A pergunta parecia inofensiva. “Dona de casa, um dia de chuva que nem hoje, é dia de pendurar roupa na rua? Nosso agricultor, um dia que nem hoje, é dia de capinar uma roça?” Foi assim que o prefeito de Angelina, Eliseu José Coelho (PL), abriu o vídeo publicado nas redes sociais que incendiou o município da Grande Florianópolis. A resposta que ele mesmo deu, na sequência, mirou um setor inteiro: “Por que o pessoal que trabalha com madeira, dia de chuva, está trabalhando, fazendo essa lambança toda na nossa estrada?”
No vídeo, o prefeito afirma que mais de 20 pontos do município estão sendo danificados por empresas que trabalham com extração de madeira. Segundo ele, os caminhões circulam em dias de chuva com excesso de peso, “muitas vezes com o dobro do peso da sua capacidade”, e a prefeitura não consegue acompanhar o ritmo da destruição.
A solução anunciada é um projeto de lei. Eliseu declarou que enviará a proposta à Câmara de Vereadores de Angelina nos próximos dias para regulamentar o tráfego desses veículos em dias de chuva. “A gente vai avisar e, em seguida, teremos que notificar. Não tem quem dê conta de tanta estrada e tanta bagunça que esse pessoal vem fazendo”, disse. E resumiu a equação na legenda da publicação: “Estrada de chão + chuva + caminhão pesado = prejuízo na certa. Assim, não tem estrada que aguente!”
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Madeireiros reagem
O que era um recado administrativo virou um dos assuntos mais comentados da região e abriu uma disputa que vai muito além das estradas: de um lado, moradores cansados de atoleiros; do outro, um setor que sustenta empregos e diz que não pode parar quando chove.
A reação mais dura veio dos próprios madeireiros.
“Sou filho, neto e bisneto de madeireiros. Como qualquer negócio, não se pode parar, nem em dia de chuva, porque boleto e compromisso não esperam. A culpa não é do madeireiro, a culpa é sua, por apontar o erro pra uma classe enquanto quer mascarar o verdadeiro erro, que é a falta de manutenção de estrada”, escreveu um trabalhador do setor.
Outro empresário, que afirma atuar há 19 anos com madeira no município, questionou o alcance da medida: “Desses 20 pontos citados, se existirem dois que são de empresas de Angelina, é muito. Não é porque empresas de fora fazem lambança que todos devem pagar na mesma moeda. Medidas devem ser tomadas quanto aos descasos nas estradas, não contra os madeireiros.”
O argumento econômico dominou a discussão. “O senhor vai pagar os funcionários parados? O pessoal que tira a madeira? Os funcionários de uma serraria? Porque, se a madeira não for extraída, o restante para. E quem vai sustentar esse pessoal? A prefeitura?”, perguntou uma internauta. Outros lembraram que o inverno no Sul pode emendar meses de chuva, o que, na prática, transformaria a regulamentação em paralisação.
Cobrança devolvida
Houve também quem devolvesse a cobrança para o outro lado do balcão. Moradores questionaram se os caminhões e caçambas da própria prefeitura respeitam o limite de peso e param em dias de chuva, e um deles convidou o prefeito a percorrer a estrada do Rio Areia: “A situação é vergonhosa. Tem lugar em que a estrada está praticamente abandonada. Antes de cobrar soluções dos outros, talvez seja hora de começar dando o exemplo.”
O prefeito, porém, não ficou sem defesa. Parte dos moradores comemorou o anúncio e cobrou rigor contra o que chamou de farra nas vias públicas. “Tem que regulamentar mesmo, do jeito que está não pode continuar”, escreveu uma internauta. Outro morador foi além: “Está na hora de acabar com essa bagunça. Eles fazem as cagadas e vão embora com os caminhões, e nós nos estrepamos com o nosso carro nesses atoleiros. Vai firme pra cima deles, prefeito.”
Entre os comentários, apareceram ainda ponderações sobre a legislação já existente. Pelo Código de Trânsito Brasileiro, veículos de carga com peso bruto total acima de 3.500 quilos já são obrigados a passar pela balança quando há sinalização ou ordem de fiscalização, e fugir da pesagem gera multa por evasão. Para parte dos críticos, o caminho seria fiscalizar o excesso de peso com as regras que já existem, e não criar uma restrição por causa do clima.
Até o momento, o projeto de lei não foi protocolado. A proposta, segundo o próprio prefeito, deve chegar à Câmara de Vereadores de Angelina nos próximos dias, quando os vereadores decidirão se a extração de madeira do município vai, de fato, parar quando o tempo fechar.








































