O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou a entrevista ao Flow Podcast, na noite desta quinta-feira (1º), dizendo que “ninguém é capaz de consertar esse país como eu”. A frase saiu a três dias do primeiro turno, da boca de um candidato à reeleição que já passou quase 12 anos na Presidência: os dois mandatos de 2003 a 2010 e o atual, iniciado em janeiro de 2023.
“Eu tô achando que eu vou ser eleito domingo, porque é o seguinte: ninguém é capaz de consertar esse país como eu”, afirmou ao apresentador Igor Coelho. A justificativa veio em seguida: “Porque tem uma coisa que eu tenho que os outros não têm, eu gosto do povo. Eu gosto de gente”.
Lula sustentou a frase com a própria biografia. “Tudo que o povo vive, Igor, eu já vivi”, disse. Contou que já morou em casa alagada, “com um metro e meio de água”, e repetiu: “Já morei em barraco” e “já passei fome”. Disse ainda que ia a pé para o trabalho porque não tinha “uma desgraçada duma moeda pra pagar o ônibus”.
Quase 12 anos na cadeira
O país que Lula diz que só ele conserta é o que ele governa. Foram oito anos nos dois primeiros mandatos, de 2003 a 2010, e três anos e nove meses do terceiro, que começou em 1º de janeiro de 2023. Na mesma entrevista, ele próprio fez a conta. Ao relatar uma reunião com empresários, contou ter dito a eles: “Vocês não têm escolha. Ou sou eu, ou é a barbárie”. E comparou currículos: “E eu com doze de experiência da presidência do país. Dá uma olhada nos outros candidatos”.
No encerramento, voltou ao tema: “Eu tenho orgulho de ser o primeiro presidente eleito três vezes nesse país”. Mais cedo, tinha colocado a culpa do que falta no governo anterior. “Eu peguei um país desmontado”, disse. “Levamos dois anos e meio pra montar. Ele tá preparado agora.” A entrega ficou para depois da eleição: segundo Lula, é “no meu último mandato” que vai acontecer “o crescimento do país e o salto de qualidade do Brasil”.
O que os números dizem do conserto
Os indicadores do período em que Lula está no poder não acompanham o discurso. O Brasil chegou a 83,98 milhões de pessoas com o nome sujo em agosto, o maior número de toda a série, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa. Em julho eram 83,93 milhões.
A pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra 82% das famílias endividadas em agosto, sétimo mês seguido no nível recorde. Quase três em cada dez (29,9%) têm contas em atraso, e 12,5% dizem que não vão conseguir pagar. Em julho de 2025 o índice era de 78,5%. No cartão de crédito, o juro do rotativo chegou a 444,9% ao ano em agosto, contra 436,2% em julho, conforme as estatísticas de crédito do Banco Central.
“Eu reconheço que o alimento tá caro”
A comida foi outro ponto em que o próprio presidente admitiu o problema. Igor Coelho lembrou que, em 2022, Lula dizia que o brasileiro voltaria a comer picanha. A resposta: “Se não tiver dinheiro pra comprar carne, a gente compra ovo, se não tiver ovo, a gente compra salada”. Logo depois, reconheceu: “Eu reconheço que o alimento tá caro”. E completou: “Obviamente que o preço não caiu, sabe? Mas nós vamos cuidar desse preço baixar”.
O dado oficial mais recente é o de agosto. O IPCA acumula alta de 4,22% em 12 meses e de 3,11% no ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mês, o grupo Alimentação e bebidas recuou 0,34% e o ovo de galinha caiu 4,15%, mas as carnes subiram 0,61%. No acumulado de janeiro a agosto, a alimentação subiu 3,50%, acima da inflação geral, e as carnes ficaram 6,21% mais caras, pelas contas do Instituto Fome Zero, feitas sobre as tabelas do IBGE.
A pesquisa não mostra vitória no domingo
A aposta de ser “eleito domingo” também não está nos números. O Datafolha divulgado nesta quinta-feira dá a Lula 45% dos votos válidos, contra 40% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Para vencer no primeiro turno, o candidato precisa de mais da metade dos votos válidos. Nos votos totais, o placar é de 42% a 38%. Em um segundo turno, Lula teria 48% e Flávio, 45%, empate no limite da margem de erro, de dois pontos percentuais. O instituto ouviu 2.506 eleitores entre 28 de setembro e 1º de outubro, a pedido da Folha de S.Paulo e da TV Globo, e a pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08039/2026.
Aos 80 anos, recado aos idosos e aos jovens
Lula tem 80 anos e faz 81 no dia 27 deste mês. No Flow, tratou a idade como trunfo: “E tô com meus oitenta anos”, disse, afirmando estar “com a energia de um moleque de cinquenta”. Depois pediu a palavra para falar com quem tem mais de 70 anos, faixa em que o voto é facultativo. “Não acredite que pelo fato de você ter setenta ano, você não deve votar porque a lei permite que você não vote”, afirmou. “Compareça, levante e vá votar. Faça como eu.” Prometeu criar, “nesse novo mandato”, uma política para cuidar das pessoas idosas, sem dizer como nem quanto custa.
Aos jovens, o recado veio com uma explicação para o crescimento do adversário. Lula disse que o rapaz de 16 ou 17 anos “não acredita em nada, xinga todo mundo, todo mundo é ladrão, ninguém presta” e emendou: “Por isso é que o Bolsonaro cresceu”. Quando o apresentador concordou “em boa medida”, ele completou: “A ignorância leva a gente a fazer coisa errada”. Em seguida, pediu que a juventude entre na política: “O político honesto que você quer tá dentro de você, cara”. E fechou: “Seja eu amanhã, porque eu já fui você ontem”.
Até a publicação desta matéria, o Jornal Razão não localizou resposta pública de Flávio Bolsonaro nem dos demais candidatos à frase. O primeiro turno é no domingo (4).
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