O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chamou o senador Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário na disputa pela Presidência, de “vira-lata” e “traidor da pátria” na noite desta quinta-feira (1º), em entrevista ao Flow Podcast. O xingamento veio na frase seguinte àquela em que Lula disse tratar “todo mundo com respeito”. A entrevista foi ao ar a três dias do primeiro turno, no horário em que a TV Globo faria o último debate entre os presidenciáveis, ao qual o presidente avisou que não iria.
Lula falava do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Contou que, quando o americano se gaba de ter “o melhor exército do mundo”, responde assim: “Ô Trump, não adianta falar pra mim, eu não quero guerra com você, porra. Eu não quero guerra com você. Eu quero derrotar você na narrativa”. Disse que por isso escreveu artigos para jornais americanos e concluiu: “E é por isso que ele me trata com respeito. E é bom me tratar com respeito, porque eu trato todo mundo com respeito. Eu só quero isso, respeito”.
A frase seguinte foi esta: “Agora, o meu adversário é um vira-lata. Mandou o irmão pra lá pra falar mal do Brasil”. O irmão é o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos. Lula continuou: “Esse dinheiro do filme que ele fala, oitenta e três milhões de dólares, ou sei lá, oitenta, sabe? É um dinheiro pra mandar pro irmão ficar nos Estados Unidos falando mal do Brasil”.
“O Eduardo?”
O presidente então repetiu o xingamento e acrescentou outro: “É um vira-lata, é traidor da pátria. Acabou de ser expulso da Polícia Federal”. Como Flávio nunca foi da Polícia Federal, o apresentador Igor Coelho perguntou: “O Eduardo?”. Lula respondeu “é” e completou: “Se voltar, vai ser preso”.
Ou seja: “vira-lata” foi dito sobre “o meu adversário”, que é Flávio, e “traidor da pátria” veio emendado na repetição do insulto. Já a saída da Polícia Federal e a previsão de prisão são sobre Eduardo. Lula não apresentou prova de que Flávio “mandou” o irmão para os Estados Unidos nem de que o dinheiro do filme serviu para mantê-lo lá.
O dinheiro do filme: o valor que Lula citou não bate
O filme é “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em maio, o Intercept Brasil revelou mensagens e áudios em que Flávio trata do financiamento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Segundo a Agência Pública e o jornal baiano A Tarde, que detalharam o caso, o acerto era de cerca de R$ 134 milhões, o equivalente a US$ 24 milhões, e cerca de R$ 61 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025.
Lula falou em “oitenta e três milhões de dólares, ou sei lá, oitenta”. O número é mais de três vezes o total negociado em dólares, e nenhum dos veículos consultados registra essa cifra. Pelas contas da Polícia Federal, relatadas pela revista CartaCapital em 11 de setembro, o fundo Havengate, no Texas, receberia até US$ 24 milhões de Vorcaro, e US$ 12,3 milhões chegaram a ser transferidos.
Sobre o destino do dinheiro, o que existe é uma suspeita em apuração, não uma conclusão. A PF afirma que Eduardo orientou a forma como os recursos seriam geridos nos Estados Unidos e sugeriu o uso do Havengate, controlado pelo advogado Paulo Calixto, segundo a CartaCapital e o portal Metrópoles. Os investigadores querem saber se o dinheiro foi todo para o filme ou se parte custeou a permanência do ex-deputado no exterior, de acordo com a CartaCapital e o Jornal Opção. No Flow, Lula tratou a suspeita como fato.
“Expulso” da PF e “vai ser preso”
Eduardo Bolsonaro foi demitido do cargo de escrivão da Polícia Federal por abandono de cargo, depois de faltar ao trabalho sem justificativa por mais de 30 dias seguidos. A portaria foi assinada em 18 de setembro pelo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, do governo do próprio Lula, e saiu no Diário Oficial da União no dia 21, como noticiaram o Jornal do Brasil, com texto da Agência Brasil, a CNN Brasil e o jornal O Povo. Ele está nos Estados Unidos desde o início de 2025 e perdeu o mandato de deputado em dezembro daquele ano, por faltas às sessões da Câmara.
A prisão de que Lula falou tem a ver com outro processo. Em junho, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Eduardo a quatro anos e dois meses, em regime semiaberto, por coação no curso do processo: ele foi acusado de atuar junto a autoridades americanas para pressionar a Justiça brasileira na ação que condenou o pai. No dia 18 de setembro, o recurso dele foi rejeitado por unanimidade, segundo o site Consultor Jurídico e o SBT News. Nenhum dos dois textos informa ordem de prisão já expedida.
Os artigos nos jornais americanos
Lula disse que escreveu “acho que três artigos pro New York Times” e um para o Washington Post. O Jornal Razão localizou dois textos assinados por ele no New York Times: um de 14 de setembro de 2025, sobre o tarifaço, em que afirma que a democracia e a soberania do Brasil são inegociáveis (CartaCapital e Jornal do Brasil), e outro de 18 de janeiro de 2026, contra a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela (Poder360 e Jornal do Brasil). No Washington Post, o artigo saiu em 26 de julho deste ano, também sobre tarifas, como registraram o portal TMC e o WSCOM. Um terceiro artigo no New York Times não foi localizado.
O que Flávio e Eduardo já disseram
Sobre o dinheiro de Vorcaro, Flávio afirmou em nota, em maio: “O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público”. O senador negou ter recebido vantagem ou intermediado negócios para o banqueiro, conforme o Jornal Opção e a jornalista Jussara Soares, da CNN Brasil. Eduardo, que se diz exilado e alvo de perseguição política, comentou a investigação em setembro, num evento em Las Vegas: “Já faz, sei lá, quatro meses que falam em Dark Horse. Tentam encontrar alguma coisa, dizem isso e aquilo. E, no fim das contas, não conseguem provar nada. Absolutamente nada”, segundo o site Agenda do Poder e o portal Área VIP.
Não foi o primeiro ataque da noite. Na mesma entrevista, Lula já tinha chamado Flávio de “pessoa desqualificada” e dito que ele não tem qualificação “pra ser síndico de prédio”. Mais adiante, contou ter dito a Trump, sobre a prisão de Jair Bolsonaro: “Se você fosse brasileiro e tivesse acontecido o que aconteceu nos Estados Unidos, você também teria sido preso”.
Até a publicação deste texto, o Jornal Razão não localizou resposta de Flávio nem de Eduardo Bolsonaro às declarações desta quinta-feira. O espaço está aberto para os dois. O primeiro turno é no domingo (4).
Fontes: entrevista de Lula ao Flow Podcast, Jornal do Brasil, com Agência Brasil, CNN Brasil, O Povo, Consultor Jurídico, SBT News, Agência Pública, A Tarde, CartaCapital, Metrópoles, Jornal Opção, Poder360 e Agenda do Poder.
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