O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, referência no combate ao PCC e jurado de morte pela facção, disse nesta terça-feira (27) que aceitaria comandar o Ministério da Segurança Pública que Lula promete criar no quarto mandato. Gakiya afirmou que ainda não recebeu convite.
“Se o ministério for criado e eu vier a ser convidado, aceitaria com prazer. Seria uma honra dar uma colaboração para a área de segurança do país”, disse o promotor. Em outra entrevista no mesmo dia, ele repetiu: “Claro, se fosse convidado aceitaria, sim”.
Nos bastidores, o governo sonda dois nomes para a pasta: Gakiya e o senador Camilo Santana (PT-CE), ex-ministro da Educação, que ganhou força na coordenação da campanha de Lula no 2º turno. A fala do promotor saiu dois dias depois da reeleição de Lula, no domingo (25), contra Flávio Bolsonaro (PL).
A promessa de Lula
A criação do ministério é promessa de Lula. Em maio, ao lançar em Brasília uma ação contra o crime organizado, o presidente afirmou: “O dia que o Senado aprovar a PEC da Segurança, nos próximos dias, nós criaremos o Ministério da Segurança Pública nesse país”.
Na mesma fala, Lula defendeu que a União volte a ter papel ativo na segurança, sem tirar o espaço dos governadores. “O dado concreto é que se a gente não trabalhar junto, a gente não consegue vencer. E o crime organizado se aproveita da nossa divisão”, disse.
Quem é Lincoln Gakiya
Gakiya é promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em Presidente Prudente, no interior paulista, e investiga o PCC há mais de 20 anos. Ele já trabalhou com o governo federal: fez parte do grupo do Ministério da Justiça que elaborou o projeto antifacção, que virou lei em março deste ano. “Eu, inclusive, fiz parte do grupo de trabalho do Ministério da Justiça que ajudou a elaborar esse projeto de lei”, contou o promotor, que chama o texto de “projeto antimáfia”.
Assim como Lula, o promotor defende a integração entre as forças de segurança federais e estaduais. Ele também é contra classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas: para Gakiya, as facções atuam como máfias.
O trabalho tem um preço alto. Em outubro de 2025, depois de uma operação que desarticulou mais um plano da facção contra ele, Gakiya resumiu: “No meu caso aqui, eu contabilizo pelo menos uma dezena de planos pra me assassinar”. Segundo ele, havia uma ordem do PCC para matar três pessoas: ele, o coordenador de presídios Roberto Medina e o ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes, assassinado em setembro de 2025.
Desde dezembro de 2018, Gakiya anda com uma escolta que, segundo ele, nenhuma outra autoridade do país tem. “Eu não posso viajar com a família, eu não posso ir pra uma praia, prum hotel, nem mesmo no restaurante, às vezes no shopping, por conta da escolta”, disse em 2023. Foi ele quem pediu, em 2019, a transferência de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como chefe do PCC, e de outros 21 líderes da facção para presídios federais.
O ministério depende da PEC
A PEC da Segurança Pública já passou pela Câmara e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e agora precisa ser votada em dois turnos no plenário. A votação foi adiada em 15 de outubro pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em meio à discussão sobre a redução da maioridade penal. A meta do governo é aprovar o texto ainda este ano.
Gakiya também defende a votação neste ano. “Ela vai permitir que o governo federal também tenha responsabilidade na segurança pública; não só os estados”, disse.
Nesta terça, o ministro José Guimarães, das Relações Institucionais, afirmou que “a PEC da Segurança tá pronta pra ir ao plenário do Senado Federal”. O líder do PT na Câmara, o deputado catarinense Pedro Uczai, defendeu tirar do texto a redução da maioridade penal “pra dar condições do presidente Lula criar um ministério”.
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