memorial e, quando o caso andou, votou contra o banco. É o que diz a nota do gabinete divulgada nesta quarta, e é o que o próprio relatório da Polícia Federal deixa em branco: não há uma mensagem, um recibo, um cartão, uma cota de jato, um “dívida de vida” com o nome de Mendonça. Zero.
Daniel Vorcaro procurou Alexandre de Moraes em dezembro de 2023, pelas mãos de Fábio Faria. Treze segundos depois de receber o contato, já tinha salvado no celular. Três semanas depois, a mulher do ministro mandou a minuta de um contrato de R$ 131 milhões. Dois anos depois, o banco tinha pagado R$ 80 milhões ao escritório dela, emitido cartão de crédito com limite de R$ 300 mil pra cada filho do casal, colocado cotas de jato e helicóptero à disposição da advogada e recebido 52 bilhetes do banqueiro num contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, inclusive um perguntando se precisava fugir do país.

Aí me digam qual dos dois encontros merece manchete.
A resposta da imprensa foi dada nesta quarta, às 7h25 da manhã. Dezesseis horas depois de Mendonça derrubar o sigilo do relatório que descreve tudo isso sobre Moraes, uma newsletter publicou “mensagens e áudios inéditos” que revelam um “encontro secreto” de Vorcaro com Mendonça. Secreto a ponto de o ministro confirmar por escrito na primeira ligação do Estadão. Inéditos a ponto de terem chegado “junto a uma fonte”, fora dos autos, no dia seguinte ao pior dia da vida institucional de Alexandre de Moraes.
O que tem nesses áudios? Um advogado dizendo a Vorcaro que levou “o André” pra fazer um terno e que está “trabalhando por você”. O mesmo advogado dizendo que “deu uma balançada nele”. Ou seja: um terceiro contando ao cliente que tem trânsito com um ministro. Isso tem nome no mercado de Brasília, e o nome é vendedor de prestígio. A própria reportagem admite, lá embaixo, que o material “não comprova que Mendonça tenha interferido” em nada.
Compare com o outro lado. Moraes, em março, disse que nunca trocou mensagem com Vorcaro. O Supremo emitiu nota dizendo que uma perícia não achou nada no número dele. Semanas antes, segundo o UOL, o ministro tinha trocado de celular, de chip e de número, bem quando a PF começava a abrir os aparelhos do banqueiro. Desde terça, quando as 218 páginas ficaram públicas, o silêncio dele é total.
E tem um detalhe que a reportagem do “encontro secreto” esqueceu de destacar. O processo que Vorcaro foi discutir com Mendonça, a STP 976, estava parado. Parado com pedido de vista de Alexandre de Moraes, feito em novembro de 2024 quando o placar já era 6 a 0. Moraes só devolveu o processo em fevereiro de 2026, com Vorcaro preso. Quem tinha a chave da gaveta que o banqueiro queria abrir não era o relator que ele foi visitar em São Paulo. Era o ministro cuja mulher recebia R$ 3 milhões por mês.
Também não custa lembrar quem escancarou esse caso. Foi Mendonça quem mandou a PF descobrir a quem Vorcaro escrevia. Foi Mendonça quem tornou público o resultado. Foi Mendonça quem decidiu que o plenário do Supremo vai discutir isso em sessão aberta, com câmera ligada. E foi Mendonça quem, em junho, na cara de Gilmar Mendes, disse que a defesa do banqueiro tentou vender uma delação seletiva e que ele não quis nem abrir o arquivo.
O procurador-geral da República, que aparece 22 vezes no relatório e cujo filho foi levado a Londres pelo banqueiro, respondeu ao relatório pedindo que ele seja anulado. O advogado que fez os áudios contra Mendonça é o mesmo Ciro Soares que encaminhava a Vorcaro recados atribuídos a Gonet: “Estou na torcida por vocês”. Nesse tabuleiro, todo mundo parece jogar do mesmo lado, menos um.
Vorcaro entrou no Planalto quatro vezes. Sentou uma hora e meia com Lula, com Galípolo na sala. Foi a Londres com dois ministros do Supremo, o diretor-geral da PF e o procurador-geral, tudo pago pelo banco. Esse homem tinha acesso a quem quisesse. A pergunta nunca foi quem ele conseguiu encontrar. A pergunta é quem ele conseguiu comprar.
Com Mendonça, saiu de mãos vazias. Com a família Moraes, saiu com um contrato de R$ 131 milhões. O leitor não precisa de perito pra entender a diferença.
















