Adelar José Tolfo, 66 anos, candidato a deputado estadual pelo PSDB e com 34 anos de carreira na gestão pública de saúde, apresentou em entrevista ao Jornal Razão propostas para reestruturar o SUS em Santa Catarina: criar a profissão de “motorista da saúde”, com legislação e capacitação próprias, ampliar a regionalização dos serviços e implantar um cofinanciamento estadual para valorizar os profissionais. Ele também critica a destinação e o engessamento das emendas parlamentares.
Quem é Tolfo
Adelar José Tolfo, conhecido como Tofo, tem 66 anos e nasceu no interior do Rio Grande do Sul. Foi agricultor até os 22 anos, trabalhou em um hospital como auxiliar de enfermagem e passou em concurso público da Eletrosul (Sistema Eletrobras), quando veio para Florianópolis estudar geração e transmissão de energia elétrica, área em que atuou por quatro a cinco anos. Depois se mudou com a família para o Alto Vale, no município de Presidente Getúlio, onde começou na gestão da saúde pública em 2 de janeiro de 1993, a convite do então prefeito Harold Schick. Segundo ele, são 34 anos de trabalho ininterrupto: foi secretário municipal de Saúde de Presidente Getúlio e de Ibirama, gerente regional de saúde pelas SDRs da região e hoje mantém, com sócios, uma empresa de assessoramento técnico que atende 27 municípios do Alto Vale, do Médio Vale e do Vale do Rio Tijucas, além de meia dúzia de pequenos hospitais.
Propostas centrais para o SUS
As propostas que Tolfo diz levar à Assembleia Legislativa têm foco em três frentes: criar a profissão de motorista da saúde, com legislação própria e capacitação; regionalizar os serviços para aproximar o atendimento especializado do paciente; e promover um cofinanciamento estadual para melhorar os salários dos trabalhadores da saúde. Ele afirma que também levará à bancada federal a reestruturação do piso da enfermagem e defende políticas públicas de financiamento para as APAEs e para as redes femininas de combate ao câncer, além de ações integradas de saneamento e controle de zoonoses.
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Por que um “motorista da saúde”?
Tolfo afirmou que hoje o transporte de pacientes é feito por motoristas municipais sem preparo técnico.
Hoje o motorista de saúde é um motorista normal da Prefeitura. Ele é motorista para qualquer coisa. E da saúde ele não pode ser dessa forma, porque precisa de capacitação, porque tem que atender à intercorrência do paciente durante a viagem.
A proposta é criar, em âmbito nacional, o cargo reconhecido como profissional de saúde, com capacitação para lidar com intercorrências durante as viagens. Segundo ele, o trânsito atrasa os deslocamentos em três ou quatro horas, e nesse intervalo o paciente perde o horário do remédio, passa mal ou tem enjoo dentro do veículo. O Jornal Razão questionou o que aconteceria em uma emergência num trajeto longo, como o de um paciente que sai de Ibirama para Florianópolis. Tolfo respondeu que a falta de capacitação e de reconhecimento coloca em risco a segurança do paciente e classificou a função como um cargo vulnerável.
Atenção primária e valorização profissional
Para o candidato do PSDB, as unidades básicas de saúde, que oferecem vacina, medicação primária, consultas e atendimento odontológico, podem desafogar os prontos atendimentos se houver investimento em mão de obra. Ele destacou que o piso da enfermagem criado anos atrás não recebeu nenhum reajuste e que a pressão financeira leva os profissionais a buscar um segundo emprego.
Porque o salário, principalmente um técnico de enfermagem, é ridículo. Não vamos nem falar em valor aqui porque é ridículo.
A proposta é que o Estado participe do cofinanciamento salarial, nos moldes do que já ocorre com as equipes de saúde da família, o que, na avaliação dele, também melhora a segurança do paciente.
Recursos, emendas e gestão
Tolfo disse que o dinheiro destinado à saúde é insuficiente, mas que também poderia ser mais bem aplicado e monitorado. Ele citou como exemplo um município da Grande Florianópolis, que não quis nomear, com um aparelho de raio-X parado no estoque há mais de um ano, sem que a sala especializada tenha sido construída.
Também apontou falta de critério na destinação das emendas parlamentares e a burocracia que trava o uso do recurso, com verbas que ficam um ou dois anos na conta sem serem gastas. Na sua avaliação, as emendas deixaram de ser um recurso direto da saúde e passaram a ser distribuídas conforme a articulação política de cada prefeito, o que aprofunda a desigualdade entre municípios.
Regionalização e o exemplo do raio-X
Tolfo criticou a regra que obriga todo município com hospital a manter um serviço de raio-X, sem considerar o custo de manutenção. Ele estima a instalação em cerca de R$ 800 mil, sendo em torno de meio milhão para a parte física e trezentos e poucos mil para o equipamento. O custo mensal, segundo ele, não fica abaixo de R$ 20 mil em um município pequeno, enquanto o teto financeiro do SUS para o serviço não chega a R$ 1 mil.
O peso maior é a mão de obra: o serviço funciona 24 horas, com escalas de quatro horas por causa da radiação, e exige técnico em radiologia e médico radiologista para laudar os exames. No Alto Vale, ele relatou o caso de dois municípios com menos de 6 mil habitantes cada, a oito quilômetros um do outro, que mantêm dois hospitais e dois aparelhos ociosos.
Um raio X enxergando o outro e fica um custo caro para os dois municípios e o equipamento fica ocioso.
O candidato reconheceu avanços do governo estadual, como o incentivo de R$ 25 mil por porta de entrada mais R$ 25 mil para a integração clínica, total de R$ 50 mil, mas afirmou que o modelo ainda não garante sustentabilidade aos pequenos hospitais.
Alianças, avaliação do governo e independência
Tolfo se filiou ao PSDB em março, na janela de filiação, após convite feito no gabinete do deputado estadual Marcos Vieira por Sandro de Fávaro, coordenador do gabinete e ex-secretário municipal de Saúde que trabalhou com ele em outro período. O candidato declarou apoio à gestão do governador Jorginho Mello (PL) e citou o mutirão de cirurgias eletivas: “essa promessa está sendo cumprida”.
Ao mesmo tempo, afirmou que pretende atuar com independência e disse se opor ao automatismo das bancadas de situação e oposição.
Não votarei sempre a favor ao governo, seja quem for o governo. Estarei do lado dele? Estarei sim, mas não estarei de forma obrigatória.
Mensagem final e pedido de voto
Tolfo encerrou pedindo o voto dos catarinenses para transformar a experiência acumulada em ação legislativa. “Eu vou ser um deputado acolhedor”, afirmou, prometendo parceria com prefeitos e secretários municipais de Saúde e atuação nas pautas da atenção primária, da regionalização e do financiamento. Disse estar em formação contínua, citando que conclui um MBA em gestão hospitalar, e afirmou que a candidatura nasceu de uma convicção técnica: “o parlamentar precisa de preparo”.







































